sábado, 6 de julho de 2013

Morgan Freeman e a “Consciência Negra”


Estamos no último dia do mês de novembro e, nas últimas semanas, pudemos acompanhar os debates acerca do dia da “Consciência Negra”. Trata-se do dia 20 de novembro, data na qual são discutidos temas como o racismo e o papel dos negros na história e na sociedade brasileira.
Recentemente, o trecho de uma entrevista do ator norte-americano Morgan Freeman circulou nas redes sociais, especialmente no Facebook. No vídeo, quando questionado sobre o que acha do “Mês da Consciência Negra”, Freeman responde: “Ridículo”. Na sequência, o ator argumenta que não se deve confinar toda a história dos negros a um único mês e salienta que não há um “mês da consciência branca”. Por fim, ele afirma que, para se acabar com o racismo, é preciso parar de falar nele: “Eu vou parar de chamá-lo de branco… E o que eu lhe peço, é que pare de me chamar de… negro!”, ele disse.
Muitas pessoas que divulgaram esse trecho da entrevista de Morgan Freeman se limitaram a usá-lo como “argumento” para criticar a existência do “Mês da Consciência Negra”. Duas observações devem ser feitas aqui: em primeiro lugar, o vídeo foi tirado do seu contexto, e poucas pessoas se questionaram sobre a entrevista na íntegra e sobre o lugar de onde Freeman fala. Em segundo lugar, parte considerável dessas pessoas não percebeu algo importante: o que Freeman propõe não é pura e simplesmente um esquecimento do racismo, mas sim que as pessoas parem de ser identificadas pela cor da pele. No mundo idealizado por Morgan Freeman, a formação das identidades individuais e coletivas não deve ter a cor da pele como fator determinante.
Particularmente, eu adoraria viver nesse mundo proposto por Morgan Freeman, mas, infelizmente, eu não vivo. A minha sociedade é, sim, racista e penso que não devemos parar de falar a respeito. Acredito que datas como o dia da “Consciência Negra” são sim importantes, desde que estimulem as pessoas a uma reflexão profunda sobre o racismo, onde a problematização dos processos de construção das identidades é fundamental.
Infelizmente, o que se viu no Facebook nos últimos dias, na maioria das vezes, foi uma discussão rasa e simplista. Entre pensar criticamente sobre o tema e simplesmente clicar para “Compartilhar” o vídeo de Freeman, muitos optaram pelo clique. O que o astro de “Conduzindo Miss Daisy” acharia disso?

Texto originalmente publicado na Coluna do Nehac do Jornal Correio de Uberlândia no dia 30 de novembro de 2012.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

30 anos de “War”


Em 2013, o álbum “War”, da banda irlandesa U2, completa 30 anos. Lançado em 1983 e produzido pelo lendário produtor Steve Lillywhite, “War” pode ser considerado um dos grandes discos do U2. A capa mostra o rosto do garoto Peter Rowen olhando-nos de maneira desafiadora, dura, furiosa. O preto e branco da imagem contrasta com as palavras “U2” e “War” (“Guerra”, em português), escritas com uma vermelha cor de sangue no lado direito da capa.
É interessante percebermos a diferença entre as capas de “Boy” (o primeiro disco do U2, lançado em 1980) e “War”. Peter Rowen também aparecera na capa do álbum de estreia do U2, mas a sua expressão facial fora mais infantil, e não a ameaçadora que pode ser vista na capa do disco de 1983. Não só os aspectos visuais dos discos são diferentes, mas a sonoridade das músicas e o teor das composições também passaram por algumas mudanças.
“War” é um disco mais maduro, onde se destaca a presença mais intensa e direta da temática política nas canções. A primeira faixa do disco é “Sunday Bloody Sunday”, na qual o som da bateria de Larry Mullen Jr. se assemelha ao de uma metralhadora. A letra é uma referência ao Domingo Sangrento, de 1972, no qual houve um confronto entre manifestantes católicos e o exército inglês, na Irlanda do Norte. “Sunday Bloody Sunday” é um protesto contra a violência e a intolerância. Outras faixas do disco também merecem a nossa atenção, tais como “New Year’s Day”, “Like a Song…”, “Two Hearts Beat as One” e “40”.

“War” é um disco que está intimamente ligado ao momento histórico no qual foi produzido: a invasão soviética ao Afeganistão, o movimento “Solidariedade” na Polônia, as eleições de Ronald Reagan, nos EUA, e de Margaret Thatcher, no Reino Unido, a guerra das Malvinas, o terrorismo do IRA, o desemprego na Irlanda etc. “War” surgiu a partir daquele contexto de violência, brutalidade e degradação, e suas músicas são um protesto contra a situação vivenciada naquele momento.
“Um tapa na cara”, assim o vocalista Bono definiu o disco. De fato, “War” é mesmo um álbum provocador, tendo recusado o escapismo comum a outras bandas da época. Mais que isso, este disco é um marco na trajetória do U2, uma banda que se preocuparia cada vez mais, nas décadas seguintes, com temas políticos e sociais, sempre presentes em seus discos. Aliás, tais temáticas têm servido não só à criação artística da banda, mas também como uma eficiente forma de marketing do grupo.

Texto originalmente publicado na Coluna do Nehac do Jornal Correio de Uberlândia no dia 01 de março de 2013.

O Universo dos Doramas


As sociedades ocidentais recebem, há anos, vários elementos oriundos das culturas orientais. De artes marciais a conteúdos filosóficos, passando por mangás, filmes, músicas e moda, diversos produtos culturais oriundos de países como Japão, Coreia do Sul e China chegam até nós e conquistam fãs e adeptos. Em tempos de internet, esse processo fica cada vez mais visível, haja vista o exemplo do sucesso alcançado pela canção “Gangnam Style”, do sul-coreano Psy, no mundo todo.
O fato é que, no campo das trocas culturais que permeiam o concerto das nações, os países orientais têm conquistado cada vez mais visibilidade e destaque, algo que certamente vai ao encontro do papel desempenhado por eles na economia contemporânea.
Sob esse prisma, há um tipo de produção oriental que tem chamado a atenção no Ocidente: os “doramas”. Este é o nome usado para designar as séries televisivas produzidas no Japão (os J-Dramas), na Coreia do Sul (os K-Dramas), na China (os C-Dramas) e assim por diante. Os doramas formam um universo bastante particular e têm muito a mostrar das culturas orientais.
Marcados por uma forte carga dramática, os doramas alternam entre momentos de tristeza e de intensa excitação, provocando lágrimas e gargalhadas em quem assiste. Seja em histórias ambientadas no tempo presente seja naquelas ambientadas no passado, essas séries tratam de temas como amor, amizade, a busca pela felicidade e os papéis a serem desempenhados por homens e mulheres nas sociedades orientais.
Não espere ver muitas cenas de beijos nem muitas cenas de carícias e contato físico intenso nos doramas. Nessas produções, os sentimentos dos personagens são revelados e explicitados mais pela força do olhar e pelos expressivos diálogos. Também são comuns cenas de funerais que se desenrolam durante uma chuva, bem como a noção de que as pessoas são destinadas umas às outras.
Doramas como “Aka Faith”, “Arang and the Magistrate”, “To the Beautiful You”, “Boys over Flowers” e “Personal Taste” são disponibilizados gratuitamente na internet, havendo também comunidades online de fãs que trocam informações, divulgam e também traduzem os episódios para diversas línguas. Cativante, o universo dos doramas tem chamado a atenção de pessoas em vários países do mundo, incluindo o Brasil. Vale a pena conferir!

Texto originalmente publicado na Coluna do Nehac do Jornal Correio de Uberlândia no dia 05 de abril de 2013.

A crítica de cinema em tempos de internet


Os interessados em cinema encontram na internet um amplo conteúdo sobre filmes. Sites especializados oferecem muito material de pesquisa para os amantes da sétima arte e também para os estudiosos. Nesse cenário, a crítica de cinema ganha novos espaços, não mais restritos aos jornais e revistas impressos das décadas passadas. Com o crescente aumento do acesso à internet, podemos dizer que os críticos de cinema hoje conseguem alcançar uma quantidade cada vez maior de leitores.
O internauta vê em casa os horários de exibição de um filme e já dá uma olhada nos comentários acerca da obra disponíveis na rede mundial de computadores. Seja nas mídias impressas, seja nas mídias virtuais, o que podemos verificar é que a crítica de cinema muitas vezes interfere na recepção dos filmes por parte do grande público. Como o historiador Alcides Freire Ramos afirma no livro “Canibalismo dos Fracos” (2002), “o crítico possui um papel importante no que se refere à formação da opinião sobre os filmes”.
Posto isso, há algo preocupante que podemos observar na internet: a repetição desvairada das ideias e colocações dos críticos de cinema por parte de muitos espectadores, especialmente nas redes sociais. Sites como o “Cinema com Rapadura”, por exemplo, que divulga críticas de filmes, muitas delas interessantes, diga-se de passagem, oferecem um prato cheio para os papagaios de plantão na web. Nestes tempos de internet, onde impera o “copiar e colar”, a criatividade e a autonomia de pensamento parecem estar fora de moda.
É espantoso ver universitários que se dizem “cinéfilos” e “intelectuais” reproduzindo descaradamente, palavra por palavra, sem dar os devidos créditos às fontes, o que os textos de crítica de cinema dizem sobre certos filmes, não se arriscando a uma interpretação própria das obras. Como afirma Alcides Freire Ramos no livro, “a crítica de cinema não é neutra”. Em outras palavras, os críticos não são donos de uma verdade absoluta sobre os filmes, é preciso ler seus textos de maneira cuidadosa, verificando os méritos e as limitações das análises.
Ler a crítica especializada é um passo importante para entendermos o significado que os filmes adquirem em determinados contextos. Contudo, apenas reproduzir, cega e apressadamente, o que os críticos dizem sobre as películas é, na minha avaliação, um exercício “intelectual” bastante ingênuo e pobre.

Texto originalmente publicado na Coluna do Nehac do Jornal Correio de Uberlândia no dia 17 de maio de 2013.

Ladrões “milagreiros”


Há vários anos a dupla sertaneja Zilo & Zalo gravou uma canção chamada “O Milagre do ladrão”. A história contada pela música é comovente. Um menino paraplégico ouve de sua mãe que um dia Jesus Cristo virá curá-lo. Quando um ladrão invade a casa do menino, o garoto pensa que aquele estranho é Jesus, levanta-se da cama e caminha até ele. “O inocente no momento foi curado, sem perceber que era o milagre de um ladrão”, cantam Zilo & Zalo ao fim da música. Uma canção sobre o poder da fé, e também sobre a ingenuidade e a inocência de uma criança.
De uns anos para cá temos acompanhado o aumento do número de novas igrejas, bem como a expansão de instituições religiosas mais antigas. Tem sido espantoso ver que em muitas dessas instituições existem verdadeiros ladrões, pessoas interessadas unicamente em explorar a fé, a inocência e a ingenuidade dos fieis. São líderes religiosos que almejam, no fundo, apenas o enriquecimento pessoal. Sob o disfarce de “homens de Deus”, tais lideranças querem somente o dinheiro dos outros.
Pessoas que enfrentam diversos problemas – doenças, dificuldades financeiras, dependentes químicos na família, falta de sorte no amor etc – são atraídas por representantes de tais religiões que prometem a solução para todos esses obstáculos, desde que haja uma contribuição financeira por parte daquele que quer “mudar de vida”.
Sedutores, muitos desses líderes religiosos usam até programas de TV para “vender o seu produto”. E eles sabem bem como projetar a voz, como gesticular e como controlar suas expressões faciais na telinha. E convencem os fiéis! Fragilizadas pelos problemas cotidianos da vida, muitas pessoas acabam “comprando o peixe” desses mercadores da fé, por vezes a altos preços. E se determinado problema é superado, o fiel acaba creditando todos os méritos à sua igreja, ao seu líder, e não ao próprio esforço pessoal ou a outros fatores.
Muitos inocentes estão sendo curados por aí, e não estão percebendo que os “milagres” são operados por pessoas ainda mais mal intencionadas que o ladrão da música de Zilo & Zalo. A fé não tem movido apenas montanhas, mas também tem movimentado muito dinheiro. E quem está realmente lucrando com isso?
Quanto a mim, faço minhas as palavras do próprio Cristo: “Não transformem a casa de meu Pai num mercado”. Mesmo porque a minha ligação com Deus dispensa atravessadores…

Texto originalmente publicado na Coluna do Nehac do Jornal Correio de Uberlândia no dia 05 de julho de 2013.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Três amigas

Há quem diga que a amizade entre homem e mulher é impossível. Durante muitos anos eu tive pouquíssimas amigas, minhas amizades mais fortes eram com os outros garotos da minha idade, o que parecia confirmar a ideia de que era mesmo impossível ser amigo de alguém do sexo oposto. Talvez pela timidez, sempre me senti mais à vontade com outros garotos, as conversas e as piadas sempre fluíram melhor com eles. Tal situação mudou apenas durante os anos de faculdade, mais maduro e menos inseguro me soltei mais com as garotas. Não, eu não me tornei um conquistador de incontáveis mulheres, o que eu ganhei mesmo ao me aproximar delas foram preciosas amizades.
Ter amigas tem sido uma coisa muito boa para mim. Acho que todo homem devia ter pelo menos uma. Se tiver várias, melhor ainda. É bom ter alguém com quem se possa conversar sobre coisas que não sejam relacionadas a futebol, carros, piadas sujas ou filmes de ação. Com minhas amigas aprendi muito sobre novelas, filmes de amor, moda, culinária. Melhor ainda, com elas eu venho aprendendo um pouco sobre o universo feminino, esse mundo de coisas que nós homens nunca vamos conseguir entender completamente. Minhas amigas me ensinaram sobre a importância de ser gentil e educado com os outros, sobre o valor de um abraço, sobre ter paciência para ouvir o que o outro tem a dizer, sobre o convívio com as diferenças etc.
Tenho grandes amigas e a convivência com elas tem sido uma experiência belíssima e prazerosa. Gostaria de exemplificar com três casos: Carol, Cassinha e Fafá. Falarei das três aqui não por obra do acaso. Acontece que hoje é dia 25 de Janeiro, dia dos aniversários das três. Isso mesmo! Tenho três amigas que fazem aniversário no mesmo dia. Mais ainda: conheci as três na faculdade, onde as três fazem parte do mesmo núcleo de pesquisa que eu. Situação parecida com essa nunca aconteceu com meus amigos homens: prova de que algumas coincidências, de tão mágicas, só ocorrem mesmo quando envolvem o universo feminino.
Carol é, na verdade, Ana Carolina, mas ela prefere que a chamemos pelo apelido. Concordo plenamente. “Carol” combina muito mais com ela, é um nome doce. Carol é a “moça dos esmaltes”, tem bom gosto e entende de coisas bonitas. Ela é de uma humildade ímpar, uma presença sempre agradável. Não precisa usar roupas curtas e provocantes, é um mulherão por natureza. Carol conquista a todos com sua alegria. Das coisas que aprendi com Carol, a que vou levar para sempre comigo é o valor do olhar. Carol tem um olhar doce, ainda de menina e, quando conversa com a gente, é sempre olho no olho. Se os olhos forem mesmo a janela da alma, Carol é realmente uma pessoa especial. Olhando sempre nos nossos olhos, ela se mostra, não sente necessidade de se esconder. O olhar de Carol é sincero.
Cassinha é, na verdade, Cássia. Ela não exige que a chamemos pelo apelido, mas gosto de chamá-la assim porque acredito que combina perfeitamente com ela. Cassinha é de baixa estatura, mas que o leitor não se engane, o apelido no diminutivo não diminui a pessoa que ela é e nem a importância que ela tem para os outros que convivem com ela. Porque Cassinha é uma grande mulher, é corajosa e não tem medo de encarar o que tiver que encarar, enfrenta qualquer situação com uma valentia rara de se ver por aí, não recua ante as dificuldades que aparecem no seu caminho. Com Cassinha aprendi a importância de um sorriso e de um abraço. Não importa se o dia é difícil, ela sempre recebe a todos os seus amigos com um sorriso no rosto e com muito carinho. Cassinha não desconta seus problemas nos outros.
Fafá é, na verdade, Fabrícia. Ao vê-la pela primeira vez no corredor do Bloco 1H, ainda imaturo e com alguns preconceitos na cabeça, pensei que ela fosse apenas mais uma garota bonita, e só. Conviver com Fafá me possibilitou abandonar alguns estereótipos. Ela me ensinou que garotas bonitas podem sim ser inteligentes, boas de papo e educadas. Nem toda mulher bonita é fútil e arrogante. Fafá me mostrou que a verdadeira beleza feminina não depende de maquiagem, mesmo sem nenhum tipo de base aplicado na pele do rosto, uma mulher pode sim ser bonita, se sua beleza vier do seu interior. Nas nossas conversas pelo MSN, aprendi com Fafá sobre a importância de se ter pessoas de confiança, a quem pedir conselhos, confidenciar alguns segredos e falar sobre os problemas do dia a dia.
Assim são minhas três amigas que fazem aniversário neste dia 25 de Janeiro. Na verdade, elas são bem mais complexas do que esses simples retratos que pintei aqui, como toda mulher deve ser. De qualquer modo, o que eu queria mesmo era registrar aqui a importância que elas tem na minha vida e o quanto aprendi com elas.
Feliz aniversário, muitos anos de vida e muitas coisas boas a Carol, Cassinha e Fafá!

terça-feira, 1 de novembro de 2011

O medo é contagioso

[ATENÇÃO, LEITOR(A), O PRESENTE TEXTO POSSUI SPOILERS DO FILME “CONTÁGIO”. SE VOCÊ AINDA NÃO VIU O FILME, E NÃO QUER SABER O QUE ACONTECE ANTES DE ASSISTIR, RECOMENDAMOS QUE NÃO LEIA ESTE TEXTO AGORA. SE VOCÊ NÃO SE IMPORTA COM SPOILERS OU JÁ ASSISTIU AO FILME , DESEJO A VOCÊ UMA BOA LEITURA!]



Uma nova doença surge e se espalha rapidamente pelo planeta, matando milhares de pessoas, desafiando o conhecimento dos cientistas e espalhando o medo e o caos no mundo. Uma história como essa não possui nada de original, e muitos filmes já abordaram a temática de uma epidemia que se espalha pelos quatro cantos da Terra. Contudo, esse é o argumento de Contágio (EUA, 2011), novo filme de Steven Soderbergh que está em cartaz nos cinemas do país. Se o argumento do filme não tem nada de criativo, o que faz de Contágio uma obra que vale a pena ser vista? De fato, o mérito de Soderbergh nesta película é sua capacidade de realizar um bom filme a partir de um tema que já foi tratado diversas vezes na tela do cinema.
A película nos apresenta uma variedade de personagens: pessoas “comuns”, cientistas, militares, funcionários públicos, editores de jornal, adolescentes, adultos, homens, mulheres, asiáticos, brancos e negros. Contágio nos mostra, assim, as várias “histórias” dentro da “história” da epidemia. Vemos na tela como as pessoas adquirem a doença, como morrem, como lidam com o caos que se instala, como tentam encontrar a cura. Aqui Soderbergh se aproveita da qualidade do seu elenco, que conta com as presenças marcantes de Matt Damon, Kate Winslet, Laurence Fishburne, Marion Cotillard e Jude Law.
A partir de uma perspectiva plural, o filme faz uma interessante reflexão a respeito do código moral da sociedade. Quando o caos se instala, pessoas são forçadas a ficar em quarentena, o estoque de alimentos se esgota e o número de mortos sobe rapidamente a cada dia que passa, a maioria das pessoas deixa o código moral de lado: muitos cometem sequestro, matam, roubam, agridem etc. Mais contagioso do que a doença é o medo que se alastra, e nenhum dos personagens pode ser julgado, uma vez que a situação ali vivida é extrema, onde o “quadrado moral” se deforma facilmente.
Dentro deste contexto, é bastante ambíguo o caráter do personagem Alan Krumwiede (interpretado por Jude Law). Ao fazer o papel de um blogueiro que denuncia os interesses econômicos da indústria farmacêutica no processo de produção de uma vacina contra o vírus, Law faz o uso de todo um conjunto de gestos e expressões faciais que tornam difícil a avaliação da personalidade do seu personagem. É  Krumwiede um homem realmente comprometido com a verdade e interessado em “abrir os olhos” das pessoas, ou é ele um sujeito que também possui seus interesses econômicos e sente prazer em anunciar o fim do mundo, disseminando a insegurança? De qualquer modo, as falas de Krumwiede nos instigam a refletir sobre como os governos controlam as informações que são divulgadas, quando de situações extremas e desastrosas. No caso de uma pandemia, nem os cientistas podem ser vistos como pessoas confiáveis, estão sempre ocupados em impedir que determinadas informações vazem para a imprensa.
Um personagem interessante do filme é o Dr. Ellis Cheever (interpretado por Laurence Fishburne). Coordenando os trabalhos de combate à doença, Cheever se aproveita da sua posição, ao obter informações privilegiadas, para manter a esposa em um lugar seguro. O medo de perder a mulher é maior que o compromisso com toda a população. Todavia, ao longo de Contágio, Cheever vai se “redimir” quando, por baixo dos panos, dá uma dose da vacina para o filho do faxineiro de seu local de trabalho. Mesmo essa atitude de Cheever pode ser discutível, uma vez que fere o “protocolo de segurança”. Mas aqui Soderbergh nos instiga mais uma vez: qual a validade de tal protocolo? Como um personagem do filme diz: a questão não é apenas se haverá vacina para todos, mas quem seria vacinado primeiro. Afinal de contas, um homem como o presidente dos EUA, por exemplo, está em um “lugar secreto”, seguro, enquanto a maioria da população é obrigada a viver na insegurança do caos.
Mesmo com o medo da doença, alguns personagens conseguem ser manter “íntegros”, como a  Dra. Leonora Orantes (Marion Cotillard), uma pesquisadora que procura descobrir a origem da epidemia, e Thomas Emhoff (Matt Damon), um pai de família que, após perder a esposa e o enteado para o vírus, se vê na necessidade proteger a filha de qualquer ameaça. Thomas é imune ao vírus e pode transitar por diversos espaços, observando a pluralidade dos acontecimentos que se desenvolvem. Pode-se dizer que o personagem de Damon personifica a própria câmera de Soderbergh, uma vez que, sendo permitido a ele o acesso a vários espaços, ele observa a tudo e a todos, tal como a lente do cineasta.
Elemento interessante da película é o uso de letreiros para identificar a cidade onde determinada ação acontece, abaixo do nome de cada cidade podemos ler também o número de habitantes do lugar. Trata-se de um recurso que serve para mostrar não só o tamanho das grandes cidades, mas o tamanho do perigo da pandemia. É como se o diretor nos dissesse: “Está vendo estes milhões de pessoas? Todas elas correm perigo”. Em um mundo de cidades gigantescas, a pandemia de uma doença extremamente contagiosa faz com que todos nós sejamos doentes em potencial. O risco pode estar escondido em cada toque, em cada beijo, em cada aperto de mão, em cada tosse, em cada objeto que foi tocado por uma pessoa infectada. A câmera de Soderbergh se aproxima constantemente dos corpos dos personagens, mostrando-nos onde eles tocam, em quem eles tocam, o vírus pode estar em qualquer uma das mãos que vemos na tela. O medo provocado pela doença faz com que as pessoas se afastem, se toquem cada vez menos, o “outro” representa quase sempre uma ameaça. A filha de Thomas não pode sequer tocar o seu “namoradinho”.
Também merece destaque a montagem do filme. Contágio inicia-se no “2° Dia”, como vemos em um letreiro ao início da narrativa, e vai acompanhando o processo de evolução da pandemia ao longo do “3° Dia”, “4° Dia”, “5° Dia”... “131° Dia”. O uso de letreiros que informam quanto tempo já se passou desde a origem da pandemia faz do filme uma espécie de diário de todo o processo. O filme documenta, quase que jornalisticamente, os traços do cotidiano das pessoas e o esforço dos cientistas para solucionar o problema. Mas por que a obra não começa no “1° Dia”, mas no “2° Dia”? Trata-se de um segredo que Soderbergh só revela ao fim da película. Quando o namoradinho da filha de Thomas é vacinado, os dois finalmente podem se tocar. Ela coloca a canção “All I want is you”, do U2, para tocar no som da sala, e começa a dançar com o rapaz ao som da banda irlandesa. Se o filme terminasse aqui, seria praticamente um “final feliz”, uma vez que a tensão sentida ao longo da obra pelo espectador é substituída, nesta cena, por uma sensação de alívio. Contudo, depois deste momento dos dois jovens dançando, Soderbergh nos apresenta, finalmente, o que aconteceu no “1° Dia”...
Um morcego que comia uma banana deixa um pedaço dela cair em um local onde se cria porcos. O espectador do filme já está informado que o vírus da doença foi formado por meio de uma mistura de DNA de morcego com DNA de porco. Um dos porcos come o pedaço de banana que caiu no chão. Este mesmo porco é abatido e é enviado para uma cozinha, onde um cozinheiro o prepara. Sem lavar devidamente as mãos, o cozinheiro segura as mãos de Beth Emhoff, esposa de Thomas, para tirar uma foto, já que Beth estava ali, em Hong Kong, viajando a trabalho. Foi onde tudo começou. O alívio sentido pelo espectador durante a cena dos dois adolescentes dançando ao som do U2 é substituído pelo choque e pela tensão da revelação. “All I want is you” é substituída por uma trilha sonora tensa. A montagem do filme colocou o “1° Dia” no final para que o espectador sinta um pouco do medo e da insegurança sentida pelos personagens ao longo da obra. Alguns críticos afirmaram que esse flashback ao fim de Contágio é desnecessário, mas não vemos dessa forma. Acreditamos que Soderbergh faz o uso de tal flashback para mostrar que um simples fato pode ter consequências desastrosas.  
Contágio é sim um filme bem realizado. A qualidade do elenco, o uso de letreiros, a montagem, a trilha sonora e o enquadramento da câmera fazem com que a pouca criatividade do roteiro quase não seja sentida pelo espectador. O filme discute temas importantes: a questão moral, os interesses econômicos da indústria farmacêutica, a disputa pelo controle e pela divulgação da informação e o controle sobre o corpo. Se “faltou emoção” no filme por conta da grande quantidade de personagens, o que dificulta que o espectador se identifique com todos eles, não vemos essa “frieza” do filme como um defeito, como vem apontando parte da crítica especializada. A “frieza” do filme serve para nos manter afastados dos personagens e, desse modo, nos mantermos longe do risco de nos infectarmos com o vírus. Quando o assunto é uma pandemia, não há espaço para o toque, para a aproximação. O desejo de sobrevivência faz com que nos isolemos uns dos outros, o individualismo é elevado ao extremo, em um comportamento de difícil julgamento moral. Se a câmera de Soderbergh é “fria”, ela não o é por acaso, mas sim para cumprir uma função na narrativa. 
O espectador se encontra, desse modo, em um lugar “seguro” para assistir ao filme, sem o risco de se deixar contagiar pela doença, ainda que as qualidades do bom cinema de Soderbergh o “infectem ” com a magia da sétima arte.