domingo, 16 de janeiro de 2011

Da Crítica Aberta ao Abraço no Sistema Capitalista: A Trajetória Artística e Ideológica da banda Charlie Brown Jr. no Contexto da Indústria Cultural

A banda brasileira de rock Charlie Brown Jr. foi formada na cidade de Santos, litoral de São Paulo, no ano de 1992. A trajetória do Charlie Brown Jr. pode ser tomada como um instigante exemplo de como a indústria cultural absorve e transforma a orientação ideológica de determinados artistas.

No início da carreira o Charlie Brown Jr. contava com a presença de Chorão, no vocal; Champignon, no baixo; Renato Pelado, na bateria; Marcão, na guitarra; e Thiago Castanho, também na guitarra. A banda se destacou no cenário musical brasileiro ao apresentar uma sonoridade bastante própria, misturando hardcore, punk rock californiano, hip hop, reggae e rap. Com um ritmo envolvente e letras que faziam críticas a sociedade e apresentavam as perspectivas do jovem contemporâneo, o Charlie Brown Jr. logo chegou às paradas de sucesso.

O primeiro álbum da banda, Transpiração Contínua Prolongada, foi lançado, através da Virgin Records, em 1997, e, contou com a produção do lendário produtor musical Rick Bonadio. Mas foi com o segundo álbum, Preço Curto... Prazo Longo (1999), que a banda conquistou de vez boa parte do público jovem, principalmente devido ao fato de a canção Te Levar tornar-se a música de abertura do seriado Malhação, da TV Globo. Tal fato deu uma maior visibilidade à banda, uma vez que, a partir daquele momento, o Charlie Brown Jr. passou a ser conhecido, e, ouvido, pelas mais diversas camadas sociais.

Um exemplo do tipo de mensagem que o Charlie Brown Jr. transmitia, com suas músicas, pode ser verificado a partir de uns versos da canção Não é sério, música que esteve no terceiro álbum da banda, lançado em 2000 pela Virgin Records:

Eu sei como é difícil

Eu sei como é difícil acreditar

Mas essa porra um dia vai mudar

[...]

“O que eu consigo ver é só um terço do problema

É o Sistema que tem que mudar

Não se pode parar de lutar

Senão não muda

A Juventude tem que estar a fim

Tem que seu unir

O abuso do trabalho infantil, a ignorância

Só faz destruir a esperança

Na TV o que eles falam sobre o jovem não é sério

Deixa ele viver... É o que liga”[1]

Através desses versos, podemos perceber que o Charlie Brown Jr. defendia a idéia da necessidade de se mudar o sistema capitalista, sistema vigente na sociedade brasileira. Nesse processo de transformação do sistema em um outro que fosse mais igualitário, a juventude deveria ter um papel central. Nesse sentido, a canção Não é sério convida os jovens a se unirem em uma luta coletiva por uma sociedade melhor, pois, somente assim, a juventude ganhará um maior respeito por parte da sociedade.

Já no álbum 100% Charlie Brown Jr. (2001), lançado pela grande gravadora EMI, o Charlie Brown Jr. apresentou uma excelente canção de protesto chamada Eu protesto, da qual extraímos os seguintes versos:

Foi você quem colocou eles lá

Mas eles não estão fazendo nada por vocês

Enquanto o povo vai vivendo de migalhas

Eles inventam outro imposto pra vocês

Aquela creche que deixaram de ajudar está por um fio

E a ganância está matando a geração 2000

E a sua tolerância está maior do que nunca agora...

Dormem sossegados os caras do Senado

Dormem sossegados os que fizeram esse estrago

Dormem sossegados os caras do Senado

Dormem sossegados os que pintaram esse quadro.[2]

Eu protesto, como se percebe, é uma canção que critica não só a classe política, mas também o próprio povo, que, afinal de contas, elegeu as pessoas que estão no poder. Criticando a tudo e a todos, a música denuncia a desigualdade social, a ganância dos poderosos, bem como a tolerância e passividade do povo brasileiro.

Já no álbum Bocas Ordinárias (2002), gravado pela EMI, o Charlie Brown Jr. trouxe a canção Papo Reto, na qual é descrito o comportamento e estilo da própria banda:

Você falou pra ela que eu sou louco e canto mal,

Que eu não presto, que eu sou um marginal,

Que eu não tenho educação,

Que eu só falo palavrão,

E pra socialite eu não tenho vocação...

Sei que isso tudo é verdade, mas

Eu quero que se foda essa porra de sociedade

Pago minhas contas, eu sou limpinho,

Não sou como você filho da puta, viadinho.[3]

Em 2002, o Charlie Brown Jr. já era uma banda de sucesso e tinha já um público bastante fiel. Mas mesmo com o sucesso e com o dinheiro, a banda continuava tendo uma cultura própria do seu lugar social de origem (a classe baixa), como observamos na letra de Papo Reto: falavam palavrões, não tinham educação, se identificavam com os marginais da sociedade, mas, a despeito de tudo isso, mostravam-se orgulhosos de pagar as próprias contas e não deverem nada a ninguém.

A banda continuou sua trajetória até que, no de 2005, Marcão, Renato Pelado e Champignon deixaram o Charlie Brown Jr., devido a divergências musicais com Chorão e com a gravadora. Thiago Castanho, que havia saído em 2000, voltou, na guitarra, sendo acompanhado de André Ruas, na bateria, e, Heitor Gomes, no baixo. No mesmo ano de 2005, a nova formação do Charlie Brown Jr. lançou o emblemático álbum Imunidade Musical, lançado pela EMI.

Imunidade Musical trouxe uma mudança radical no tipo de mensagem trazida pelo Charlie Brown Jr.. As letras passaram a ser mais politicamente corretas, os palavrões sumiram e as críticas ficaram extremamente leves. Um exemplo dessa mudança de tom é a canção Senhor do Tempo, da qual extraímos os seguintes versos:

Eu vi o tempo passar e pouca coisa mudar

Então tomei um caminho diferente

Tanta gente equivocada faz mal uso da palavra

Falam, falam o tempo todo, mas não tem nada a dizer

Mas eu tenho um santo forte e é incrível a minha sorte

Agradeço todo tempo ter encontrado você

O tempo é rei, a vida é uma lição

E um dia a gente cresce,

E conhece a nossa essência e

Ganha experiência

E aprende o que é raiz, então cria consciência.

Tem gente que reclama da vida o tempo todo

Mas a lei da vida é quem dita o fim do jogo

Eu vi de perto o que neguinho é capaz por dinheiro

Eu conheci o próprio lobo na pele de um cordeiro

Infelizmente a gente tem que tá ligado o tempo inteiro,

Ligado nos pilantras e também nos bagunceiros

[...]

Vivendo nesse mundo louco hoje só na brisa

Viver pra ser melhor, também é um jeito de levar a vida

[...]

Vem que o bom astral vai dominar o mundo

Eu já briguei com a vida

Hoje eu vivo bem com todo mundo aí

Na maior moral é Charlie Brown.[4]

Quão diferente é essa letra em relação às letras dos primeiros álbuns da banda! A mensagem trazida aqui é a de que o sistema capitalista não pode ser vencido, cabendo a cada um escolher o seu próprio caminho. O gesto de reclamar é visto como algo que não adianta mais nada, cada um deve lutar para chegar aonde se deseja, mas de lutar de uma forma madura e serena. Outro dado interessante é a desconfiança para com os “pilantras” e os “bagunceiros”, personagens sociais com os quais o Charlie Brown Jr. se identificava no início da carreira. Senhor do Tempo traz as marcas da perda dos ideais rebeldes da juventude. Trata-se de uma canção que traz claramente as mudanças no comportamento de Chorão, vocalista da banda, que, conforme foi envelhecendo, foi ficando cada vez mais politicamente correto ao longo da carreira.

Em 2009, o Charlie Brown Jr. saiu da EMI e assinou um contrato com a Sony Music, outra grande gravadora. No mesmo ano foi lançado, com a nova gravadora, o álbum Camisa 10 Joga Bola Até na Chuva, no qual a banda mergulhou de vez no politicamente correto. Desse álbum, no qual Bruno Graveto substituiu André Ruas na bateria, trazemos aqui uns versos de uma canção também chamada Camisa 10 Joga Bola Até na Chuva:

É assim que eu quero ser, sim, um cara melhor

Não melhor do que ninguém, mas o melhor que eu puder ser

O tempo passa e tudo muda e você tem que entender

Que existem vários caminhos, escolha um pra você

Você tem o dom da voz, você tem o poder

De prosperar, de evoluir e de fazer acontecer

De prosperar, de evoluir e de fazer acontecer

Entenda como se comportam os homens

Não se respeitam e não se tratam como irmãos

Pois quase tudo gira em torno de poder

E sufocado eu me liberto nessa canção

Então faça o que tiver que fazer

Busque a evolução e se liberte

Não fique aí perdido no espaço

Pois ficar só reclamando é muito fácil

Você nasceu para brilhar, o sol está em suas mãos

[...]

Camisa 10 joga bola até na chuva

[...]

Sólido na volta, por cima, eu vou com tudo

Pode anunciar e convidar todo mundo

Nessa vida eu quero amor, paz, sossego e liberdade

Charlie Brown Jr. invadindo a cidade.[5]

Como se observa, o discurso politicamente correto aqui está fortemente presente. A mensagem trazida pela música é a de que é preciso amadurecer na vida, parar de reclamar, e, começar a agir. Não se deixa de reconhecer que o mundo e a nossa sociedade possuem problemas, mas o que se defende é que é preciso se adaptar às regras da sociedade. Com um tom motivador, a música traz a idéia que não importa o quanto esteja chovendo, um verdadeiro camisa 10 sempre é capaz de jogar bem e vencer no jogo da vida. Devemos nos comportar como um camisa 10... Portanto, o que se busca agora não é mais uma mudança no sistema, mas sim a conquista de uma vida melhor (entenda-se a compra de bens de consumo) dentro do próprio sistema. Todavia, os caminhos a serem trilhados devem ser sempre caminhos individuais e não coletivos, tal como era pregado pelo Charlie Brown Jr. na música Não é sério, o que mostra a presença de um forte individualismo, elemento muito presente na nossa sociedade capitalista.

Em suma, temos que a trajetória artística e ideológica da banda Charlie Brown Jr. é representativa de como a indústria cultural se apropria de artistas engajados politicamente, moldando-os ao seu gosto. O Charlie Brown Jr. começou sua trajetória criticando a sociedade, denunciando os problemas sociais e incentivando a juventude a exercer o seu papel transformador na história, mas, com o decorrer dos últimos anos a banda abraçou o sistema, adotando uma postura politicamente correta, defendendo que todos possuem capacidade de vencer na vida, mas dentro do próprio sistema, é claro.

Essa mudança de comportamento é própria de uma banda que conseguiu o seu espaço na mídia, vendeu muitos discos, ganhou muito dinheiro, enfim, conseguiu vencer dentro do sistema. É por isso que o Charlie Brown Jr. tem abraçado o sistema, uma vez que a banda de Chorão conseguiu tudo o que tem graças ao próprio sistema.



[1] CHARLIE BROWN JR. Não é sério. In: ______. Nadando com os Tubarões. São Paulo: Virgin Records, 2000.

[2] CHARLIE BROWN JR. Eu protesto. In: ______. 100% Charlie Brown Jr. São Paulo: EMI, 2001.

[3] CHARLIE BROWN JR. Papo Reto. In: ______. Bocas Ordinárias. São Paulo: EMI, 2002.

[4] CHARLIE BROWN JR. Senhor do Tempo. In: ______. Imunidade Musical. São Paulo: EMI, 2005.

[5] CHARLIE BROWN JR. Camisa 10 Joga Bola Até na Chuva. In: _____. Camisa 10 Joga Bola Até na Chuva. São Paulo: Sony Music, 2009.


quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Uma aula de Woody Allen sobre cinema

Woody Allen é um grande diretor, disso não há dúvidas. Seus filmes são capazes de nos provocar o riso e a reflexão. Mas o diretor de cinema também é um professor de cinema, capaz de nos dar lições interessantes sobre a sétima arte. Interessante exemplo de como Allen é um professor de cinema está no filme A Rosa Púrpura do Cairo (1984), indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original.

Logo no início da película podemos ver o cartaz de um filme que será exibido em um cinema. O cartaz é no estilo dos cartazes dos clássicos dos anos 1930. Cecília (interpretada brilhantemente por Mia Farrow) está em frente ao cinema e observa o cartaz da nova atração. Podemos ver, logo nessa cena inicial do filme, o olhar da personagem principal revelar todo o seu amor pelo mundo do cinema, podemos sentir o quanto Cecília está absorvida pela imagem do cartaz do filme, percebemos que o cinema é algo muito importante para ela. Em seguida, um funcionário do cinema fala à Cecília que ela certamente gostará do novo filme, uma vez que se trata de uma obra mais romântica que o filme anterior. É como se Woody Allen nos fizesse pensar por um momento sobre a relação das mulheres com os filmes românticos.

Mas qual a razão de tanto apego ao mundo do cinema? Por que Cecília ama tanto o cinema? Na sequência do filme, o espectador é informado sobre como é a vida de Cecília. A protagonista da obra de Allen vive em um contexto histórico complicado: a Grande Depressão americana. O desemprego afeta a muitos e as dificuldades são grandes. Cecília trabalha como garçonete em uma lanchonete, o trabalho é pesado, ela sempre se atrapalha com os pedidos dos clientes, quebra os pratos constantemente e seu patrão é exigente. A irmã de Cecília trabalha na mesma lanchonete e as duas sempre conversam sobre os filmes e os astros do cinema. Nas conversas com a irmã, Cecília fala da vida pessoal dos atores como se estivesse falando da vida de algum amigo ou vizinho. Nesse momento do filme, Allen nos ensina sobre a relação de falsa intimidade entre o astro do cinema e seus milhares de fãs. Aqui Allen também nos ensina sobre o Star System do cinema americano, ou seja, sobre o fato de os filmes se valerem da presença dos “astros do cinema” para atrair as pessoas às salas de exibição.

Voltando ao filme, temos que não apenas a vida profissional de Cecília é sofrível, mas também a sua vida pessoal. A personagem de Mia Farrow é casada com Monk (Danny Aiello), um homem que está desempregado e passa os dias nas ruas, bebendo e jogando dados e cartas com os amigos. Se Cecília é uma personagem construída de modo a permitir que o espectador se identifique com ela, Monk já é um personagem construído de modo que o espectador tenha repulsa dele. Monk é um homem violento, bate em Cecília e também a trai com outras mulheres. Assistindo a essas cenas, o espectador de A Rosa Púrpura do Cairo observa que a vida de Cecília é marcada pelas dificuldades e pelo sofrimento. Nesse sentido, temos que a protagonista é apaixonada pelo universo do cinema por ver nesse mundo de fantasia uma válvula de escape para a sua dura realidade. O mundo do cinema é o mundo dos sonhos, o lugar onde tudo pode acontecer, onde todos os obstáculos podem ser superados e onde tudo pode ser alcançado. É como se aqui Allen nos falasse do papel que o cinema muitas vezes desempenhou e ainda desempenha: o papel de auxiliar as pessoas a fugirem, pelo menos durante o tempo de exibição de um filme, de suas realidades cruéis.

Para tentar escapar de sua realidade, Cecília refugia-se cada vez mais na sala de cinema. Após ser demitida, a protagonista vai assistir a um filme chamado “A Rosa Púrpura do Cairo” (daí o nome do filme de Allen) e se apega muito à obra, indo assisti-la constantemente. E é de tanto assistir ao filme que algo fantástico acontece...

Durante uma das exibições, um dos personagens do filme, um encantador arqueólogo chamado Tom Baxter (interpretado por Jeff Daniels), decide sair da tela do cinema e ir falar com Cecília. Baxter ficou admirado com o fato de Cecília assistir ao filme repetidas vezes. Quando tal inusitada situação acontece, a sala do cinema vira um caos, os espectadores ficam espantados com o acontecimento e uma mulher chega a desmaiar. Mas a narrativa do filme que estava sendo exibido também vira um caos, os outros personagens ficam presos na tela, não podendo continuar a história sem a presença de Tom Baxter. Os espectadores na sala de exibição e os personagens na tela do cinema não sabem o que fazer, a narrativa do filme pára. O gerente do cinema chega e pede aos personagens na tela que fiquem calmos. O tom cômico dessa cena criada por Allen é bastante sutil, notadamente no momento em que os personagens na tela pedem ao gerente que ele não desligue o projetor porque tudo fica escuro para eles quando isso acontece.

Com a saída de Baxter do filme para o mundo real, o filme que estava sendo exibido é paralisado como se fosse uma peça de teatro; os outros atores em cena ficam presos na tela sem saber o que fazer e ficam discutindo, tal como se fossem atores de teatro; os espectadores na sala de exibição conversam com os personagens na tela, como se eles fossem atores de uma peça teatral. Aqui Allen nos lembra dos primeiros tempos da história do cinema, quando a nova arte possuía uma forte ligação com o teatro, quando muitos atores de teatro participavam dos primeiros filmes de ficção. O espectador do filme de Allen sabe que a situação de um personagem sair da tela não é possível, uma vez que um filme não é uma peça de teatro, na qual seria possível um dos atores descer do palco e ir até a plateia. Allen nos informa, através do absurdo (para o nosso plano real) da cena escrita por ele que o cinema não é igual ao teatro, o cinema é uma outra coisa. De fato, se lembrarmos dos primeiros anos da história do cinema, veremos que a nova arte provocou toda uma série de debates a respeito do seu valor de arte. O cinema, devido ao seu grande “efeito de realidade”, consolidou-se, ao longo dos anos, como uma experiência estética que ultrapassa o teatro, a pintura, a fotografia, a literatura e a música, muitas vezes valendo-se da mistura dessas várias artes para constituir-se como uma espécie de universo paralelo, um outro mundo que é visível a nós através dessas verdadeiras janelas que são as telas de cinema. O cinema é uma arte cujo “efeito de realidade” é elevado à máxima potência e, quando Allen faz Baxter sair da tela e fugir do cinema com Cecília, o que o diretor quer nos ensinar é sobre a relação entre realidade e ficção, relação essa que no mundo do cinema não é necessariamente de oposição, mas muitas vezes de uma complexa mistura entre o real e o ficcional.

Voltando à história narrada pelo filme de Allen, Baxter e Cecília saem pela cidade e ele está ansioso por conhecer o mundo real. Enquanto isso, os outros personagens do filme de Baxter seguem presos na tela, impossibilitados de continuarem com a sua encenação. A imprensa e as pessoas da cidade ficam curiosas com o que aconteceu no cinema e muitas entram na sala de exibição para ver e conversar com os personagens na tela. O gerente do cinema decide chamar o produtor do filme, Raoul Hirsch, para tentar solucionar a situação. Hirsch decide, por sua vez, chamar o ator Gil Shepherd, ator que interpreta Baxter no filme. Os momentos em que vemos o produtor e os outros “homens do dinheiro”, homens esses que ficam por trás das câmeras do cinema, discutindo sobre a questão do prejuízo financeiro que o caso provocará são momentos do filme em que Allen nos ensina sobre os bastidores do cinema, sobre a condição de indústria que a sétima arte ganhou ao longo de sua história, sobre a inserção do cinema no sistema capitalista, sobre os interesses financeiros por trás de um produto cultural que faz milhões de pessoas ao redor do mundo se emocionarem e sonharem.

Do lado de cá da tela, Baxter tem algumas dificuldades em lidar com o mundo real, uma vez que as coisas não acontecem automaticamente como nos filmes (como na cena em que ele pensa que basta entrar em um carro para que ele funcione sozinho), mas ele acaba se envolvendo amorosamente com Cecília, revelando-se como um homem completamente diferente de Monk, já que o arqueólogo é educado, protetor e romântico. Enquanto isso, Raoul Hirsch e Gil Shepherd vão ao cinema de onde Baxter fugiu, a intenção dos dois é dar uma solução à crise e fazer com que o personagem “fujão” volte para o filme. Gil Shepherd tenta convencer Tom Baxter a voltar para a tela do cinema, mas o personagem se recusa e diz que quer conhecer o mundo real e viver nele. Não conseguindo convencer sua própria criação, Shepherd se aproxima de Cecília até que ela também se envolva com ele.

Na parte final do filme, Baxter volta ao cinema ao lado de Cecília e a faz entrar, junto com ele, dentro do filme do qual Baxter havia saído. Trata-se de uma sequência maravilhosa em que realidade e ficção se confundem ainda mais. Baxter leva Cecília pela noite, passeando com ela pelos ambientes do filme. Com Cecília dentro do filme o enredo da história muda e, aqui, Allen nos mostra que a inserção de um personagem a mais pode mudar completamente uma narrativa fílmica.

Shepherd chega então até a sala de cinema e espanta-se ao ver Baxter e Cecília na tela. O arqueólogo e a moça saem da tela para conversar com Shepherd e o ator se diz apaixonado por Cecília. A protagonista se vê na necessidade de escolher entre um dos seus dois novos amores. Ao ouvir a proposta do ator que convida-a a fugir com ele para Hollywood, Cecília opta por Shepherd e Baxter volta, completamente triste, para a tela do cinema. A escolha de Cecília mostra uma necessidade da personagem de viver emoções que sejam efetivamente reais. O personagem fictício a encanta, mas no fundo o que ela quer é que o conto de fadas do cinema torne-se realidade, o que só seria possível se ela escolhesse Shepherd.

Mas a realidade é cruel e o mundo é cheio de pessoas que não são confiáveis. Quando Cecília procura Shepherd para ir embora com ele para Hollywood, descobre que o ator já foi embora e a deixou. O caminho encontrado por Cecília para esquecer a crueldade do mundo real é o mesmo que ela se valia no início do filme: o universo do cinema. Na última cena de A Rosa Púrpura do Cairo vemos Cecília na sala de cinema assistindo a um filme estrelado por Fred Astaire. Cecília assiste ao filme com os olhos lacrimejantes e um discreto sorriso, profundamente absorvida pela magia do cinema.

A Rosa Púrpura do Cairo é um filme belíssimo. A trilha sonora é de uma leveza ímpar e, muitas vezes, combina-se maravilhosamente bem com as cenas mais inusitadas que vemos na tela. O elenco, os figurinos e o roteiro também são pontos altos da obra. Com esse filme, Woody Allen emociona o espectador, prende sua atenção, mas também o ensina. De fato, Allen reflete e faz o espectador refletir sobre o mundo do cinema, sobre sua magia, sobre sua capacidade de emocionar e de fazer sonhar. Podemos ver ao longo da película vários tópicos da História e da Teoria do Cinema: a função escapista muitas vezes assumida pelo cinema; a relação complexa entre realidade e ficção na sétima arte; a relação da mulher com os filmes românticos; o Star System; a falsa intimidade entre a estrela de cinema e seus fãs; a tradição oriunda do teatro que foi recebida e modificada pelo cinema; o caráter de indústria que a sétima arte ganhou ao longo do século XX; as múltiplas possibilidades de construção de uma narrativa fílmica; o "efeito de realidade" do cinema.

É por emocionar e ensinar o espectador que A Rosa Púrpura do Cairo configura-se como uma ótima dica de filme para quem quer se deixar levar pela magia do cinema e aprender um pouco mais sobre a sétima arte!

sexta-feira, 16 de julho de 2010

O Estado Brasileiro e a Educação das Nossas Crianças


A recente decisão do Governo Federal de propor uma lei que proíbe palmadas e beliscões de caráter ``educativo´´ nas crianças gerou bastante polêmica. Evidentemente, sou contra o espancamento de crianças e adolescentes, mas acredito que tal lei não contribuirá em nada para a melhoria da educação das nossas crianças.

O que o governo parece não entender é que educar é uma tarefa bastante complexa. Como evitar que um pai ou uma mãe nunca perca a paciência com o seu filho? Como impedir aqueles momentos de raiva?
Mas ainda há outro problema no tal projeto de lei: como policiar pais de todo o Brasil? Como fiscalizar o país inteiro? Será que as pessoas vão denunciar todo e qualquer pai ou mãe que esteja dando uma palmadinha em uma criança? Acho que não.

Ainda há o fato de que eventuais denúncias certamente irão provocar uma enxurrada de processos no poder judiciário, poder esse que mal consegue dar conta da atual infinidade de processos já existentes.

Se o governo realmente estivesse preocupado com a educação de nossas crianças, ele estaria investindo pesado na educação pública, do nível básico ao superior. O governo deveria combater o sucateamento das nossas escolas, a violência nas cidades, o tráfico de drogas e a baixa valorização do professor. O governo deveria também investir em políticas públicas consistentes de planejamento familiar, com o intuito de combater o esfacelamento da instituição familiar, processo visível nos nossos dias e que prejudica a formação das nossas crianças.

A nossa sociedade tem procurado construir um modelo de educação baseado no diálogo e na liberdade, mas tem deixado de lado dois princípios importantes: disciplina e respeito. Uma palmada pode sim mostrar à criança que há uma autoridade dentro de casa, autoridade a quem ela deve obediência. Afinal de contas, crianças e adolescentes possuem direitos, mas também deveres, não é verdade? A educação das nossas crianças não deve ser frouxa, mas firme, não deixando de lado, é claro, o amor, o carinho e a paciência.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Apontamentos sobre o Triângulo Music 2010

Nos últimos anos, o Triângulo Music se consolidou como um dos maiores eventos da cidade de Uberlândia (MG). Marketing forte, atrações de destaque no cenário nacional e grande público fizeram o festival realizado no estádio do Parque do Sabiá se transformar em um dos grandes eventos de Minas Gerais e do Brasil.
Mas a edição de 2010, edição que será realizada no mês de setembro (dias 24 e 25), tem uma programação que deixa a desejar. Se na primeira edição (realizada em 2005) o festival se voltou para o pop e o rock nacionais, a edição deste ano realmente abriu as porteiras para ``todas as tribos´´, tal como prega o slogan do festival, dando prosseguimento a um processo observado com a sucessão das edições. Cláudia Leitte, Hori, João Bosco & Vinícius, Jota Quest, Ivete Sangalo, Victor & Leo, NX Zero, Restart e duas bandas a serem escolhidas por meio de um concurso serão as atrações do festival neste ano.
Para quem acompanhou as edições anteriores, fica visível a invasão crescente do axé, do sertanejo e das bandas ``emo´´. Não tenho nada contra os referidos estilos musicais, cada um ouve o que quer. Mas o fato é que o Triângulo Music 2010 não terá nada de singular em relação a outros eventos da região. Afinal de contas, essa região do país (triângulo mineiro, oeste de São Paulo, interior de Goiás etc.) já oferece muitas opções de eventos com estes estilos musicais, principalmente o sertanejo.
Na minha opinião, faltam atrações de rock na edição de 2010. ``Mas o Hori, o NX Zero e o Resart não são bandas de rock?´´, você deve estar pensando. Honestamente, não considero essas bandas como bandas de rock, são apenas bandas ``emo´´ que não fazem um som de boa qualidade. O Hori é liderado pelo ``filho do Fábio Jr.´´, também chamado de Fiuk, um jovem de rostinho bonitinho que não canta bem. O som do NX Zero também é bem inferior ao que é feito por outros artistas e bandas nacionais. Já o Restart parece-me uma banda pré fabricada, sem identidade e nem personalidade, apenas fazendo sucesso com o seu visual fashion e super colorido.
Sinto falta de bandas como Skank, O Rappa, Os Paralamas do Sucesso e outras que eu poderia citar. Um festival com bandas de rock de boa qualidade seria muito mais interessante aqui no meio do cerrado. Assim como seria interassante também um festival mais aberto a artistas da nova MPB, como Vander Lee.
Porém, não sou ingênuo, sei que o Triângulo Music tem como único objetivo lucrar. Como o que dá lucro no Brasil são músicas do momento, canções que arrebentam nas paradas de sucesso, ainda que não tenham grande qualidade musical e poética, o Triângulo Music 2010 será recheado desse tipo de música. A garotada e os organizadores podem até gostar, mas acho que merecíamos um festival com uma melhor qualidade musical.