terça-feira, 1 de novembro de 2011

O medo é contagioso

[ATENÇÃO, LEITOR(A), O PRESENTE TEXTO POSSUI SPOILERS DO FILME “CONTÁGIO”. SE VOCÊ AINDA NÃO VIU O FILME, E NÃO QUER SABER O QUE ACONTECE ANTES DE ASSISTIR, RECOMENDAMOS QUE NÃO LEIA ESTE TEXTO AGORA. SE VOCÊ NÃO SE IMPORTA COM SPOILERS OU JÁ ASSISTIU AO FILME , DESEJO A VOCÊ UMA BOA LEITURA!]



Uma nova doença surge e se espalha rapidamente pelo planeta, matando milhares de pessoas, desafiando o conhecimento dos cientistas e espalhando o medo e o caos no mundo. Uma história como essa não possui nada de original, e muitos filmes já abordaram a temática de uma epidemia que se espalha pelos quatro cantos da Terra. Contudo, esse é o argumento de Contágio (EUA, 2011), novo filme de Steven Soderbergh que está em cartaz nos cinemas do país. Se o argumento do filme não tem nada de criativo, o que faz de Contágio uma obra que vale a pena ser vista? De fato, o mérito de Soderbergh nesta película é sua capacidade de realizar um bom filme a partir de um tema que já foi tratado diversas vezes na tela do cinema.
A película nos apresenta uma variedade de personagens: pessoas “comuns”, cientistas, militares, funcionários públicos, editores de jornal, adolescentes, adultos, homens, mulheres, asiáticos, brancos e negros. Contágio nos mostra, assim, as várias “histórias” dentro da “história” da epidemia. Vemos na tela como as pessoas adquirem a doença, como morrem, como lidam com o caos que se instala, como tentam encontrar a cura. Aqui Soderbergh se aproveita da qualidade do seu elenco, que conta com as presenças marcantes de Matt Damon, Kate Winslet, Laurence Fishburne, Marion Cotillard e Jude Law.
A partir de uma perspectiva plural, o filme faz uma interessante reflexão a respeito do código moral da sociedade. Quando o caos se instala, pessoas são forçadas a ficar em quarentena, o estoque de alimentos se esgota e o número de mortos sobe rapidamente a cada dia que passa, a maioria das pessoas deixa o código moral de lado: muitos cometem sequestro, matam, roubam, agridem etc. Mais contagioso do que a doença é o medo que se alastra, e nenhum dos personagens pode ser julgado, uma vez que a situação ali vivida é extrema, onde o “quadrado moral” se deforma facilmente.
Dentro deste contexto, é bastante ambíguo o caráter do personagem Alan Krumwiede (interpretado por Jude Law). Ao fazer o papel de um blogueiro que denuncia os interesses econômicos da indústria farmacêutica no processo de produção de uma vacina contra o vírus, Law faz o uso de todo um conjunto de gestos e expressões faciais que tornam difícil a avaliação da personalidade do seu personagem. É  Krumwiede um homem realmente comprometido com a verdade e interessado em “abrir os olhos” das pessoas, ou é ele um sujeito que também possui seus interesses econômicos e sente prazer em anunciar o fim do mundo, disseminando a insegurança? De qualquer modo, as falas de Krumwiede nos instigam a refletir sobre como os governos controlam as informações que são divulgadas, quando de situações extremas e desastrosas. No caso de uma pandemia, nem os cientistas podem ser vistos como pessoas confiáveis, estão sempre ocupados em impedir que determinadas informações vazem para a imprensa.
Um personagem interessante do filme é o Dr. Ellis Cheever (interpretado por Laurence Fishburne). Coordenando os trabalhos de combate à doença, Cheever se aproveita da sua posição, ao obter informações privilegiadas, para manter a esposa em um lugar seguro. O medo de perder a mulher é maior que o compromisso com toda a população. Todavia, ao longo de Contágio, Cheever vai se “redimir” quando, por baixo dos panos, dá uma dose da vacina para o filho do faxineiro de seu local de trabalho. Mesmo essa atitude de Cheever pode ser discutível, uma vez que fere o “protocolo de segurança”. Mas aqui Soderbergh nos instiga mais uma vez: qual a validade de tal protocolo? Como um personagem do filme diz: a questão não é apenas se haverá vacina para todos, mas quem seria vacinado primeiro. Afinal de contas, um homem como o presidente dos EUA, por exemplo, está em um “lugar secreto”, seguro, enquanto a maioria da população é obrigada a viver na insegurança do caos.
Mesmo com o medo da doença, alguns personagens conseguem ser manter “íntegros”, como a  Dra. Leonora Orantes (Marion Cotillard), uma pesquisadora que procura descobrir a origem da epidemia, e Thomas Emhoff (Matt Damon), um pai de família que, após perder a esposa e o enteado para o vírus, se vê na necessidade proteger a filha de qualquer ameaça. Thomas é imune ao vírus e pode transitar por diversos espaços, observando a pluralidade dos acontecimentos que se desenvolvem. Pode-se dizer que o personagem de Damon personifica a própria câmera de Soderbergh, uma vez que, sendo permitido a ele o acesso a vários espaços, ele observa a tudo e a todos, tal como a lente do cineasta.
Elemento interessante da película é o uso de letreiros para identificar a cidade onde determinada ação acontece, abaixo do nome de cada cidade podemos ler também o número de habitantes do lugar. Trata-se de um recurso que serve para mostrar não só o tamanho das grandes cidades, mas o tamanho do perigo da pandemia. É como se o diretor nos dissesse: “Está vendo estes milhões de pessoas? Todas elas correm perigo”. Em um mundo de cidades gigantescas, a pandemia de uma doença extremamente contagiosa faz com que todos nós sejamos doentes em potencial. O risco pode estar escondido em cada toque, em cada beijo, em cada aperto de mão, em cada tosse, em cada objeto que foi tocado por uma pessoa infectada. A câmera de Soderbergh se aproxima constantemente dos corpos dos personagens, mostrando-nos onde eles tocam, em quem eles tocam, o vírus pode estar em qualquer uma das mãos que vemos na tela. O medo provocado pela doença faz com que as pessoas se afastem, se toquem cada vez menos, o “outro” representa quase sempre uma ameaça. A filha de Thomas não pode sequer tocar o seu “namoradinho”.
Também merece destaque a montagem do filme. Contágio inicia-se no “2° Dia”, como vemos em um letreiro ao início da narrativa, e vai acompanhando o processo de evolução da pandemia ao longo do “3° Dia”, “4° Dia”, “5° Dia”... “131° Dia”. O uso de letreiros que informam quanto tempo já se passou desde a origem da pandemia faz do filme uma espécie de diário de todo o processo. O filme documenta, quase que jornalisticamente, os traços do cotidiano das pessoas e o esforço dos cientistas para solucionar o problema. Mas por que a obra não começa no “1° Dia”, mas no “2° Dia”? Trata-se de um segredo que Soderbergh só revela ao fim da película. Quando o namoradinho da filha de Thomas é vacinado, os dois finalmente podem se tocar. Ela coloca a canção “All I want is you”, do U2, para tocar no som da sala, e começa a dançar com o rapaz ao som da banda irlandesa. Se o filme terminasse aqui, seria praticamente um “final feliz”, uma vez que a tensão sentida ao longo da obra pelo espectador é substituída, nesta cena, por uma sensação de alívio. Contudo, depois deste momento dos dois jovens dançando, Soderbergh nos apresenta, finalmente, o que aconteceu no “1° Dia”...
Um morcego que comia uma banana deixa um pedaço dela cair em um local onde se cria porcos. O espectador do filme já está informado que o vírus da doença foi formado por meio de uma mistura de DNA de morcego com DNA de porco. Um dos porcos come o pedaço de banana que caiu no chão. Este mesmo porco é abatido e é enviado para uma cozinha, onde um cozinheiro o prepara. Sem lavar devidamente as mãos, o cozinheiro segura as mãos de Beth Emhoff, esposa de Thomas, para tirar uma foto, já que Beth estava ali, em Hong Kong, viajando a trabalho. Foi onde tudo começou. O alívio sentido pelo espectador durante a cena dos dois adolescentes dançando ao som do U2 é substituído pelo choque e pela tensão da revelação. “All I want is you” é substituída por uma trilha sonora tensa. A montagem do filme colocou o “1° Dia” no final para que o espectador sinta um pouco do medo e da insegurança sentida pelos personagens ao longo da obra. Alguns críticos afirmaram que esse flashback ao fim de Contágio é desnecessário, mas não vemos dessa forma. Acreditamos que Soderbergh faz o uso de tal flashback para mostrar que um simples fato pode ter consequências desastrosas.  
Contágio é sim um filme bem realizado. A qualidade do elenco, o uso de letreiros, a montagem, a trilha sonora e o enquadramento da câmera fazem com que a pouca criatividade do roteiro quase não seja sentida pelo espectador. O filme discute temas importantes: a questão moral, os interesses econômicos da indústria farmacêutica, a disputa pelo controle e pela divulgação da informação e o controle sobre o corpo. Se “faltou emoção” no filme por conta da grande quantidade de personagens, o que dificulta que o espectador se identifique com todos eles, não vemos essa “frieza” do filme como um defeito, como vem apontando parte da crítica especializada. A “frieza” do filme serve para nos manter afastados dos personagens e, desse modo, nos mantermos longe do risco de nos infectarmos com o vírus. Quando o assunto é uma pandemia, não há espaço para o toque, para a aproximação. O desejo de sobrevivência faz com que nos isolemos uns dos outros, o individualismo é elevado ao extremo, em um comportamento de difícil julgamento moral. Se a câmera de Soderbergh é “fria”, ela não o é por acaso, mas sim para cumprir uma função na narrativa. 
O espectador se encontra, desse modo, em um lugar “seguro” para assistir ao filme, sem o risco de se deixar contagiar pela doença, ainda que as qualidades do bom cinema de Soderbergh o “infectem ” com a magia da sétima arte.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

As coisas que compramos

Eu desejo que você ganhe dinheiro / Pois é preciso viver também / E que você diga a ele, pelo menos uma vez, / Quem é mesmo o dono de quem.
(Frejat)

Uma vez eu li em um livrinho de piadas, desses que a gente compra em uma banca de jornal qualquer, uma interessante definição de “status” que dizia: “status é comprar algo que você não quer, com um dinheiro que você não tem, no intuito de parecer, para pessoas que você não gosta, uma pessoa que você não é”. Em tempos de consumismo elevado à máxima potência, muitas vezes compramos coisas que não precisamos, mas que “queremos” possuir, já que a posse de determinados objetos nos dá algum “status”, ainda que parcelado em setenta e duas prestações.
O recentemente falecido Steve Jobs disse certa vez algo do tipo “As pessoas não sabem o que querem, até que você diga a elas”, e tenho que concordar com ele. Nós, seres humanos, apesar de todo o nosso discurso de racionalidade, não passamos de criaturas bobas. Não sabemos nem a hora em que estamos com fome, muito menos o que queremos da vida. No que diz respeito aos bens materiais, nossos desejos são comandados pelas propagandas de TV, pelos anúncios nos outdoors e pela transparência do vidro das vitrines. É verdade que estou generalizando aqui, mesmo sabendo que ainda há aqueles que ainda não se renderam ao exagerado consumismo de nossa sociedade.
De qualquer forma, o que quero deixar claro ao leitor é que a maioria das pessoas está preocupada em comprar, comprar e comprar, não percebendo que, por trás da falácia da liberdade supostamente oferecida pela sociedade “democrática” ocidental, há todo um jogo de relações de poder onde a maioria de nós, infelizmente, é tratada como um bando de marionetes a ser manipulado. O mercado nos diz que somos livres para escolher o que comprar, aonde viajar, a qual canal assistir, em quem votar etc., mas não nos conta como são definidas as opções que temos diante de nós. Enquanto uma minoria decide os rumos do planeta, a grande maioria segue a vida preocupando-se em trocar de celular a cada trimestre, em trocar de carro a cada ano que passa, em comprar as roupas mais caras e por aí vai...
Estou generalizando mais uma vez? Sim, e que meus colegas historiadores não fiquem chateados comigo por conta disso. Se estou generalizando, não é por ingenuidade e nem por desconhecimento a respeito das recentes mobilizações populares ao redor do mundo, nestes tempos de crise econômica. Sei muito bem que nem todos são consumistas, sei que há aqueles que usam da análise crítica no seu cotidiano e protestam quanto ao status quo da sociedade. Contudo, o alvo de minha crítica aqui é o consumismo, e minhas generalizações servem apenas para tentar explicitar ao leitor que o consumismo faz parte de uma trama mais ampla que envolve o controle político da maioria da população.
Dito isso, passemos agora às coisas que compramos. Preciso dizer que não tenho nada contra os objetos que possuímos ou que “queremos” possuir. O celular é uma invenção maravilhosa e muito útil, o carro é uma interessante ferramenta para nos deslocarmos no espaço, o computador nos ajuda no trabalho e no entretenimento, um tênis confortável conserva a saúde dos nossos pés e até mesmo da nossa coluna, uma roupa bacana nos permite um maior conforto no dia a dia. Qual o problema, então, em “consumir”, “comprar” e “possuir” esses objetos? O que há de errado em ter um sonho de consumo e mobilizar todas as forças para alcançá-lo?
Na minha avaliação, a armadilha do consumismo está na inversão de papéis entre os seres humanos e as coisas. Originalmente, as coisas foram e são criadas para servirem aos homens, mas na atualidade o que se observa é o contrário: nós estamos nos tornando escravos dos nossos bens materiais. Trata-se de um processo no qual as coisas são humanizadas e os homens são coisificados. Há alguns dias atrás, fiquei sabendo de um interessante caso: um jovem trabalhador comprou um carro e, por ter o orçamento apertado, agora vive fazendo “bicos” para conseguir manter a manutenção do automóvel. O carro não serve ao rapaz, mas é o rapaz que serve ao carro. Para além desse caso, ainda há os incontáveis casos de pais de família que deixam de comprar o leite das crianças a fim de garantir a gasolina do “possante”.
Se o moderno aparelho celular cai e se quebra, intermináveis lágrimas saem dos olhos. Oh não, ainda faltam onze prestações..., pensa o infeliz e endividado dono. Se a criança estraga a maravilhosa TV de plasma da família, o pai quase amputa as mãos do filho ou da filha. A “mercadoria” é o centro de tudo, o ser humano não é mais tão importante assim, as relações humanas estão reificadas, Marx foi perspicaz em sua análise da sociedade capitalista...
O que fazer dentro deste cenário? Precisamos viver, e de preferência com uma boa qualidade de vida. As invenções do mundo moderno são úteis e as pessoas devem ter o direito de possuí-las. Todavia, é preciso estar atento aos mecanismos de controle e dominação que estão escondidos por trás da farra do consumismo. Temos que tomar consciência de que as coisas que compramos são literalmente “coisas”, meros objetos que foram feitos para serem usados por nós, e não o contrário. É urgente lembrar que o que é realmente importante são as pessoas, e não as coisas.
Deixemos o exagero do consumismo de lado. Lutemos contra a reificação das relações humanas e instauremos, no seu lugar, a solidariedade e a cooperação entre os homens. Obstáculos nesta empreitada? Muitos, ainda mais quando estamos em um país onde a educação pouco tem contribuído para a emancipação intelectual dos nossos jovens, no sentido da conscientização quanto aos mecanismos de dominação e exploração da maioria pela minoria. Porém, esse é um desafio a ser enfrentado e, se quisermos um mundo melhor, não devemos fugir dele.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Crescer sem pai

Eu era ainda muito novo quando meu pai morreu. Ele se foi no dia 9 de agosto de 1990, alguns dias antes de eu completar dois anos de idade. Muitas pessoas me perguntam sobre como é não ter conhecido meu pai. Eu não me importo quando os outros me indagam sobre o assunto, mesmo porque de vez em quando eu também reflito sobre isso. Quando converso com alguém sobre esse tema geralmente ouço coisas do tipo “Ah, mas foi ‘melhor’ seu pai ter morrido quando você era bem pequeno, assim você não sofreu quando ele faleceu. E se tiver sofrido, você também nem se lembra, não é mesmo?”.
Devo admitir que há um pouco de verdade em falas como essa, e confesso que, ao ver o sofrimento de amigos meus quando perderam os seus respectivos pais, muitas vezes eu me senti um “privilegiado” por ter sido dispensado da tristeza de ver e de lembrar da morte do meu pai. Mas o fato de eu não ter passado por esse sofrimento não significa que eu nunca sofri com a perda precoce do meu genitor. Desde cedo eu tive que aprender o significado da morte, fui apresentado ao fato de que a vida humana é frágil, aprendi que a qualquer momento podemos ser arrebatados deste mundo, sem chance de nos despedirmos daqueles que amamos. Não tive o meu pai comigo para me ensinar a jogar bola, a andar de bicicleta, a subir em árvores, a dirigir, a conquistar as meninas etc. Eu tive que aprender sozinho a fazer um monte de coisas, outras eu confesso que nem aprendi ainda...
A pior parte de ter crescido sem pai foi durante a época da escola, quando eu ainda era um garotinho. Todos os anos quando se aproximava o Dia dos Pais, as professoras pediam aos alunos que escrevessem cartinhas cheias de “Eu te amo papai”, repletas de desenhos coloridos. Para não me sentir excluído, eu sempre acabava fazendo o que me pediam. Algumas vezes, porém, eu dava um “jeitinho” e, ao invés de escrever para o meu pai, escrevia para a minha mãe, que sempre foi pai e mãe para mim, ou para o meu avô materno, a maior e melhor referência como homem que Deus me deu.
Alguns rapazes que crescem sem pai perdem-se e ficam revoltados com a vida. Quanto a mim, acho que me adaptei bem ao longo dos anos, aprendi a lidar com o fato. Nunca usei a minha condição de órfão para bancar o coitadinho, por mais que muitas pessoas demonstrassem pena de mim quando descobriam que eu não havia conhecido meu pai. Desde cedo preferi encarar a minha orfandade como um recado de Deus: “Olha aqui, Rodrigo, você não tem pai, por isso você vai ter que se virar. Não fique esperando as coisas caírem do céu, ninguém o dará nada. Se quiser algo, não fique reclamando da vida e mendigando aos outros, procure estudar, trabalhar, ser honesto e correr atrás, até conseguir”.
Falando assim pode até parecer que não sinto falta de ter um pai, o que não é verdade, pois às vezes eu sinto sim. Não posso negar que cresci com esse vazio dentro de mim. O mais interessante disso tudo é que, vez ou outra, eu sonho com o meu pai. É um pouco estranho quando isso acontece porque, nesses sonhos, ele e eu nunca conversamos muito e raramente nos abraçamos. Quando sonho com ele, estamos quase sempre em um lugar tranquilo, onde ele me olha com um olhar carinhoso, mas me diz poucas palavras. Outras vezes ainda ele fica completamente calado, acho que ele não precisa me dizer nada para me dar conselhos, sua imagem já me diz tudo: se me olha carinhosamente e me dá um leve sorriso, sei que está orgulhoso de mim por algum motivo, se me olha de forma mais dura, sei que está, possivelmente, desapontado comigo.
Eu não fico triste com o meu pai por ele conversar pouco comigo e por não me abraçar muito nos meus sonhos. Acredito que meus sonhos são assim porque eu não o conheci e, portanto, não me lembro dele. Não conheço muitos detalhes a seu respeito: não sei como era sua voz, o seu jeito de andar, a forma de sorrir, o calor dos seus abraços, como era o seu perfume etc. A imagem que tenho dele é a mesma que está nas fotografias antigas, nos meus sonhos a aparência dele nunca muda, meu pai nunca envelhece. É sempre uma imagem que está ali para eu apenas olhar e tentar compreender o que ele me diz com o seu silêncio...
Penso muito nos meus amigos que, ao longo de suas vidas, perderam seus pais. Eles choraram e sofreram, e acredito que muitos ainda choram e sofrem às vezes. Não passei pela mesma dor deles, e isso me conforta um pouco. Mas confesso que sinto uma pontinha de inveja deles porque, apesar da dor, eles possuem algo que eu nunca vou poder ter do meu pai: a lembrança. Eles conseguem se lembrar dos rostos dos seus pais, dos bons momentos que tiveram, dos abraços, dos sorrisos, dos perfumes e até mesmo das crises e das brigas. Meus amigos têm garantido o direito à lembrança e, por isso, podem sentir saudade dos seus pais. “Saudade”, sentimento ambíguo esse que, por um lado, nos dá um aperto e uma dor no coração por causa da ausência de alguém que já se foi, mas que, por outro lado, nos alivia a alma por meio da lembrança, a lembrança que nos permite sentir que aqueles que partiram ainda estão conosco.
Crescer sem pai desde os anos iniciais da vida significa sempre sentir falta de um pai, mas ser impossibilitado de sentir saudade do próprio pai, exatamente pela inexistência da lembrança. Contudo, eu não fico me queixando pelo fato de meu pai ter morrido, prefiro sim tocar a vida em frente, acreditando que Deus sempre faz a coisa certa. A única coisa da qual eu me queixo às vezes é pelo fato de eu não ter tido tempo de conhecer meu pai, porque dessa forma eu pelo menos poderia sentir sua presença de forma mais intensa, por meio da lembrança. Em suma, é isto: eu só queria ter conhecido meu pai para poder sentir saudade.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

A história de uma "pérola" do rock

Há quem diga que o bom e velho rock and roll está morto. E quando vejo um grupo como o Restart ser indicado ao MTV EMA 2011, eu mesmo me pergunto se o rock já não morreu. Se há alguns anos atrás tínhamos várias boas bandas de rock surgindo, nos últimos anos, porém, garimpar um grupo de roqueiros que mereça ser ouvido tem sido tarefa difícil. É verdade que a internet nos auxilia na tarefa de encontrar novas bandas, mas, cá entre nós, boa parte das grandes bandas de rock que temos hoje já surgiu há mais de dez ou quinze anos. As últimas grandes febres musicais desse início de século XXI foram provocadas, basicamente, por artistas ligados ao pop. Este século ainda não viu o surgimento de seus próprios Beatles, Rolling Stones, The Doors, Pink Floyd, Led Zeppelin, AC/DC, U2 etc.
Mas nem sempre foi assim. O período entre o fim dos anos 1980 e o início dos anos 1990 foi marcado pelo surgimento de várias bandas de rock, e de boa qualidade. Bandas que chegaram ao estrelato, que fizeram um enorme sucesso, conquistaram a indústria, e o que é melhor: tudo isso sem abrir mão de autenticidade, identidade própria, atitude e letras bem escritas. Um bom exemplo disso pode ser visto no documentário Pearl Jam Twenty (2011, EUA), dirigido por Cameron Crowe. Como o próprio nome indica, o filme conta a história de uma das mais bem sucedidas bandas oriundas de Seattle, à época do grunge: o Pearl Jam.
O início do filme nos conta sobre o Mother Love Bone, banda que deu origem ao Pearl Jam. Vemos na tela a história da morte de Andrew Wood, vocalista do Mother Love Bone, que já é, logo de cara, uma das sequências mais emocionantes de todo o documentário (o depoimento de Chris Cornell sobre o impacto da morte de Wood é um dos mais tocantes de todo o filme). Seguindo a ordem cronológica dos fatos, Pearl Jam Twenty nos conta como os remanescentes do Mother Love Bone (Stone Gossard e Jeff Ament) se juntaram a Mike McCready, Dave Krusen e Eddie Vedder, para formar a banda.
A partir daí Cameron Crowe oferece ao espectador diversas sequências de shows do Pearl Jam ao longo das últimas duas décadas, imagens raras de arquivos e depoimentos antigos e recentes dos integrantes da banda. O documentário mostra as histórias da briga entre o Pearl Jam e a Ticketmaster, da “rixa” entre Vedder e Kurt Cobain, vocalista do Nirvana, de como a banda atravessou os anos tendo que lidar com os interesses econômicos da indústria, interesses nem sempre compatíveis com os desejos artísticos do grupo, da tragédia no festival dinamarquês de Roskilde em 2000, quando nove pessoas morreram pisoteadas em um show da banda, e das trocas de bateristas (de Krusen ao atual Matt Cameron, passando por Matt Chamberlain, Dave Abbruzzese e Jack Irons).
O mérito de Pearl Jam Twenty é sua capacidade de agradar não só aos fãs da banda, mas também a todos os que gostam de um bom e velho rock and roll. De fato, o filme nos instiga a pensar sobre a trajetória desse estilo musical ao longo dos últimos anos. O Pearl Jam em seus anos iniciais é mostrado com todo o seu vigor e atitude frente ao modelo capitalista da indústria musical, especialmente por meio de fantásticas imagens de um jovem Eddie Vedder, em início de carreira, dando shows completamente bêbado e enlouquecido, escalando as estruturas metálicas dos palcos e se jogando na plateia. Ao longo do filme vemos o quão complexa é a história da banda que, apesar das críticas ao sistema, construiu sua trajetória dentro do sistema, mesclando uma identidade musical própria a um inquestionável bom desempenho comercial.
Também vemos na tela o processo natural de envelhecimento de uma banda de rock, Vedder não faz mais as loucuras do início da carreira. Aqui o filme Pearl Jam Twenty nos mostra que esse “envelhecimento” da banda veio acompanhado de transformações no seio da indústria fonográfica, com o pop ocupando cada vez mais um espaço maior na mídia, sendo emblemáticas, nesse sentido, as imagens dos Backstreet Boys e de Britney Spears estampadas em capas de revistas. Muita coisa mudou no mundo da música desde a época do surgimento do Pearl Jam até os dias atuais. Porém, ao fim do filme, vemos imagens recentes da banda e de seus shows, imagens que nos mostram que aquela boa e velha energia do rock ainda está viva, mesmo em um contexto histórico não muito favorável. Não, o rock ainda não morreu... Oh I, oh, I’m still alive!!!
Pearl Jam Twenty é um documentário belíssimo, muito bem montado e produzido. Por meio de vários depoimentos e de belas imagens, as histórias de uma grande banda de rock são contadas de maneira intensa e inteligente. Quanto à trilha sonora, esta dispensa comentários, uma vez que é composta por algumas das melhores canções do Pearl Jam, canções que mostram o porquê de a banda ser uma das “pérolas” que restaram da época do grunge. Só é lamentável o fato de esse documentário ter tido uma limitada exibição nos cinemas brasileiros. Posto isso, resta-nos aguardar o lançamento do filme em DVD, o que será um verdadeiro presente, tanto para os fãs que não puderam assistir ao documentário nos cinemas, quanto para os que puderam. Afinal de contas, Pearl Jam Twenty é um filme que os fãs de rock precisam ter em casa!

sexta-feira, 22 de julho de 2011

"A polícia é bravo"

Um casal de vizinhos aqui de casa possui um pequeno filho, de nome Marcos Paulo. O garoto não tem ainda nem quatro anos completos, mas é muito esperto, frequenta muito a minha casa, torce pelo Vasco, não pára nenhum minuto, é super bonito, agitado e tem "muita energia", como ele mesmo diz. Um dia desses ele veio até minha casa e ficou assistindo ao jornal comigo. Quando passou uma reportagem sobre a ação do corpo de bombeiros em um acidente de trânsito, Marcos Paulo disse: "Os bombeiros salva as pessoas que machucou nas ruas". Achei a frase super bonitinha. Depois de uns minutos, o jornal passou uma reportagem sobre uma operação policial e, ao ver os policiais na TV, Marcos Paulo logo falou, assustado: "A polícia é bravo... ela prende os homens". Ao ouvir isso fiquei intrigado: o menino fala bem dos bombeiros, mas demonstra medo quando vê a Polícia...
Uns dias depois minha mãe foi ao mercado da rua de cima, acompanhada pelo Marcos Paulo que, aliás, gosta muito da minha mãe. Ao voltarem, minha mãe contou que uma viatura da Polícia passou pela rua, o que deixou o Marcos Paulo assustado. Mais uma vez me perguntei: por que esse menino tem tanto medo da Polícia?
Nas últimas semanas o país acompanhou o caso do desaparecimento e morte do menino Juan, de onze anos, em Nova Iguaçu, Baixada Fluminense, no estado do Rio de Janeiro. Mais recentemente, foi divulgada a conclusão da perícia de que o menino foi morto por quatro policiais militares. Nada mais revoltante, não? A Polícia que deveria proteger as pessoas é responsável pela morte de um menino de onze anos. Que Polícia é essa? 
Ora, os nossos policiais são colocados sob uma pesada rotina de trabalho, com pouca estrutura e baixos salários, além de terem recebido, muitas vezes, uma precária formação. Tudo isso somado à intensa corrupção nas instituições policiais e à crescente violência nos centros urbanos resulta em uma Polícia cruel, preparada para enfrentar uma guerra contra a população e não para protegê-la. Os policiais abusam de sua autoridade, batem, agridem, humilham, matam. Como diria o pequeno Marcos Paulo, "a polícia é bravo", não protege ninguém, mas pratica atos violentos contra a população. Logicamente, é preciso não generalizar, uma vez que há sim bons policiais, contudo, esse recente caso do menino Juan deve fazer-nos refletir sobre qual papel a Polícia tem desempenhado em nossa sociedade. 
Não sou inimigo da Polícia, nem seria louco para sê-lo, reconheço sua importância e sua necessidade, porém, a Polícia que temos hoje está longe de ser a ideal. Enquanto os indivíduos corruptos não forem, definitivamente, banidos das corporações e as condições de formação e de trabalho dos policiais não melhorarem, a nossa Polícia será apenas a Polícia que prende, mata e provoca medo em crianças pequenas. Precisamos de uma Polícia que nos proteja, não de uma que nos machuque.

domingo, 17 de julho de 2011

Ser pedestre em Uberlândia

Olá, leitores do meu blog! Após alguns dias sem escrever textos aqui, vim hoje compartilhar com vocês algo que tem me incomodado muito: o desrespeito aos pedestres nas cidades brasileiras.
Como vocês sabem, moro na cidade de Uberlândia, localizada no Triângulo Mineiro, uma cidade da qual eu gosto muito, mas que, como qualquer outra cidade, também tem seus defeitos. Desde o século passado, Uberlândia traz consigo o discurso do progresso e do desenvolvimento. Situada em um ponto estratégico do Brasil, a cidade cresceu muito e atraiu muitas pessoas para cá, não só de outras cidades da região, mas também de outros estados. Eu mesmo não nasci aqui, uma vez que sou carmelitano. Tendo hoje uma população que passa dos seiscentos mil habitantes e abrigando diversas empresas de médio e grande porte, incluindo muitas indústrias, Uberlândia é uma cidade bastante movimentada e seu trânsito já é bem pesado, sobretudo em determinados horários. A frota de veículos daqui já é a segunda maior do estado de Minas Gerais.
Dentro desse contexto, o pedestre sofre muito, e eu digo isso por experiência própria. Andando pelas ruas e avenidas da cidade, a impressão que tenho é que Uberlândia parece não ter sido feita para as pessoas, mas para os veículos. Um bom exemplo disso pode ser visto na situação atual da Avenida Rondon Pacheco, onde um viaduto está sendo construído no cruzamento com a Avenida João Naves de Ávila, além de estarem sendo feitas obras de construção de galerias. Não tenho nada contra essas obras, o viaduto certamente auxiliará no melhoramento do fluxo do trânsito, as galerias serão importantes para diminuir as enchentes que historicamente ocorrem na Rondon.
O que me incomoda muito é o fato de que as mudanças no trânsito que foram feitas no local, em consequência dessas obras, tais como mudanças na sinalização, no sentido de deslocamento dos carros e nos canteiros centrais, foram feitas para atender apenas aos motoristas. De fato, a circulação do pedestre ficou extremamente comprometida em alguns pontos, andar a pé pela Rondon é algo que tem sido cada vez mais difícil.
Como se isso não bastasse, há algo que complica ainda mais a situação do pedestre: o péssimo comportamento dos motoristas. Devo confessar que não sei dirigir e não tenho carteira de motorista, mas pelo que conheço a respeito do que é ensinado nas autoescolas, além do que é dito pela lei, no trânsito os maiores devem, ou deveriam, cuidar dos menores. Dito de outra forma, motoristas de ônibus e caminhões devem cuidar dos motoristas de carros que, por sua vez, devem cuidar dos motociclistas que devem cuidar dos ciclistas que, por fim, devem cuidar dos pedestres. Mas o que vejo na prática diária das ruas de Uberlândia é que os maiores estão ávidos por devorarem os menores. Todo mundo quer circular mais rápido, ninguém tem a paciência de esperar um pouco e fazer alguma gentileza no trânsito. O lugar que sobra para o pedestre, dentro dessa lógica de selva que impera no trânsito uberlandense, é o que corresponde à base de uma cruel cadeia alimentar, onde vidas humanas são constantemente ceifadas, em decorrência da correria, da imprudência e da falta de educação.
O pedestre sofre, ele não é nada, ninguém o vê, ninguém se importa com ele, ninguém o preserva. O que o pedestre deve fazer? Ora, o que eu, um pedestre, faço no meu cotidiano é tomar o maior cuidado possível. Atravesso sempre na faixa, não confio em nenhum motorista e evito andar com pressa. A pressa é inimiga do pedestre, afinal de contas, na pressa de chegar a algum compromisso, o pedestre pode nem chegar, já que ele pode ser a qualquer momento devorado por aqueles que estão acima dele na cadeia alimentar do trânsito.
Por fim, o que peço é uma mudança de cultura e de hábitos. Afinal de contas, mesmo com tantos veículos, tanta gasolina, tantas máquinas, tanto cheiro de óleo e barulho de buzina, uma cidade é feita de pessoas e não de máquinas. Que as pessoas, portanto, sejam a prioridade no trânsito!

sexta-feira, 20 de maio de 2011

"Os Agentes do Destino": uma ótima dica de cinema


Há uma semana entrou em cartaz no Brasil um filme bastante interessante, uma obra que infelizmente não tem chamado muita atenção por parte da mídia, uma vez que concorrer com filmes como Velozes & Furiosos 5, Thor, Piratas do Caribe - Navegando em Águas Misteriosas e Padre é difícil, já que esses filmes possuem um maior apelo comercial. Todavia, o fato é que a obra Os Agentes do Destino (2011, Estados Unidos) é um filme que merece ser visto, uma película que permite uma rica reflexão sobre a História.
Os Agentes do Destino é uma mistura de romance, ficção científica e religião. Dirigido por George Nolfi (em uma excelente estreia como diretor), que também assina o roteiro (baseado em um conto de Philip K. Dick, autor que já havia inspirado filmes como Blade Runner - O Caçador de Androides e Minority Report - A Nova Lei); o filme nos conta a história de David Norris (interpretado pelo carismático e sempre competente Matt Damon), um político que após perder a disputa eleitoral para o Senado, em decorrência de um escândalo, acaba por conhecer e se apaixonar por uma linda mulher chamada Elise (interpretada pela belíssima e talentosa Emily Blunt). A atração entre os dois é extremamente forte, porém, Norris acaba descobrindo que toda a sua vida segue um plano que já está definido. Pior, Norris descobre que Elise está fora desse plano, e que ele não deve ficar com ela.
O que o protagonista deve fazer? Ao longo da trama, Norris descobre que ir contra o que está planejado pelo "Presidente" (que aparentemente é Deus) pode interferir negativamente no seu futuro político e no futuro artístico de Elise, que é uma dançarina. Isso sem falar que não seguir o plano é uma atitude complicada, uma vez que os Agentes, homens que estão a serviço do "Presidente" e que possuem por missão garantir que o plano seja seguido, sempre aparecem na sua vida e interferem nas coisas, através de seus poderes fantásticos. Apesar desses obstáculos, o nosso herói vai enfrentar os desígnios do destino e lutará para ficar ao lado da mulher que ama.
Uma história dessas poderia resultar em um simples romance meloso, mas felizmente não é o que Nolfi nos proporciona. O diretor fez de Os Agentes do Destino um filme que aproveita ao máximo os talentos de seus atores e que, através de boas cenas de perseguição, da simplicidade dos seus efeitos visuais/especiais e da inteligência do seu roteiro e da sua montagem, aparece para o espectador como sendo uma ótima oportunidade de refletir sobre a História.
Em primeiro lugar, a questão de existir um plano a ser seguido em nossas vidas suscita um tema ligado à Filosofia da História, a saber, o debate sobre o sentido da História. Há ou não um sentido para o processo histórico que se desenrola ao longo dos séculos? Ao descobrir que há um plano para sua vida (se tornar presidente dos Estados Unidos), Norris descobre que há um sentido predeterminado para a sua história de vida, uma dolorosa descoberta.
Em segundo lugar, temos no filme a questão do papel do sujeito na História. Se há um sentido para a sua vida que já está definido, o que fazer diante disso? Ao longo do filme, vemos o personagem de Damon tomar as rédeas do seu destino, sair dos caminhos designados pelo plano, desafiar os Agentes e o Presidente, tudo pelo seu amor por Elise. É o sujeito que atua na História, lutando contra forças maiores que querem pensar e agir por ele.
Em terceiro lugar, temos em Os Agentes do Destino a questão da continuidade/descontinuidade na História. George Nolfi trabalha esse tema de uma forma bela e inteligente, através dos cadernos dos Agentes. Nesses cadernos há uma infinidade traços que mostram o curso da vida de Norris, o caminho que deve ser seguido por ele. Mas quando o protagonista toma uma atitude contrária ao plano, toma um caminho diferente, vemos surgirem nas folhas dos cadernos traços novos que mostram que ele se desviou. Os desenhos que mostravam o caminho contínuo ganham traços que mostram as rupturas e as descontinuidades.
Por fim, mas não menos importante, temos o acaso. E aqui está uma das grandes sacadas do filme. Apesar de existir um plano a ser seguido e Agentes poderosos que trabalham exaustivamente para que tudo aconteça de acordo com tal plano, há algo que nem os Agentes e nem o "Presidente" podem controlar: o acaso. Apesar de Elise não estar no plano de sua vida, Norris a encontra pelas ruas. Toda a estrutura de poder ligada aos Agentes revela-se frágil diante do acaso, elemento que muitas vezes se fez e se faz presente na História da humanidade.
Emocionando no romance, nos deixando tensos nas cenas de perseguição, tendo um bom toque de ficção científica e sendo um filme escrito e dirigido com inteligência, Os Agentes do Destino merece ser visto. Filme interessante e que permite que o espectador reflita, tem um final que, apesar da dose de deus ex machina, nos estimula à ação: a folha que mostra o plano da vida de Norris fica em branco, ele está pronto para seguir sua vida com autonomia, está apto para o exercício da liberdade. Não deveria ser esse o fim almejado por todos nós, a liberdade?
É por tudo isso que digo: se Os Agentes do Destino estiver em cartaz na sua cidade, vá ao cinema e assista, pois vale muito a pena!