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segunda-feira, 16 de abril de 2018

Meu Vô Chico sempre comigo!




Apesar de sabermos, desde pequenos, que um dia todos nós morreremos, é difícil estar preparado para a morte de alguém que amamos muito. Ao longo da vida criamos uma ilusão segundo a qual as outras pessoas são nossas: gostamos de dizer “o meu pai”, “a minha mãe”, “os meus avós”, “os meus filhos”, “a minha esposa”, etc. Mas as outras pessoas não nos pertencem, elas não são, de fato, “nossas”. Cada ser humano chega a este mundo, convive com os outros, constrói relações, passa por várias experiências e, após algum tempo, falece. Não há nada que se possa fazer em relação a isso. Quando alguém que amamos deixa este mundo, nós sofremos porque nos damos conta da ilusão sob a qual vivíamos. Finalmente percebemos que aquela pessoa não era uma propriedade nossa e que, aceitemos o fato ou não, o tempo dela neste mundo chegou ao fim.

Quando eu era criança, o meu Vô Chico era para mim o homem mais incrível do mundo. Mesmo estando na terceira idade e sendo aposentado, ele ainda continuou trabalhando durante vários anos como jardineiro, em Monte Carmelo-MG. O trabalho era para ele uma das coisas mais importantes da vida. O meu avô era um homem muito forte, e todos se impressionavam com o fato de que ele conseguia fazer coisas que mesmo os mais jovens não davam conta. Honesto, alegre e humilde, meu avô se dava muito bem com todo mundo e, não por acaso, ele conquistou a admiração e o respeito de muitas pessoas na cidade.

Duas pequenas histórias ajudam a dar a dimensão da grandeza do meu avô.

Quando trabalhava como jardineiro, era comum que ele passasse boa parte do dia fora, às vezes atendendo até mais de uma casa. Por isso, ele costumava levar algum dinheiro no bolso para o caso de precisar comprar algo para comer durante o dia, pois nem sempre os proprietários das casas lhe forneciam o almoço. Mas em várias oportunidades, ao estar andando pelas ruas e se deparar com alguma pessoa pedindo dinheiro, o meu avô logo tirava o que estava carregando no bolso e dava para a pessoa. E fazendo isso, não era raro que ele passasse o dia todo sem comer, afinal, os “patrões” geralmente só o pagavam pelo trabalho ao final do dia. E mesmo ficando sem comer, ele se sentia alimentado depois de realizar a boa ação: “Eu nunca senti fome depois de ajudar uma pessoa na rua”, ele me contou várias vezes.

O meu avô tinha o coração do tamanho do universo. Durante as minhas últimas férias em Monte Carmelo, nós estávamos conversando sobre diversos assuntos quando, de repente, começamos a falar sobre os problemas sociais existentes no mundo e a questão da pobreza. Em um dado momento, ele me olhou fixamente nos olhos e disse: “Por que será que tem tanta gente passando fome no mundo? Eu fico numa dó desse povo, sabe, Rodrigo... Das crianças principalmente. Por que será que o mundo tem que ser desse jeito?”. E naquele momento, os olhos dele se encheram d’água, tamanha a sua tristeza em relação ao problema da desigualdade social. Para alguém tão generoso e que sempre estava disposto a ajudar os outros, era difícil para ele compreender o porquê de alguns homens viverem com muito enquanto muita gente vivia com tão pouco. Meu avô simplesmente não conseguia entender as razões de existir tanta ganância e egoísmo em nosso planeta.

Eu poderia ficar aqui recordando várias outras histórias a respeito do meu avô. Mas acho que os fatos narrados acima já são suficientes para mostrar o quanto ele era um homem bom, de coração puro e cheio de generosidade. Meu Vô Chico foi o ser humano mais iluminado que eu conheci e, embora eu soubesse que um dia ele iria falecer, a minha mente sempre se recusou a pensar demais no assunto, como se no fundo eu acreditasse que o meu avô pudesse, como que por algum milagre, viver para sempre com todos nós aqui na Terra. É verdade que, nos últimos anos, ao perceber que o meu avô estava envelhecendo e ficando com a saúde mais frágil, eu comecei a me dar conta de que, mais dia menos dia, eu teria que lidar com a notícia da sua morte. De qualquer maneira, foi impossível me preparar totalmente para isso. A ilusão teimava em continuar existindo, como normalmente acontece com a maioria das pessoas.

Hoje completou um mês que o meu Vô Chico faleceu. No último dia 16 de março, chegou ao fim a ilusão de que o meu avô “me pertencia”. Após cumprir sua jornada na Terra, ele foi chamado de volta aos braços do Pai. Sua partida deixou um buraco enorme no meu coração, e para sempre terei que lidar com a saudade que vou sentir dele, isto é um fato. Mas passados alguns dias de sua morte, tenho pensado muito sobre a sua vida e sobre os exemplos que ele deixou para todos nós. Tenho refletido muito sobre tudo isso e cheguei à conclusão de que não há motivos para eu ficar triste.

Não, não pode haver tristeza quando o assunto é o meu Vô Chico. Este é um sentimento absolutamente incompatível com a beleza do seu sorriso, o seu inesquecível sorriso que ficará para sempre em minha memória. Não posso ficar triste com sua morte porque, em minha Fé, eu sei que ele está em um lugar muito bonito agora, um lugar bem melhor que este mundo em que vivemos. O que morreu foi o seu corpo físico, não o seu espírito. A alma de meu avô vive e descansa em paz agora. Quando fecho os olhos, consigo ver perfeitamente o meu avô caminhando por um lugar repleto de flores e árvores, com pássaros cantando e muito verde ao redor. Neste lugar, eu sei que meu avô pode caminhar o quanto quiser, afinal, suas pernas não doerão mais, a fadiga não o incomodará novamente e seus pulmões não ficarão sem ar, pois estes problemas que o incomodavam tanto em seus últimos anos de vida terrena agora não podem mais alcançá-lo. O meu avô está livre de qualquer limitação terrena. Eu gosto de imaginar as coisas dessa forma, e encarar a morte de meu avô desta maneira tem me dado muitas forças. A certeza de que ele está em um lugar melhor agora acalma o meu coração. 

O meu avô está bem, eu sei disso!

E se ele está bem, não há motivos, portanto, para ficar triste. A saudade sim é algo inevitável, que continuará machucando um bocado o meu coração durante muito tempo, mas não sinto que eu deva ficar triste por causa da morte do meu avô. Afinal, não há agora sequer barreiras físicas entre mim e ele. Se antes eu tinha que viajar pouco mais de cem quilômetros para vê-lo e sentir sua presença, agora, eu sinto que em espírito o meu avô está sempre comigo. Este sentimento me conforta e me dá forças para seguir em frente. Deus foi bom comigo ao permitir que eu pudesse conviver com o meu avô por muitos anos, e Deus continua sendo bom comigo ao me proporcionar a sensação de que o meu avô permanece ao meu lado. Por tudo isso, eu sou grato a Deus e não me sinto no direito de ficar triste.

Nestes últimos dias, tenho me lembrado muito de algo que o escritor Guimarães Rosa uma vez escreveu: “Deus nos dá pessoas e coisas, para aprendermos a alegria... Depois, retoma coisas e pessoas para ver se já somos capazes da alegria sozinhos... Essa... a alegria que ele quer.” O que aprendi com essas palavras é que a ausência física do meu avô pode até me fazer sentir saudade, mas nunca pode me deixar triste, pois eu sei que uma das coisas que meu avô mais gostava era ver seus familiares alegres e sorrindo. Assim, espero continuar tendo forças para seguir sorrindo e alegre, afinal, creio que Deus e meu avô ficarão contentes com isso.

Termino este texto com uns versos que eu mesmo escrevi há alguns dias atrás. Eles sintetizam bem o fato de que, se por um lado a morte nos afasta fisicamente daqueles que amamos, por outro lado o amor e a memória permitem que aqueles que amamos sempre estejam conosco. Ter meu avô sempre comigo é uma dádiva, o mais bonito de todos os presentes. E novamente, sou grato a Deus por isso...

“Quando você que eu tanto amava
Neste mundo vivia
Se perto de você eu estava
A sua presença eu sentia.

Agora você que eu ainda amo
Neste mundo não mais está
Mas posso sentir sua presença comigo
Sempre, em qualquer lugar.”


Uberlândia-MG, 16 de abril de 2018



domingo, 22 de janeiro de 2017

Minha Vó Nega...


Ontem, dia 21 de janeiro, minha Vó Nega completou 78 anos de idade. Uma vida longa e que foi repleta até aqui de muitos desafios. Minha avó, como vocês podem imaginar, não nasceu "Nega", mas sim "Brasilina", o seu verdadeiro nome. De qualquer forma, ela é mais conhecida pelo apelido e, para mim, desde pequeno, ela sempre foi simplesmente a "Vó Nega".

Falar da minha avó é falar de uma mulher forte. Ela não teve uma vida fácil e foi com bastante luta que conseguiu criar os sete filhos ao lado do meu avô. É preciso lembrar que há algumas poucas décadas atrás, as pessoas não tinham certas comodidades que nos dias de hoje são tão corriqueiras. Disk-entrega? Isso não existia. Viajar para um lugar distante? Não era tão simples, já que o acesso a meios de transporte tinha as suas limitações. Comprar carne já devidamente cortada no açougue? Nem sempre, pois há algum tempo atrás se matava o animal - uma galinha, por exemplo - no quintal de casa mesmo, tinha que sujar as mãos para fazer o serviço. E o que mais... televisão, quando havia, só com poucos canais e a imagem era bem ruim - alguém tinha que mexer na antena lá fora até alguém gritar de dentro de casa para avisar que a imagem da TV tinha melhorado. Telefone celular? Não havia. Rua asfaltada na porta de casa? Este luxo só veio com o tempo, e antes disso as pessoas tinham que encarar a poeira e o barro.

A vida moderna trouxe alguns pequenos confortos. Não para todo mundo, é verdade, pois ainda hoje há pessoas que vivem sob condições sofríveis de vida. Porém, o que eu estou querendo dizer é que, ao longo de quase oitenta anos, minha avó - ao lado do meu avô, do meu pai e dos meus tios - teve que enfrentar uma realidade muito diferente da atual, com desafios complexos e muitas dificuldades que os mais jovens de hoje talvez nem imaginam.

Minha Vó Nega teve que se desdobrar para encarar as intempéries da vida. A ordem natural das coisas foi invertida, e ela teve que vivenciar uma terrível perda para qualquer mãe: a morte de um filho. O meu pai morreu muito jovem, e eu sei que passar por isso não foi fácil para a minha avó. Quando eu era criança e o assunto da morte do meu pai era abordado em alguma conversa, o seu olhar e a sua fisionomia sempre mudavam. Quem de nós poderá dimensionar o tamanho dessa dor? Provavelmente, ninguém além de Deus.

Ainda assim, desde a infância, a minha avó me surpreendeu por sua força e sua determinação. Procurava cuidar de tudo e de todos. Muito atenta, poucas coisas escapavam aos seus olhos e aos seus ouvidos. Dona de uma sinceridade e de um senso de humor por vezes ácido - o que, devo dizer, sempre foi algo que me agradou muito nela -, minha Vó Nega nunca foi de ter papas na língua e nunca perdeu a oportunidade de fazer uma graça, contar um causo engraçado ou tecer algum inesperado comentário sobre uma celebridade da TV. Certa vez, quando assistíamos juntos a um telejornal, ela elogiou a beleza do apresentador da seguinte maneira: "Esse Evaristo Costa é bonito demais, um pão... Nossa, acho que até o c* dele deve ser bonito!". E depois de falar já começava a rir deliciosamente no sofá da sala. Que divertido era e ainda é ouvir esses comentários feitos por ela! Minha Vó Nega sempre foi uma grande figura, e isto é algo que ninguém pode mudar.

Ela também é dona de uma grande sabedoria. Quantas vezes eu já tive a oportunidade de conversar com ela por longas e longas horas, nais quais sempre pude aprender muito sobre as coisas da vida. Minha avó é uma pessoa que sabe falar e ouvir, e com ela dá para conversar sobre religião, finanças, política, telenovelas, família, atualidades, culinária, etc. Dona Nega sempre está pronta para uma boa conversa, mas ela gosta de deixar bem claro: não suporta "PR", ou seja, alguém com o "papo ruim". Foi em uma de nossas conversas que ela me disse algo que nunca vou esquecer: "Quem não vive para servir, não serve para viver". Penso que a lição mais importante que ela me ensinou foi exatamente esta de tentar fazer o bem às pessoas, mesmo que tais pessoas não tenham sido boas conosco. Sim, uma lição difícil de aprender e de colocar em prática, mas uma lição extremamente importante.

Falar da minha Vó Nega é me recordar de algumas das melhores coisas da infância: o futebol na rua Minas Gerais perto da casa dela, os bolinhos de chuva, o dinheiro para ir à sorveteria, as tardes gostosas em época de férias na "casa da vó". Falar da minha avó é falar de alguém que soube enfrentar com firmeza os dissabores da vida e que sempre procurou fazer as coisas da maneira certa, com honestidade e integridade. Falar da minha avó é falar de uma pessoa que é exemplo de resistência e força, um exemplo sempre útil para os momentos difíceis da vida.

Durante a minha infância, eu confesso que pensava que ela seria eterna. Os anos passados e a vida adulta me mostraram, porém, que o tempo age sobre todas as pessoas. Hoje, quando a vejo em sua casa, com os movimentos lentos, a respiração cada vez mais pesada, a dificuldade para se levantar e as marcas do tempo em seu rosto, não há como não pensar neste destino de todos nós que é o envelhecimento. Minha Vó Nega quase sempre fala, desde que eu me entendo por gente, dos seus problemas de saúde e de como acha que "vai morrer em breve". É algo dela. E eu, como neto, gosto de responder que ela está errada e que vai viver muitos e muitos anos ainda. Respondo dessa forma porque é o que eu realmente desejo, do fundo do meu coração. Quero que ela viva ainda muitos e muitos anos para além destes 78 que ela completou ontem. E isto não é algo que eu apenas "quero" que aconteça, mas que também "sei" que é o que vai acontecer! Porque pessoas como a minha Vó Nega são para sempre, para a eternidade. Porque pessoas como ela sempre deixam a sua marca em nós, seus filhos e netos, pelo seu exemplo e pelos seus ensinamentos. Vó Nega é dessas pessoas que ficam sempre com a gente.

Por tudo isso, só posso dizer: vida longa à Dona Nega! 

Parabéns, Vó!
Nós te amamos!

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Quando me perguntam se eu acredito em Deus...

Quando me perguntam se eu acredito em Deus, tem uma história que aconteceu comigo e que eu sempre gosto de lembrar...
Na época em que eu fazia o Curso de Graduação em História no período noturno, há alguns anos atrás, eu ia embora da faculdade sempre a pé. Foram mais de quatro anos fazendo isso. Eu saía da UFU e caminhava até a minha casa no bairro Aparecida. A noite oferecia os seus perigos, é claro, mas não tinha outro jeito, então eu precisava encarar aquela caminhada noturna. Uma vez, indo embora para a minha casa, passando perto da agência da Caixa Econômica e da Curinga Veículos, ali na Avenida Rondon Pacheco, cansado depois de um dia todo estudando na UFU, e suportando o frio que fazia naquela noite, eis que me deparo com um assaltante!
Eu me lembro que era um cara jovem e, como dava para perceber, ele estava visivelmente "alterado", provavelmente em função do uso de alguma droga. Surgiu quase que do nada, perguntou onde estava o meu celular e se eu tinha dinheiro. Agora, tentem entender a minha situação naquele momento... Durante a minha faculdade, eu não trabalhava, e a única fonte de renda que eu tinha era uma tímida bolsa de Iniciação Científica (era por participar de um projeto de pesquisa que eu ficava o dia todo na UFU de vez em quando). Naquele dia, mais cedo, eu tinha gastado quase todo o meu dinheiro com umas xerox de uns textos para as disciplinas que eu cursava. Quanto ao celular, o mesmo tinha ficado em casa recarregando a bateria (e o aparelho estava sem créditos, então, eu não o tinha levado comigo para a universidade naquele dia). Na minha carteira, havia apenas a notável quantidade de dois reais e alguns centavos que tinham sobrado após um dia todo na UFU. Numa situação assim, eu só conseguia pensar que o cara ia me matar. "Pronto, esse maluco vai ficar grilado pelo fato de eu não ter muita coisa e vai estourar os meus miolos. Não é possível que eu vou acabar desse jeito", pensei.
Já passei por muitas dificuldades na vida, mas posso dizer a vocês que ter uma arma de fogo apontada para mim foi certamente uma das piores experiências que já tive. E o pior era que o assaltante estava muito, mas muito alterado, praticamente fora de si, o que aumentava ainda mais o meu medo de morrer ali mesmo.
E no entanto, embora o medo fosse grande e, por dentro, eu estivesse completamente apavorado, por mais incrível que pareça, eu consegui demonstrar calma naquela hora. Minhas mãos não tremeram e eu sequer gaguejei. Conversei com o ladrão sobre o porquê de eu ter tão pouco dinheiro naquele momento. Ele abriu a minha mochila, viu o meu caderno e os textos da faculdade, depois olhou pra mim e me disse umas coisas que, sinceramente, eu nem consigo me lembrar. No final, ele levou o meu pouco dinheiro e também a minha blusa, pois fazia frio na hora. Tomou o seu caminho e não me atormentou mais. Não houve nenhum tipo de agressão física. Sobrevivi ao assalto e, o que é melhor, fisicamente ileso.
A sensação de estar "por um fio" é horrível. Mas alguma coisa naquela hora me deu forças para demonstrar calma, mesmo eu estando tenso por dentro. Alguma coisa ali me ajudou a não fazer nenhum tipo de movimento brusco. Sim, eu gosto de pensar que teve algo ali que também não permitiu que o assaltante puxasse o gatilho da arma. Foi um momento complicado? Sim! Mas mesmo naquela hora em que tudo poderia dar errado, as coisas acabaram dando certo.
Desde então, eu gosto de pensar que Deus é aquele punhado de boa sorte que nós temos em um momento de azar. Deus às vezes tem um modo estranho de agir, e nem sempre conseguimos compreender a Sua vontade. Mas Ele está sempre ali, nos detalhes. Não acho que Ele interfira sempre em tudo, mas quando Ele age, ah, acontecem coisas que a gente nem acredita!
Sim, eu acredito em Deus!

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Três amigas

Há quem diga que a amizade entre homem e mulher é impossível. Durante muitos anos eu tive pouquíssimas amigas, minhas amizades mais fortes eram com os outros garotos da minha idade, o que parecia confirmar a ideia de que era mesmo impossível ser amigo de alguém do sexo oposto. Talvez pela timidez, sempre me senti mais à vontade com outros garotos, as conversas e as piadas sempre fluíram melhor com eles. Tal situação mudou apenas durante os anos de faculdade, mais maduro e menos inseguro me soltei mais com as garotas. Não, eu não me tornei um conquistador de incontáveis mulheres, o que eu ganhei mesmo ao me aproximar delas foram preciosas amizades.
Ter amigas tem sido uma coisa muito boa para mim. Acho que todo homem devia ter pelo menos uma. Se tiver várias, melhor ainda. É bom ter alguém com quem se possa conversar sobre coisas que não sejam relacionadas a futebol, carros, piadas sujas ou filmes de ação. Com minhas amigas aprendi muito sobre novelas, filmes de amor, moda, culinária. Melhor ainda, com elas eu venho aprendendo um pouco sobre o universo feminino, esse mundo de coisas que nós homens nunca vamos conseguir entender completamente. Minhas amigas me ensinaram sobre a importância de ser gentil e educado com os outros, sobre o valor de um abraço, sobre ter paciência para ouvir o que o outro tem a dizer, sobre o convívio com as diferenças etc.
Tenho grandes amigas e a convivência com elas tem sido uma experiência belíssima e prazerosa. Gostaria de exemplificar com três casos: Carol, Cassinha e Fafá. Falarei das três aqui não por obra do acaso. Acontece que hoje é dia 25 de Janeiro, dia dos aniversários das três. Isso mesmo! Tenho três amigas que fazem aniversário no mesmo dia. Mais ainda: conheci as três na faculdade, onde as três fazem parte do mesmo núcleo de pesquisa que eu. Situação parecida com essa nunca aconteceu com meus amigos homens: prova de que algumas coincidências, de tão mágicas, só ocorrem mesmo quando envolvem o universo feminino.
Carol é, na verdade, Ana Carolina, mas ela prefere que a chamemos pelo apelido. Concordo plenamente. “Carol” combina muito mais com ela, é um nome doce. Carol é a “moça dos esmaltes”, tem bom gosto e entende de coisas bonitas. Ela é de uma humildade ímpar, uma presença sempre agradável. Não precisa usar roupas curtas e provocantes, é um mulherão por natureza. Carol conquista a todos com sua alegria. Das coisas que aprendi com Carol, a que vou levar para sempre comigo é o valor do olhar. Carol tem um olhar doce, ainda de menina e, quando conversa com a gente, é sempre olho no olho. Se os olhos forem mesmo a janela da alma, Carol é realmente uma pessoa especial. Olhando sempre nos nossos olhos, ela se mostra, não sente necessidade de se esconder. O olhar de Carol é sincero.
Cassinha é, na verdade, Cássia. Ela não exige que a chamemos pelo apelido, mas gosto de chamá-la assim porque acredito que combina perfeitamente com ela. Cassinha é de baixa estatura, mas que o leitor não se engane, o apelido no diminutivo não diminui a pessoa que ela é e nem a importância que ela tem para os outros que convivem com ela. Porque Cassinha é uma grande mulher, é corajosa e não tem medo de encarar o que tiver que encarar, enfrenta qualquer situação com uma valentia rara de se ver por aí, não recua ante as dificuldades que aparecem no seu caminho. Com Cassinha aprendi a importância de um sorriso e de um abraço. Não importa se o dia é difícil, ela sempre recebe a todos os seus amigos com um sorriso no rosto e com muito carinho. Cassinha não desconta seus problemas nos outros.
Fafá é, na verdade, Fabrícia. Ao vê-la pela primeira vez no corredor do Bloco 1H, ainda imaturo e com alguns preconceitos na cabeça, pensei que ela fosse apenas mais uma garota bonita, e só. Conviver com Fafá me possibilitou abandonar alguns estereótipos. Ela me ensinou que garotas bonitas podem sim ser inteligentes, boas de papo e educadas. Nem toda mulher bonita é fútil e arrogante. Fafá me mostrou que a verdadeira beleza feminina não depende de maquiagem, mesmo sem nenhum tipo de base aplicado na pele do rosto, uma mulher pode sim ser bonita, se sua beleza vier do seu interior. Nas nossas conversas pelo MSN, aprendi com Fafá sobre a importância de se ter pessoas de confiança, a quem pedir conselhos, confidenciar alguns segredos e falar sobre os problemas do dia a dia.
Assim são minhas três amigas que fazem aniversário neste dia 25 de Janeiro. Na verdade, elas são bem mais complexas do que esses simples retratos que pintei aqui, como toda mulher deve ser. De qualquer modo, o que eu queria mesmo era registrar aqui a importância que elas tem na minha vida e o quanto aprendi com elas.
Feliz aniversário, muitos anos de vida e muitas coisas boas a Carol, Cassinha e Fafá!

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Crescer sem pai

Eu era ainda muito novo quando meu pai morreu. Ele se foi no dia 9 de agosto de 1990, alguns dias antes de eu completar dois anos de idade. Muitas pessoas me perguntam sobre como é não ter conhecido meu pai. Eu não me importo quando os outros me indagam sobre o assunto, mesmo porque de vez em quando eu também reflito sobre isso. Quando converso com alguém sobre esse tema geralmente ouço coisas do tipo “Ah, mas foi ‘melhor’ seu pai ter morrido quando você era bem pequeno, assim você não sofreu quando ele faleceu. E se tiver sofrido, você também nem se lembra, não é mesmo?”.
Devo admitir que há um pouco de verdade em falas como essa, e confesso que, ao ver o sofrimento de amigos meus quando perderam os seus respectivos pais, muitas vezes eu me senti um “privilegiado” por ter sido dispensado da tristeza de ver e de lembrar da morte do meu pai. Mas o fato de eu não ter passado por esse sofrimento não significa que eu nunca sofri com a perda precoce do meu genitor. Desde cedo eu tive que aprender o significado da morte, fui apresentado ao fato de que a vida humana é frágil, aprendi que a qualquer momento podemos ser arrebatados deste mundo, sem chance de nos despedirmos daqueles que amamos. Não tive o meu pai comigo para me ensinar a jogar bola, a andar de bicicleta, a subir em árvores, a dirigir, a conquistar as meninas etc. Eu tive que aprender sozinho a fazer um monte de coisas, outras eu confesso que nem aprendi ainda...
A pior parte de ter crescido sem pai foi durante a época da escola, quando eu ainda era um garotinho. Todos os anos quando se aproximava o Dia dos Pais, as professoras pediam aos alunos que escrevessem cartinhas cheias de “Eu te amo papai”, repletas de desenhos coloridos. Para não me sentir excluído, eu sempre acabava fazendo o que me pediam. Algumas vezes, porém, eu dava um “jeitinho” e, ao invés de escrever para o meu pai, escrevia para a minha mãe, que sempre foi pai e mãe para mim, ou para o meu avô materno, a maior e melhor referência como homem que Deus me deu.
Alguns rapazes que crescem sem pai perdem-se e ficam revoltados com a vida. Quanto a mim, acho que me adaptei bem ao longo dos anos, aprendi a lidar com o fato. Nunca usei a minha condição de órfão para bancar o coitadinho, por mais que muitas pessoas demonstrassem pena de mim quando descobriam que eu não havia conhecido meu pai. Desde cedo preferi encarar a minha orfandade como um recado de Deus: “Olha aqui, Rodrigo, você não tem pai, por isso você vai ter que se virar. Não fique esperando as coisas caírem do céu, ninguém o dará nada. Se quiser algo, não fique reclamando da vida e mendigando aos outros, procure estudar, trabalhar, ser honesto e correr atrás, até conseguir”.
Falando assim pode até parecer que não sinto falta de ter um pai, o que não é verdade, pois às vezes eu sinto sim. Não posso negar que cresci com esse vazio dentro de mim. O mais interessante disso tudo é que, vez ou outra, eu sonho com o meu pai. É um pouco estranho quando isso acontece porque, nesses sonhos, ele e eu nunca conversamos muito e raramente nos abraçamos. Quando sonho com ele, estamos quase sempre em um lugar tranquilo, onde ele me olha com um olhar carinhoso, mas me diz poucas palavras. Outras vezes ainda ele fica completamente calado, acho que ele não precisa me dizer nada para me dar conselhos, sua imagem já me diz tudo: se me olha carinhosamente e me dá um leve sorriso, sei que está orgulhoso de mim por algum motivo, se me olha de forma mais dura, sei que está, possivelmente, desapontado comigo.
Eu não fico triste com o meu pai por ele conversar pouco comigo e por não me abraçar muito nos meus sonhos. Acredito que meus sonhos são assim porque eu não o conheci e, portanto, não me lembro dele. Não conheço muitos detalhes a seu respeito: não sei como era sua voz, o seu jeito de andar, a forma de sorrir, o calor dos seus abraços, como era o seu perfume etc. A imagem que tenho dele é a mesma que está nas fotografias antigas, nos meus sonhos a aparência dele nunca muda, meu pai nunca envelhece. É sempre uma imagem que está ali para eu apenas olhar e tentar compreender o que ele me diz com o seu silêncio...
Penso muito nos meus amigos que, ao longo de suas vidas, perderam seus pais. Eles choraram e sofreram, e acredito que muitos ainda choram e sofrem às vezes. Não passei pela mesma dor deles, e isso me conforta um pouco. Mas confesso que sinto uma pontinha de inveja deles porque, apesar da dor, eles possuem algo que eu nunca vou poder ter do meu pai: a lembrança. Eles conseguem se lembrar dos rostos dos seus pais, dos bons momentos que tiveram, dos abraços, dos sorrisos, dos perfumes e até mesmo das crises e das brigas. Meus amigos têm garantido o direito à lembrança e, por isso, podem sentir saudade dos seus pais. “Saudade”, sentimento ambíguo esse que, por um lado, nos dá um aperto e uma dor no coração por causa da ausência de alguém que já se foi, mas que, por outro lado, nos alivia a alma por meio da lembrança, a lembrança que nos permite sentir que aqueles que partiram ainda estão conosco.
Crescer sem pai desde os anos iniciais da vida significa sempre sentir falta de um pai, mas ser impossibilitado de sentir saudade do próprio pai, exatamente pela inexistência da lembrança. Contudo, eu não fico me queixando pelo fato de meu pai ter morrido, prefiro sim tocar a vida em frente, acreditando que Deus sempre faz a coisa certa. A única coisa da qual eu me queixo às vezes é pelo fato de eu não ter tido tempo de conhecer meu pai, porque dessa forma eu pelo menos poderia sentir sua presença de forma mais intensa, por meio da lembrança. Em suma, é isto: eu só queria ter conhecido meu pai para poder sentir saudade.

domingo, 17 de abril de 2011

Eu Queria Ser Bono Vox



Acordei hoje em uma bela e azul manhã de Domingo, ainda com uma coisa que, já há alguns dias, não me sai da cabeça: o show do U2. Há exatamente uma semana realizei um dos meus maiores sonhos assistindo à apresentação dos quatro irlandeses (gosto de chamá-los assim), no Estádio do Morumbi em São Paulo. Noite inesquecível, um grande espetáculo! Ainda hoje posso fechar os olhos e me ver, completamente feliz, dentro do estádio, acompanhado por 90 mil pessoas, próximo a uma das “pernas” da Garra (nome do palco da Turnê 360°), cantando, pulando, gritando, chorando... Assistir a um show do U2 não é apenas ver uma bela apresentação de rock, é passar por uma experiência musical, visual, emocional, política, espiritual, religiosa...
Lembro-me de assistir pela televisão, aos nove anos de idade, a uma reportagem sobre uma banda irlandesa que estava no Brasil para fazer alguns shows (só mais tarde eu iria descobrir que se tratava da Turnê PopMart que passou pelo Brasil em 1998). Lembro-me de ver na tela o nome da banda, bem simples, uma letra “U” seguida pelo número “2”, U2. O programa de TV também mostrou a banda cantando uma canção chamada “Where The Streets Have No Name”, o que me marcou muito. Sou capaz de sentir agora a mesma emoção que senti quando ouvi pela primeira vez a excelente guitarra de The Edge, a bateria forte de Larry Mullen Jr. e o baixo marcante de Adam Clayton, enquanto Bono Vox cantava: “I wanna run... I want to hide...”.
Eu não passava de uma criança, um simples garoto de uma cidade mineira do interior, mas a partir daquele momento comecei a conhecer melhor aquela banda. Através de alguns coleguinhas da escola e, principalmente, de um tio, tudo o que dizia respeito ao U2 era objeto do meu interesse, de revistas a fitas cassete. Alguns anos depois comecei a trabalhar como office boy em um escritório e, com o meu primeiro salário, comprei um CD original do U2: o álbum All That You Can’t Leave Behind, que havia sido lançado em 2000. Canções como “Beautiful Day”, “Elevation”, “Walk On”, “Kite” e “When I Look At The World” embalaram a minha adolescência, além das clássicas canções que a banda havia feito nos anos 1980 e 1990.
Com o advento da internet e do DVD, comecei a “ver” o U2 em shows e entrevistas, o sonho de assisti-los ao vivo foi crescendo dentro de mim como uma árvore, ou seja, começou como uma pequena semente e se transformou em uma planta gigantesca, com enormes galhos e folhas verdes. Eu queria ir a um show deles, mais ainda, eu queria ser Bono Vox. Todas as noites quando me deitava eu ficava acordado na cama, sonhando acordado, imaginando-me em cima de um palco, emocionando milhares de pessoas, levando uma mensagem de amor e paz a elas, puxando uma garota da plateia (que nos meus devaneios sempre era alguma garota da escola pela qual eu estava apaixonado), dançando com ela em cima do palco enquanto cantava “With Or Without You”, ao fim da qual eu dava um selinho na boca da moça. Coisas de garoto que gostava de rock, acredito que a maioria das pessoas já sonhou em ser um astro da música, ocupando o lugar do seu ídolo máximo.
Sim, eu queria ser Bono Vox. Com o passar dos anos, porém, veio a maturidade e as coisas de garoto foram sendo deixadas de lado. É verdade que nunca deixei de gostar do U2, pelo contrário, continuei comprando CDs da banda e me informando sobre eles na internet. Só que o meu interesse começou a se voltar mais para as características do som da banda, os acordes, os arranjos, o ritmo, a melodia, os detalhes quase inaudíveis de cada música, as mensagens presentes nas belíssimas letras. O som da banda sempre foi capaz de me emocionar bastante e quando os quatro irlandeses vieram ao Brasil em 2006, durante a Turnê Vertigo, assisti ao show pela TV e, chorando, prometi a mim mesmo que iria ao show dos caras na próxima vez que viessem ao Brasil.
Até que no ano passado foi divulgado que a Turnê 360° passaria pela cidade de São Paulo. Não pensei duas vezes, juntei uma grana, comprei um pacote de viagem e fui ao show. Posso dizer que foi uma das melhores coisas que já fiz na vida. O U2 sabe mesmo fazer um show, sabe proporcionar um grandioso e único espetáculo. No Estádio do Morumbi luzes surgiam dos mais diversos lugares durante a apresentação; o incrível telão em 360° (que se movia de cima para baixo, ora se expandindo ora voltando ao tamanho normal) mostrava detalhes do show e vídeos com mensagens políticas; o som era alto e potente, entrando pelos ouvidos e indo direto ao coração.
Foi mesmo um momento de sonho e fantasia “Even Better Than The Real Thing”, como sugeriu a primeira música do show. Durante aquelas mais de duas horas eu sonhei, vibrei, me emocionei, cantei, chorei, gritei e pulei. O Morumbi parecia pequeno para mim, o mundo parecia pequeno para mim. Na minha mente só havia o U2, a Garra, aquelas 90 mil pessoas e eu. Ao ver a performance de Bono no palco não pude deixar de pensar: e se fosse eu ali no lugar dele?
Pois é, por um instante o garoto de dez ou doze anos de idade ressurgiu das cinzas, e eu quis novamente ser Bono Vox, tal como na adolescência. Tudo isso foi há uma semana, todavia parece que ainda está acontecendo. Acho que ainda estou no Morumbi e ainda sinto de vontade de ser um astro do rock! Pelo que vejo, ainda existe um pouco daquele garoto dentro de mim... São coisas que apenas a música pode proporcionar, e por isso eu digo: Viva o rock! Viva a Irlanda! Viva o U2!