sexta-feira, 20 de março de 2015
"Colheita Maldita"
O Cinema Alemão e a Ascensão de Hitler
terça-feira, 1 de novembro de 2011
O medo é contagioso
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
A história de uma "pérola" do rock
sexta-feira, 20 de maio de 2011
"Os Agentes do Destino": uma ótima dica de cinema
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
A Busca pelo Triunfo nos Filmes “Cisne Negro” e “O Vencedor”
Vencer, triunfar, atingir um determinado objetivo, eis uma das mais antigas características do ser humano: sonhar e lutar para realizar os seus sonhos. O ser humano sempre busca algo, sempre deseja algo, mas os caminhos para se chegar a tal fim nem sempre são fáceis e podem, por vezes, se transformarem em um tortuoso labirinto do qual pode não haver saída. Sobre essa busca pelo triunfo e pela realização pessoal, foram recentemente lançados dois filmes que, apesar de serem muito diferentes entre si, apresentam alguns pontos em comum: Cisne Negro e O Vencedor (ambos de 2010, EUA).
O jovem e já cultuado diretor Darren Aronofsky dirige Cisne Negro, um tenso e aterroizante thriller psicológico que conta a história de Nina (interpretada de forma genial por Natalie Portman), uma delicada bailarina que apresenta um sentimento de obsessão em alcançar a perfeição em sua arte. Quando a primeira bailarina da companhia de balé da qual Nina faz parte se aposenta, a personagem de Natalie Portman é escolhida pelo diretor da companhia, Thomas Leroy (Vicent Cassel), para estrelar uma nova montagem do balé O Lago dos Cisnes, do russo Tchaicovsky, no papel da Rainha Cisne, interpretando tanto o cisne branco quanto o cisne negro.
Nina quer interpretar o papel de forma perfeita e, para a realização de tal objetivo, irá mergulhar bem fundo no universo de O Lago dos Cisnes, especialmente no universo do cisne negro, universo sombrio e cheio de malícia. A dificuldade de Nina está no fato apontado pelo diretor Thomas, a saber, o fato de ela ser perfeita para o papel do cisne branco (ela é ingênua, delicada, meiga), mas precisa adquirir a essência do cisne negro (o poder de sedução, a malícia, o lado sombrio). Nina se espelha em várias personagens: na antiga primeira bailarina da companhia, Beth (Winona Ryder); na sua colega Lilly (Mila Kunis), com a qual nutre uma complexa relação de atração física, inveja e concorrência; e na sua mãe, Erica (interpretada brilhantemente por Barbara Hershey), uma bailarina frustrada que vê no sucesso da filha uma realização que ela própria não pôde alcançar passado.
Seguindo as exigências do diretor da companhia, Nina vai descobrir o sexo, a sedução e a malícia, características básicas para a composição do cisne negro. A meiga bailarina quase infantil, sobretudo porque sempre foi tratada como uma boneca pela mãe, vai aos poucos se tornando mulher, libertando-se de suas amarras interiores que lhe impediam de ser o cisne negro. Mas Nina acaba se prendendo a outras amarras, as amarras do desejo de perfeição. Com o objetivo de ser perfeita, Nina mergulha cada vez mais fundo no universo do cisne negro, mergulho o qual pode não ter volta.
O mundo do balé tal como representado
A obsessão pela perfeição artística de Nina espelha-se na perfeição estética do próprio filme dirigido por Aronofsky. Cisne Negro possui um elenco que não decepciona em momento algum, a fotografia do filme é escura e sombria (grande parte do filme se passa à noite), a direção de arte é impecável, os efeitos visuais são impressionantes, a edição é extremamente bem feita e o filme tem a duração exata, nem muito longo nem muito curto. Se Nina é arrebatada e absorvida pelo seu desejo de perfeição, o espectador de Cisne Negro é arrebatado e absorvido pelo universo paranoico da bailarina interpretada por Natalie Portman, sendo constantemente levado ao terror e à tensão de um mundo onde os espelhos refletem não apenas a realidade física, mas também o estado de espírito de uma mente à beira do colapso.
David O. Russell ainda não é tão cultuado quanto Aronofsky, mas pode vir a sê-lo a partir da sua direção de O Vencedor. Partindo de uma história baseada em fatos reais, Russell dirige esse filme de forma primorosa, fazendo dele uma obra tão interessante quanto Cisne Negro, ainda que de uma maneira diferente. O Vencedor conta a história de Micky Ward (Mark Wahlberg) e Dicky Ecklund (Christian Bale), dois irmãos que são ligados pelo boxe. Dicky foi um promissor boxeador no passado e chegou a enfrentar o campeão mundial Sugar Ray Leonard, mas jogou a sua carreira fora ao se viciar em drogas, especialmente no crack. Micky cresceu admirando o irmão e vivendo à sua sombra, uma vez que toda a família sempre privilegiou Dicky devido ao seu passado. Sendo treinado por Dicky, Micky é um boxeador em busca vitórias e conquistas no mundo do esporte, tendo que lidar com uma família desestruturada e que tenta controlar a sua vida.
Se Cisne Negro mostrou o lado sombrio do mundo do balé, ou seja, os acontecimentos aterrorizantes que se dão atrás das cortinas; O Vencedor, por sua vez, mostra o que há no mundo do boxe para além das glórias que se dão no ringue. Pode-se dizer até que o filme de David O. Russell não é um filme de boxe, mas uma obra que parte do mundo do boxe para tratar de conflitos humanos mais amplos. De qualquer modo, são duas obras que tratam do desejo de triunfar, de vencer, de superar os próprios limites e as dificuldades impostas pelo meio.
Mas O Vencedor difere de Cisne Negro em uns aspectos importantes. Se Natalie Portman faz a protagonista do filme de Aronofsky de modo a ser a grande estrela do filme, não havendo concorrentes para ela; Mark Wahlberg, apesar de não estar ruim, tem a sua atuação completamente ofuscada pelas extraordinárias atuações de Christian Bale e Melissa Leo. Bale está praticamente irreconhecível, sobretudo na primeira parte do filme, no papel de um viciado em crack que treina o irmão mais novo de uma forma muito negligente, atrasando-se constantemente nos treinos. Vale dizer que o ator realizou um primoroso trabalho de composição do personagem, sobretudo no que se refere ao gestual e ao visual extremamente magro. Melissa Leo, por sua vez, faz a autoritária e dominadora mãe de Dicky e Micky, uma mãe que empresaria a carreira do filho mais jovem de uma forma extremamente desorganizada.
Bale e Leo constroem seus personagens de modo que o espectador chega a sentir raiva deles, notadamente nos momentos em que eles mais atrapalham e desejam controlar a carreira de Micky. Mas os personagens Dicky e Alice também emocionam o espectador, espacialmente naquela que talvez seja uma das sequências mais tocantes dos últimos anos no cinema de Hollywood: a cena
Alguns paralelos entre os dois filmes podem ser traçados. O primeiro diz respeito às mães Erica (Bárbara Hershey), a mãe de Nina
Se Nina vive sufocada pela mãe no filme de Aronofsky, Micky vive sufocado por toda a sua família
Que o leitor não se engane. Micky não é um herói, tal qual Rocky Balboa o é em Rocky, Um Lutador (1976, EUA) e, apesar de o espectador torcer por ele durante as cenas de luta, não se chega às lágrimas ao fim do filme. O Vencedor expõe de forma não melosa os dramas das relações humanas que não aparecem nos ringues do mundo do boxe, o que gera um resultado muito interessante. A consagração de Micky ao fim do filme não é uma glória exclusiva dele, o personagem de Mark Wahlberg divide o seu triunfo com os outros personagens.
Esteticamente, O Vencedor e Cisne Negro são bastante diferentes. Como já foi dito, o filme de Aronofsky é marcado por um perfeccionismo estético impressionante. Por sua vez, a obra de Russell é de um realismo que beira o naturalismo: as camisetas estão sempre marcadas pelo suor; os cenários, carros, objetos e roupas são propositalmente simples, sujos, desarrumados e sem nenhum requinte; as pessoas da cidade são dolorosamente “bobas” e feias, passando ao espectador a exata imagem de uma pequena cidade abandonada onde parece existir uma deficiência mental/intelectual coletiva, em uma espécie de retrato feio da sociedade norte-americana. O Vencedor ainda é marcado por uma estética quase documental em alguns momentos, como nas cenas de luta onde as imagens foram feitas com o uso de câmeras televisivas.
Como se vê, Cisne Negro e O Vencedor são obras diferentes que apresentam alguns elementos
Por fim, temos que dizer que Aronofsky e Russell fizeram dois belos filmes, cada um a seu modo. Filmes que merecem ser assistidos com muita atenção e que são dignos das indicações e prêmios recebidos até aqui. Cisne Negro e O Vencedor: dois filmes sobre a busca humana pelo triunfo, no eterno desejo (e por que também não dizer “na eterna necessidade”?) de vencer e de se superar.
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
O tema da vida após a morte sob a direção de Clint Eastwood: notas sobre "Além da Vida"
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
Uma aula de Woody Allen sobre cinema
Woody Allen é um grande diretor, disso não há dúvidas. Seus filmes são capazes de nos provocar o riso e a reflexão. Mas o diretor de cinema também é um professor de cinema, capaz de nos dar lições interessantes sobre a sétima arte. Interessante exemplo de como Allen é um professor de cinema está no filme A Rosa Púrpura do Cairo (1984), indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original.
Logo no início da película podemos ver o cartaz de um filme que será exibido em um cinema. O cartaz é no estilo dos cartazes dos clássicos dos anos 1930. Cecília (interpretada brilhantemente por Mia Farrow) está em frente ao cinema e observa o cartaz da nova atração. Podemos ver, logo nessa cena inicial do filme, o olhar da personagem principal revelar todo o seu amor pelo mundo do cinema, podemos sentir o quanto Cecília está absorvida pela imagem do cartaz do filme, percebemos que o cinema é algo muito importante para ela. Em seguida, um funcionário do cinema fala à Cecília que ela certamente gostará do novo filme, uma vez que se trata de uma obra mais romântica que o filme anterior. É como se Woody Allen nos fizesse pensar por um momento sobre a relação das mulheres com os filmes românticos.
Mas qual a razão de tanto apego ao mundo do cinema? Por que Cecília ama tanto o cinema? Na sequência do filme, o espectador é informado sobre como é a vida de Cecília. A protagonista da obra de Allen vive em um contexto histórico complicado: a Grande Depressão americana. O desemprego afeta a muitos e as dificuldades são grandes. Cecília trabalha como garçonete em uma lanchonete, o trabalho é pesado, ela sempre se atrapalha com os pedidos dos clientes, quebra os pratos constantemente e seu patrão é exigente. A irmã de Cecília trabalha na mesma lanchonete e as duas sempre conversam sobre os filmes e os astros do cinema. Nas conversas com a irmã, Cecília fala da vida pessoal dos atores como se estivesse falando da vida de algum amigo ou vizinho. Nesse momento do filme, Allen nos ensina sobre a relação de falsa intimidade entre o astro do cinema e seus milhares de fãs. Aqui Allen também nos ensina sobre o Star System do cinema americano, ou seja, sobre o fato de os filmes se valerem da presença dos “astros do cinema” para atrair as pessoas às salas de exibição.
Voltando ao filme, temos que não apenas a vida profissional de Cecília é sofrível, mas também a sua vida pessoal. A personagem de Mia Farrow é casada com Monk (Danny Aiello), um homem que está desempregado e passa os dias nas ruas, bebendo e jogando dados e cartas com os amigos. Se Cecília é uma personagem construída de modo a permitir que o espectador se identifique com ela, Monk já é um personagem construído de modo que o espectador tenha repulsa dele. Monk é um homem violento, bate em Cecília e também a trai com outras mulheres. Assistindo a essas cenas, o espectador de A Rosa Púrpura do Cairo observa que a vida de Cecília é marcada pelas dificuldades e pelo sofrimento. Nesse sentido, temos que a protagonista é apaixonada pelo universo do cinema por ver nesse mundo de fantasia uma válvula de escape para a sua dura realidade. O mundo do cinema é o mundo dos sonhos, o lugar onde tudo pode acontecer, onde todos os obstáculos podem ser superados e onde tudo pode ser alcançado. É como se aqui Allen nos falasse do papel que o cinema muitas vezes desempenhou e ainda desempenha: o papel de auxiliar as pessoas a fugirem, pelo menos durante o tempo de exibição de um filme, de suas realidades cruéis.
Para tentar escapar de sua realidade, Cecília refugia-se cada vez mais na sala de cinema. Após ser demitida, a protagonista vai assistir a um filme chamado “A Rosa Púrpura do Cairo” (daí o nome do filme de Allen) e se apega muito à obra, indo assisti-la constantemente. E é de tanto assistir ao filme que algo fantástico acontece...
Durante uma das exibições, um dos personagens do filme, um encantador arqueólogo chamado Tom Baxter (interpretado por Jeff Daniels), decide sair da tela do cinema e ir falar com Cecília. Baxter ficou admirado com o fato de Cecília assistir ao filme repetidas vezes. Quando tal inusitada situação acontece, a sala do cinema vira um caos, os espectadores ficam espantados com o acontecimento e uma mulher chega a desmaiar. Mas a narrativa do filme que estava sendo exibido também vira um caos, os outros personagens ficam presos na tela, não podendo continuar a história sem a presença de Tom Baxter. Os espectadores na sala de exibição e os personagens na tela do cinema não sabem o que fazer, a narrativa do filme pára. O gerente do cinema chega e pede aos personagens na tela que fiquem calmos. O tom cômico dessa cena criada por Allen é bastante sutil, notadamente no momento em que os personagens na tela pedem ao gerente que ele não desligue o projetor porque tudo fica escuro para eles quando isso acontece.
Com a saída de Baxter do filme para o mundo real, o filme que estava sendo exibido é paralisado como se fosse uma peça de teatro; os outros atores em cena ficam presos na tela sem saber o que fazer e ficam discutindo, tal como se fossem atores de teatro; os espectadores na sala de exibição conversam com os personagens na tela, como se eles fossem atores de uma peça teatral. Aqui Allen nos lembra dos primeiros tempos da história do cinema, quando a nova arte possuía uma forte ligação com o teatro, quando muitos atores de teatro participavam dos primeiros filmes de ficção. O espectador do filme de Allen sabe que a situação de um personagem sair da tela não é possível, uma vez que um filme não é uma peça de teatro, na qual seria possível um dos atores descer do palco e ir até a plateia. Allen nos informa, através do absurdo (para o nosso plano real) da cena escrita por ele que o cinema não é igual ao teatro, o cinema é uma outra coisa. De fato, se lembrarmos dos primeiros anos da história do cinema, veremos que a nova arte provocou toda uma série de debates a respeito do seu valor de arte. O cinema, devido ao seu grande “efeito de realidade”, consolidou-se, ao longo dos anos, como uma experiência estética que ultrapassa o teatro, a pintura, a fotografia, a literatura e a música, muitas vezes valendo-se da mistura dessas várias artes para constituir-se como uma espécie de universo paralelo, um outro mundo que é visível a nós através dessas verdadeiras janelas que são as telas de cinema. O cinema é uma arte cujo “efeito de realidade” é elevado à máxima potência e, quando Allen faz Baxter sair da tela e fugir do cinema com Cecília, o que o diretor quer nos ensinar é sobre a relação entre realidade e ficção, relação essa que no mundo do cinema não é necessariamente de oposição, mas muitas vezes de uma complexa mistura entre o real e o ficcional.
Voltando à história narrada pelo filme de Allen, Baxter e Cecília saem pela cidade e ele está ansioso por conhecer o mundo real. Enquanto isso, os outros personagens do filme de Baxter seguem presos na tela, impossibilitados de continuarem com a sua encenação. A imprensa e as pessoas da cidade ficam curiosas com o que aconteceu no cinema e muitas entram na sala de exibição para ver e conversar com os personagens na tela. O gerente do cinema decide chamar o produtor do filme, Raoul Hirsch, para tentar solucionar a situação. Hirsch decide, por sua vez, chamar o ator Gil Shepherd, ator que interpreta Baxter no filme. Os momentos em que vemos o produtor e os outros “homens do dinheiro”, homens esses que ficam por trás das câmeras do cinema, discutindo sobre a questão do prejuízo financeiro que o caso provocará são momentos do filme
Do lado de cá da tela, Baxter tem algumas dificuldades em lidar com o mundo real, uma vez que as coisas não acontecem automaticamente como nos filmes (como na cena em que ele pensa que basta entrar em um carro para que ele funcione sozinho), mas ele acaba se envolvendo amorosamente com Cecília, revelando-se como um homem completamente diferente de Monk, já que o arqueólogo é educado, protetor e romântico. Enquanto isso, Raoul Hirsch e Gil Shepherd vão ao cinema de onde Baxter fugiu, a intenção dos dois é dar uma solução à crise e fazer com que o personagem “fujão” volte para o filme. Gil Shepherd tenta convencer Tom Baxter a voltar para a tela do cinema, mas o personagem se recusa e diz que quer conhecer o mundo real e viver nele. Não conseguindo convencer sua própria criação, Shepherd se aproxima de Cecília até que ela também se envolva com ele.
Na parte final do filme, Baxter volta ao cinema ao lado de Cecília e a faz entrar, junto com ele, dentro do filme do qual Baxter havia saído. Trata-se de uma sequência maravilhosa em que realidade e ficção se confundem ainda mais. Baxter leva Cecília pela noite, passeando com ela pelos ambientes do filme. Com Cecília dentro do filme o enredo da história muda e, aqui, Allen nos mostra que a inserção de um personagem a mais pode mudar completamente uma narrativa fílmica.
Shepherd chega então até a sala de cinema e espanta-se ao ver Baxter e Cecília na tela. O arqueólogo e a moça saem da tela para conversar com Shepherd e o ator se diz apaixonado por Cecília. A protagonista se vê na necessidade de escolher entre um dos seus dois novos amores. Ao ouvir a proposta do ator que convida-a a fugir com ele para Hollywood, Cecília opta por Shepherd e Baxter volta, completamente triste, para a tela do cinema. A escolha de Cecília mostra uma necessidade da personagem de viver emoções que sejam efetivamente reais. O personagem fictício a encanta, mas no fundo o que ela quer é que o conto de fadas do cinema torne-se realidade, o que só seria possível se ela escolhesse Shepherd.
Mas a realidade é cruel e o mundo é cheio de pessoas que não são confiáveis. Quando Cecília procura Shepherd para ir embora com ele para Hollywood, descobre que o ator já foi embora e a deixou. O caminho encontrado por Cecília para esquecer a crueldade do mundo real é o mesmo que ela se valia no início do filme: o universo do cinema. Na última cena de A Rosa Púrpura do Cairo vemos Cecília na sala de cinema assistindo a um filme estrelado por Fred Astaire. Cecília assiste ao filme com os olhos lacrimejantes e um discreto sorriso, profundamente absorvida pela magia do cinema.
A Rosa Púrpura do Cairo é um filme belíssimo. A trilha sonora é de uma leveza ímpar e, muitas vezes, combina-se maravilhosamente bem com as cenas mais inusitadas que vemos na tela. O elenco, os figurinos e o roteiro também são pontos altos da obra. Com esse filme, Woody Allen emociona o espectador, prende sua atenção, mas também o ensina. De fato, Allen reflete e faz o espectador refletir sobre o mundo do cinema, sobre sua magia, sobre sua capacidade de emocionar e de fazer sonhar. Podemos ver ao longo da película vários tópicos da História e da Teoria do Cinema: a função escapista muitas vezes assumida pelo cinema; a relação complexa entre realidade e ficção na sétima arte; a relação da mulher com os filmes românticos; o Star System; a falsa intimidade entre a estrela de cinema e seus fãs; a tradição oriunda do teatro que foi recebida e modificada pelo cinema; o caráter de indústria que a sétima arte ganhou ao longo do século XX; as múltiplas possibilidades de construção de uma narrativa fílmica; o "efeito de realidade" do cinema.
É por emocionar e ensinar o espectador que A Rosa Púrpura do Cairo configura-se como uma ótima dica de filme para quem quer se deixar levar pela magia do cinema e aprender um pouco mais sobre a sétima arte!