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sexta-feira, 20 de março de 2015

"Colheita Maldita"

Talvez você já tenha se perguntado: e se o mundo fosse governado por crianças? Eu mesmo já me fiz essa pergunta quando era pequeno e a imagem de um mundo melhor veio à minha cabeça. Contudo, uma perspectiva bem diferente acerca de tal questão me foi apresentada no início da adolescência pelo filme “A colheita maldita” (1984, direção de Fritz Kiersch).
No filme, uma pequena cidade do interior dos Estados Unidos passa a ser controlada por crianças e adolescentes. Baseado em um conto do escritor norte-americano Stephen King, “A colheita maldita” elabora uma imagem bastante negativa de uma sociedade governada por crianças. Com elas no comando, a cidade se vê entregue à violência, ao terror e aos caprichos dos mais jovens que, aliás, chegam a matar os próprios pais. A obra até explica que aqueles meninos e meninas estão sob o domínio de uma força sobrenatural maligna, mas, ainda assim, a imagem que se tem das personagens infantis e adolescentes é de pessoas mimadas. Segundo o filme, não há um mundo melhor com as crianças no poder, mas justamente o contrário: um cenário de completo horror.
Guardadas as devidas proporções, o fato é que essa obra de ficção me faz pensar na educação de nossas crianças e de nossos jovens atualmente. O que se tem visto em muitas famílias brasileiras são pais e mães completamente dominados pelos filhos. Talvez como uma compensação pelo longo período passado fora de casa, no trabalho, muitos pais têm dado a seus filhos uma educação bastante permissiva, impondo poucos limites às vontades das crianças ou até mesmo nenhum. Não por acaso, psicólogos têm usado o termo “infantocracia” exatamente para descrever a situação na qual os filhos governam os pais e mandam em casa. As crianças estão assumindo o controle em muitos lares.
Não creio que essa seja uma boa forma de plantar um futuro melhor para a nossa sociedade. De fato, alguns frutos dessa verdadeira “colheita maldita” já podem ser vistos cotidianamente: crianças e adolescentes que não sabem ouvir um “não” e que ficam extremamente tristes ou irritados quando a vida coloca uma frustração em seu caminho, muitas vezes respondendo até com violência às decepções.
Lutar contra tal processo é uma tarefa da qual os pais não devem fugir. Afinal, uma boa educação não se faz apenas com colégios caros, conforto, amor, diálogo e muito carinho, mas também com limites. As crianças não devem crescer pensando que podem fazer tudo o que querem.
(Texto originalmente publicado na Coluna do Nehac do Jornal Correio de Uberlândia no dia 25 de abril de 2014.)

O Cinema Alemão e a Ascensão de Hitler

Quando o assunto é o nazismo, muitos se perguntam: afinal de contas, como os alemães puderam apoiar Adolf Hitler? Trata-se de uma difícil questão, e muitos foram os estudiosos que tentaram respondê-la. Um deles foi Siegfried Kracauer, que em 1947 publicou o livro “De Caligari a Hitler: uma história psicológica do cinema alemão”. Escrita por um autor que teve que fugir da Alemanha nazista para Paris em 1933, indo depois para os Estados Unidos em 1941, a obra é um esforço de Kracauer em tentar entender o processo que levou Hitler ao poder.
A hipótese trabalhada no livro é instigante: havia entre os alemães um “mal-estar psicológico” já durante a década de 1910. Sob esse prisma, o autor se volta para as produções do cinema alemão das primeiras décadas do século 20 e afirma: “através de uma análise dos filmes alemães, pode-se expor as profundas tendências psicológicas predominantes na Alemanha de 1918 a 1933, tendências que influenciaram o curso dos acontecimentos no período de tempo acima mencionado”.
Kracauer analisa os aspectos estéticos e os temas recorrentes em tais produções e observa que muitos dos filmes da época contavam histórias sombrias, de homicídios, tiranos, violência, etc. Por ser o cinema uma arte coletiva voltada para o consumo das massas, o autor defende que tais aspectos do cinema alemão daquele período dialogavam perfeitamente com o “padrão psicológico vigente” na Alemanha, padrão esse que, segundo Kracauer, esteve intimamente relacionado tanto à ascensão de Hitler ao poder quanto ao holocausto.
O que dizer de tal hipótese? É certo que o livro foi publicado após a 2ª Guerra Mundial, quando os horrores do extermínio dos judeus já eram conhecidos. Neste sentido, por vezes, Kracauer parece procurar a qualquer custo paralelos entre as histórias contadas nos filmes e as histórias reais em torno do nazismo. Por outro lado, um filme como ‘ “Homunculus”, de 1916, chama a atenção ao contar a história de um sofrido homem que foi criado em um tubo de ensaio e que se torna ditador de um grande país, sendo o responsável por uma guerra mundial. Tais semelhanças com Hitler impressionam Kracauer, e também a nós, seus leitores.
Concordemos ou não com a análise feita nas páginas do livro, o fato é que o cinema alemão em suas primeiras décadas parece mesmo ter antecipado eventos atinentes ao nazismo. Como bem disse Kracauer, “importantes personagens cinematográficos se tornaram verdadeiros na vida real” da Alemanha. É mesmo para se pensar…
(Texto originalmente publicado na Coluna do NEHAC do Jornal Correio de Uberlândia de 16 de agosto de 2013.)

terça-feira, 1 de novembro de 2011

O medo é contagioso

[ATENÇÃO, LEITOR(A), O PRESENTE TEXTO POSSUI SPOILERS DO FILME “CONTÁGIO”. SE VOCÊ AINDA NÃO VIU O FILME, E NÃO QUER SABER O QUE ACONTECE ANTES DE ASSISTIR, RECOMENDAMOS QUE NÃO LEIA ESTE TEXTO AGORA. SE VOCÊ NÃO SE IMPORTA COM SPOILERS OU JÁ ASSISTIU AO FILME , DESEJO A VOCÊ UMA BOA LEITURA!]



Uma nova doença surge e se espalha rapidamente pelo planeta, matando milhares de pessoas, desafiando o conhecimento dos cientistas e espalhando o medo e o caos no mundo. Uma história como essa não possui nada de original, e muitos filmes já abordaram a temática de uma epidemia que se espalha pelos quatro cantos da Terra. Contudo, esse é o argumento de Contágio (EUA, 2011), novo filme de Steven Soderbergh que está em cartaz nos cinemas do país. Se o argumento do filme não tem nada de criativo, o que faz de Contágio uma obra que vale a pena ser vista? De fato, o mérito de Soderbergh nesta película é sua capacidade de realizar um bom filme a partir de um tema que já foi tratado diversas vezes na tela do cinema.
A película nos apresenta uma variedade de personagens: pessoas “comuns”, cientistas, militares, funcionários públicos, editores de jornal, adolescentes, adultos, homens, mulheres, asiáticos, brancos e negros. Contágio nos mostra, assim, as várias “histórias” dentro da “história” da epidemia. Vemos na tela como as pessoas adquirem a doença, como morrem, como lidam com o caos que se instala, como tentam encontrar a cura. Aqui Soderbergh se aproveita da qualidade do seu elenco, que conta com as presenças marcantes de Matt Damon, Kate Winslet, Laurence Fishburne, Marion Cotillard e Jude Law.
A partir de uma perspectiva plural, o filme faz uma interessante reflexão a respeito do código moral da sociedade. Quando o caos se instala, pessoas são forçadas a ficar em quarentena, o estoque de alimentos se esgota e o número de mortos sobe rapidamente a cada dia que passa, a maioria das pessoas deixa o código moral de lado: muitos cometem sequestro, matam, roubam, agridem etc. Mais contagioso do que a doença é o medo que se alastra, e nenhum dos personagens pode ser julgado, uma vez que a situação ali vivida é extrema, onde o “quadrado moral” se deforma facilmente.
Dentro deste contexto, é bastante ambíguo o caráter do personagem Alan Krumwiede (interpretado por Jude Law). Ao fazer o papel de um blogueiro que denuncia os interesses econômicos da indústria farmacêutica no processo de produção de uma vacina contra o vírus, Law faz o uso de todo um conjunto de gestos e expressões faciais que tornam difícil a avaliação da personalidade do seu personagem. É  Krumwiede um homem realmente comprometido com a verdade e interessado em “abrir os olhos” das pessoas, ou é ele um sujeito que também possui seus interesses econômicos e sente prazer em anunciar o fim do mundo, disseminando a insegurança? De qualquer modo, as falas de Krumwiede nos instigam a refletir sobre como os governos controlam as informações que são divulgadas, quando de situações extremas e desastrosas. No caso de uma pandemia, nem os cientistas podem ser vistos como pessoas confiáveis, estão sempre ocupados em impedir que determinadas informações vazem para a imprensa.
Um personagem interessante do filme é o Dr. Ellis Cheever (interpretado por Laurence Fishburne). Coordenando os trabalhos de combate à doença, Cheever se aproveita da sua posição, ao obter informações privilegiadas, para manter a esposa em um lugar seguro. O medo de perder a mulher é maior que o compromisso com toda a população. Todavia, ao longo de Contágio, Cheever vai se “redimir” quando, por baixo dos panos, dá uma dose da vacina para o filho do faxineiro de seu local de trabalho. Mesmo essa atitude de Cheever pode ser discutível, uma vez que fere o “protocolo de segurança”. Mas aqui Soderbergh nos instiga mais uma vez: qual a validade de tal protocolo? Como um personagem do filme diz: a questão não é apenas se haverá vacina para todos, mas quem seria vacinado primeiro. Afinal de contas, um homem como o presidente dos EUA, por exemplo, está em um “lugar secreto”, seguro, enquanto a maioria da população é obrigada a viver na insegurança do caos.
Mesmo com o medo da doença, alguns personagens conseguem ser manter “íntegros”, como a  Dra. Leonora Orantes (Marion Cotillard), uma pesquisadora que procura descobrir a origem da epidemia, e Thomas Emhoff (Matt Damon), um pai de família que, após perder a esposa e o enteado para o vírus, se vê na necessidade proteger a filha de qualquer ameaça. Thomas é imune ao vírus e pode transitar por diversos espaços, observando a pluralidade dos acontecimentos que se desenvolvem. Pode-se dizer que o personagem de Damon personifica a própria câmera de Soderbergh, uma vez que, sendo permitido a ele o acesso a vários espaços, ele observa a tudo e a todos, tal como a lente do cineasta.
Elemento interessante da película é o uso de letreiros para identificar a cidade onde determinada ação acontece, abaixo do nome de cada cidade podemos ler também o número de habitantes do lugar. Trata-se de um recurso que serve para mostrar não só o tamanho das grandes cidades, mas o tamanho do perigo da pandemia. É como se o diretor nos dissesse: “Está vendo estes milhões de pessoas? Todas elas correm perigo”. Em um mundo de cidades gigantescas, a pandemia de uma doença extremamente contagiosa faz com que todos nós sejamos doentes em potencial. O risco pode estar escondido em cada toque, em cada beijo, em cada aperto de mão, em cada tosse, em cada objeto que foi tocado por uma pessoa infectada. A câmera de Soderbergh se aproxima constantemente dos corpos dos personagens, mostrando-nos onde eles tocam, em quem eles tocam, o vírus pode estar em qualquer uma das mãos que vemos na tela. O medo provocado pela doença faz com que as pessoas se afastem, se toquem cada vez menos, o “outro” representa quase sempre uma ameaça. A filha de Thomas não pode sequer tocar o seu “namoradinho”.
Também merece destaque a montagem do filme. Contágio inicia-se no “2° Dia”, como vemos em um letreiro ao início da narrativa, e vai acompanhando o processo de evolução da pandemia ao longo do “3° Dia”, “4° Dia”, “5° Dia”... “131° Dia”. O uso de letreiros que informam quanto tempo já se passou desde a origem da pandemia faz do filme uma espécie de diário de todo o processo. O filme documenta, quase que jornalisticamente, os traços do cotidiano das pessoas e o esforço dos cientistas para solucionar o problema. Mas por que a obra não começa no “1° Dia”, mas no “2° Dia”? Trata-se de um segredo que Soderbergh só revela ao fim da película. Quando o namoradinho da filha de Thomas é vacinado, os dois finalmente podem se tocar. Ela coloca a canção “All I want is you”, do U2, para tocar no som da sala, e começa a dançar com o rapaz ao som da banda irlandesa. Se o filme terminasse aqui, seria praticamente um “final feliz”, uma vez que a tensão sentida ao longo da obra pelo espectador é substituída, nesta cena, por uma sensação de alívio. Contudo, depois deste momento dos dois jovens dançando, Soderbergh nos apresenta, finalmente, o que aconteceu no “1° Dia”...
Um morcego que comia uma banana deixa um pedaço dela cair em um local onde se cria porcos. O espectador do filme já está informado que o vírus da doença foi formado por meio de uma mistura de DNA de morcego com DNA de porco. Um dos porcos come o pedaço de banana que caiu no chão. Este mesmo porco é abatido e é enviado para uma cozinha, onde um cozinheiro o prepara. Sem lavar devidamente as mãos, o cozinheiro segura as mãos de Beth Emhoff, esposa de Thomas, para tirar uma foto, já que Beth estava ali, em Hong Kong, viajando a trabalho. Foi onde tudo começou. O alívio sentido pelo espectador durante a cena dos dois adolescentes dançando ao som do U2 é substituído pelo choque e pela tensão da revelação. “All I want is you” é substituída por uma trilha sonora tensa. A montagem do filme colocou o “1° Dia” no final para que o espectador sinta um pouco do medo e da insegurança sentida pelos personagens ao longo da obra. Alguns críticos afirmaram que esse flashback ao fim de Contágio é desnecessário, mas não vemos dessa forma. Acreditamos que Soderbergh faz o uso de tal flashback para mostrar que um simples fato pode ter consequências desastrosas.  
Contágio é sim um filme bem realizado. A qualidade do elenco, o uso de letreiros, a montagem, a trilha sonora e o enquadramento da câmera fazem com que a pouca criatividade do roteiro quase não seja sentida pelo espectador. O filme discute temas importantes: a questão moral, os interesses econômicos da indústria farmacêutica, a disputa pelo controle e pela divulgação da informação e o controle sobre o corpo. Se “faltou emoção” no filme por conta da grande quantidade de personagens, o que dificulta que o espectador se identifique com todos eles, não vemos essa “frieza” do filme como um defeito, como vem apontando parte da crítica especializada. A “frieza” do filme serve para nos manter afastados dos personagens e, desse modo, nos mantermos longe do risco de nos infectarmos com o vírus. Quando o assunto é uma pandemia, não há espaço para o toque, para a aproximação. O desejo de sobrevivência faz com que nos isolemos uns dos outros, o individualismo é elevado ao extremo, em um comportamento de difícil julgamento moral. Se a câmera de Soderbergh é “fria”, ela não o é por acaso, mas sim para cumprir uma função na narrativa. 
O espectador se encontra, desse modo, em um lugar “seguro” para assistir ao filme, sem o risco de se deixar contagiar pela doença, ainda que as qualidades do bom cinema de Soderbergh o “infectem ” com a magia da sétima arte.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

A história de uma "pérola" do rock

Há quem diga que o bom e velho rock and roll está morto. E quando vejo um grupo como o Restart ser indicado ao MTV EMA 2011, eu mesmo me pergunto se o rock já não morreu. Se há alguns anos atrás tínhamos várias boas bandas de rock surgindo, nos últimos anos, porém, garimpar um grupo de roqueiros que mereça ser ouvido tem sido tarefa difícil. É verdade que a internet nos auxilia na tarefa de encontrar novas bandas, mas, cá entre nós, boa parte das grandes bandas de rock que temos hoje já surgiu há mais de dez ou quinze anos. As últimas grandes febres musicais desse início de século XXI foram provocadas, basicamente, por artistas ligados ao pop. Este século ainda não viu o surgimento de seus próprios Beatles, Rolling Stones, The Doors, Pink Floyd, Led Zeppelin, AC/DC, U2 etc.
Mas nem sempre foi assim. O período entre o fim dos anos 1980 e o início dos anos 1990 foi marcado pelo surgimento de várias bandas de rock, e de boa qualidade. Bandas que chegaram ao estrelato, que fizeram um enorme sucesso, conquistaram a indústria, e o que é melhor: tudo isso sem abrir mão de autenticidade, identidade própria, atitude e letras bem escritas. Um bom exemplo disso pode ser visto no documentário Pearl Jam Twenty (2011, EUA), dirigido por Cameron Crowe. Como o próprio nome indica, o filme conta a história de uma das mais bem sucedidas bandas oriundas de Seattle, à época do grunge: o Pearl Jam.
O início do filme nos conta sobre o Mother Love Bone, banda que deu origem ao Pearl Jam. Vemos na tela a história da morte de Andrew Wood, vocalista do Mother Love Bone, que já é, logo de cara, uma das sequências mais emocionantes de todo o documentário (o depoimento de Chris Cornell sobre o impacto da morte de Wood é um dos mais tocantes de todo o filme). Seguindo a ordem cronológica dos fatos, Pearl Jam Twenty nos conta como os remanescentes do Mother Love Bone (Stone Gossard e Jeff Ament) se juntaram a Mike McCready, Dave Krusen e Eddie Vedder, para formar a banda.
A partir daí Cameron Crowe oferece ao espectador diversas sequências de shows do Pearl Jam ao longo das últimas duas décadas, imagens raras de arquivos e depoimentos antigos e recentes dos integrantes da banda. O documentário mostra as histórias da briga entre o Pearl Jam e a Ticketmaster, da “rixa” entre Vedder e Kurt Cobain, vocalista do Nirvana, de como a banda atravessou os anos tendo que lidar com os interesses econômicos da indústria, interesses nem sempre compatíveis com os desejos artísticos do grupo, da tragédia no festival dinamarquês de Roskilde em 2000, quando nove pessoas morreram pisoteadas em um show da banda, e das trocas de bateristas (de Krusen ao atual Matt Cameron, passando por Matt Chamberlain, Dave Abbruzzese e Jack Irons).
O mérito de Pearl Jam Twenty é sua capacidade de agradar não só aos fãs da banda, mas também a todos os que gostam de um bom e velho rock and roll. De fato, o filme nos instiga a pensar sobre a trajetória desse estilo musical ao longo dos últimos anos. O Pearl Jam em seus anos iniciais é mostrado com todo o seu vigor e atitude frente ao modelo capitalista da indústria musical, especialmente por meio de fantásticas imagens de um jovem Eddie Vedder, em início de carreira, dando shows completamente bêbado e enlouquecido, escalando as estruturas metálicas dos palcos e se jogando na plateia. Ao longo do filme vemos o quão complexa é a história da banda que, apesar das críticas ao sistema, construiu sua trajetória dentro do sistema, mesclando uma identidade musical própria a um inquestionável bom desempenho comercial.
Também vemos na tela o processo natural de envelhecimento de uma banda de rock, Vedder não faz mais as loucuras do início da carreira. Aqui o filme Pearl Jam Twenty nos mostra que esse “envelhecimento” da banda veio acompanhado de transformações no seio da indústria fonográfica, com o pop ocupando cada vez mais um espaço maior na mídia, sendo emblemáticas, nesse sentido, as imagens dos Backstreet Boys e de Britney Spears estampadas em capas de revistas. Muita coisa mudou no mundo da música desde a época do surgimento do Pearl Jam até os dias atuais. Porém, ao fim do filme, vemos imagens recentes da banda e de seus shows, imagens que nos mostram que aquela boa e velha energia do rock ainda está viva, mesmo em um contexto histórico não muito favorável. Não, o rock ainda não morreu... Oh I, oh, I’m still alive!!!
Pearl Jam Twenty é um documentário belíssimo, muito bem montado e produzido. Por meio de vários depoimentos e de belas imagens, as histórias de uma grande banda de rock são contadas de maneira intensa e inteligente. Quanto à trilha sonora, esta dispensa comentários, uma vez que é composta por algumas das melhores canções do Pearl Jam, canções que mostram o porquê de a banda ser uma das “pérolas” que restaram da época do grunge. Só é lamentável o fato de esse documentário ter tido uma limitada exibição nos cinemas brasileiros. Posto isso, resta-nos aguardar o lançamento do filme em DVD, o que será um verdadeiro presente, tanto para os fãs que não puderam assistir ao documentário nos cinemas, quanto para os que puderam. Afinal de contas, Pearl Jam Twenty é um filme que os fãs de rock precisam ter em casa!

sexta-feira, 20 de maio de 2011

"Os Agentes do Destino": uma ótima dica de cinema


Há uma semana entrou em cartaz no Brasil um filme bastante interessante, uma obra que infelizmente não tem chamado muita atenção por parte da mídia, uma vez que concorrer com filmes como Velozes & Furiosos 5, Thor, Piratas do Caribe - Navegando em Águas Misteriosas e Padre é difícil, já que esses filmes possuem um maior apelo comercial. Todavia, o fato é que a obra Os Agentes do Destino (2011, Estados Unidos) é um filme que merece ser visto, uma película que permite uma rica reflexão sobre a História.
Os Agentes do Destino é uma mistura de romance, ficção científica e religião. Dirigido por George Nolfi (em uma excelente estreia como diretor), que também assina o roteiro (baseado em um conto de Philip K. Dick, autor que já havia inspirado filmes como Blade Runner - O Caçador de Androides e Minority Report - A Nova Lei); o filme nos conta a história de David Norris (interpretado pelo carismático e sempre competente Matt Damon), um político que após perder a disputa eleitoral para o Senado, em decorrência de um escândalo, acaba por conhecer e se apaixonar por uma linda mulher chamada Elise (interpretada pela belíssima e talentosa Emily Blunt). A atração entre os dois é extremamente forte, porém, Norris acaba descobrindo que toda a sua vida segue um plano que já está definido. Pior, Norris descobre que Elise está fora desse plano, e que ele não deve ficar com ela.
O que o protagonista deve fazer? Ao longo da trama, Norris descobre que ir contra o que está planejado pelo "Presidente" (que aparentemente é Deus) pode interferir negativamente no seu futuro político e no futuro artístico de Elise, que é uma dançarina. Isso sem falar que não seguir o plano é uma atitude complicada, uma vez que os Agentes, homens que estão a serviço do "Presidente" e que possuem por missão garantir que o plano seja seguido, sempre aparecem na sua vida e interferem nas coisas, através de seus poderes fantásticos. Apesar desses obstáculos, o nosso herói vai enfrentar os desígnios do destino e lutará para ficar ao lado da mulher que ama.
Uma história dessas poderia resultar em um simples romance meloso, mas felizmente não é o que Nolfi nos proporciona. O diretor fez de Os Agentes do Destino um filme que aproveita ao máximo os talentos de seus atores e que, através de boas cenas de perseguição, da simplicidade dos seus efeitos visuais/especiais e da inteligência do seu roteiro e da sua montagem, aparece para o espectador como sendo uma ótima oportunidade de refletir sobre a História.
Em primeiro lugar, a questão de existir um plano a ser seguido em nossas vidas suscita um tema ligado à Filosofia da História, a saber, o debate sobre o sentido da História. Há ou não um sentido para o processo histórico que se desenrola ao longo dos séculos? Ao descobrir que há um plano para sua vida (se tornar presidente dos Estados Unidos), Norris descobre que há um sentido predeterminado para a sua história de vida, uma dolorosa descoberta.
Em segundo lugar, temos no filme a questão do papel do sujeito na História. Se há um sentido para a sua vida que já está definido, o que fazer diante disso? Ao longo do filme, vemos o personagem de Damon tomar as rédeas do seu destino, sair dos caminhos designados pelo plano, desafiar os Agentes e o Presidente, tudo pelo seu amor por Elise. É o sujeito que atua na História, lutando contra forças maiores que querem pensar e agir por ele.
Em terceiro lugar, temos em Os Agentes do Destino a questão da continuidade/descontinuidade na História. George Nolfi trabalha esse tema de uma forma bela e inteligente, através dos cadernos dos Agentes. Nesses cadernos há uma infinidade traços que mostram o curso da vida de Norris, o caminho que deve ser seguido por ele. Mas quando o protagonista toma uma atitude contrária ao plano, toma um caminho diferente, vemos surgirem nas folhas dos cadernos traços novos que mostram que ele se desviou. Os desenhos que mostravam o caminho contínuo ganham traços que mostram as rupturas e as descontinuidades.
Por fim, mas não menos importante, temos o acaso. E aqui está uma das grandes sacadas do filme. Apesar de existir um plano a ser seguido e Agentes poderosos que trabalham exaustivamente para que tudo aconteça de acordo com tal plano, há algo que nem os Agentes e nem o "Presidente" podem controlar: o acaso. Apesar de Elise não estar no plano de sua vida, Norris a encontra pelas ruas. Toda a estrutura de poder ligada aos Agentes revela-se frágil diante do acaso, elemento que muitas vezes se fez e se faz presente na História da humanidade.
Emocionando no romance, nos deixando tensos nas cenas de perseguição, tendo um bom toque de ficção científica e sendo um filme escrito e dirigido com inteligência, Os Agentes do Destino merece ser visto. Filme interessante e que permite que o espectador reflita, tem um final que, apesar da dose de deus ex machina, nos estimula à ação: a folha que mostra o plano da vida de Norris fica em branco, ele está pronto para seguir sua vida com autonomia, está apto para o exercício da liberdade. Não deveria ser esse o fim almejado por todos nós, a liberdade?
É por tudo isso que digo: se Os Agentes do Destino estiver em cartaz na sua cidade, vá ao cinema e assista, pois vale muito a pena!

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

A Busca pelo Triunfo nos Filmes “Cisne Negro” e “O Vencedor”

Vencer, triunfar, atingir um determinado objetivo, eis uma das mais antigas características do ser humano: sonhar e lutar para realizar os seus sonhos. O ser humano sempre busca algo, sempre deseja algo, mas os caminhos para se chegar a tal fim nem sempre são fáceis e podem, por vezes, se transformarem em um tortuoso labirinto do qual pode não haver saída. Sobre essa busca pelo triunfo e pela realização pessoal, foram recentemente lançados dois filmes que, apesar de serem muito diferentes entre si, apresentam alguns pontos em comum: Cisne Negro e O Vencedor (ambos de 2010, EUA).

O jovem e já cultuado diretor Darren Aronofsky dirige Cisne Negro, um tenso e aterroizante thriller psicológico que conta a história de Nina (interpretada de forma genial por Natalie Portman), uma delicada bailarina que apresenta um sentimento de obsessão em alcançar a perfeição em sua arte. Quando a primeira bailarina da companhia de balé da qual Nina faz parte se aposenta, a personagem de Natalie Portman é escolhida pelo diretor da companhia, Thomas Leroy (Vicent Cassel), para estrelar uma nova montagem do balé O Lago dos Cisnes, do russo Tchaicovsky, no papel da Rainha Cisne, interpretando tanto o cisne branco quanto o cisne negro.

Nina quer interpretar o papel de forma perfeita e, para a realização de tal objetivo, irá mergulhar bem fundo no universo de O Lago dos Cisnes, especialmente no universo do cisne negro, universo sombrio e cheio de malícia. A dificuldade de Nina está no fato apontado pelo diretor Thomas, a saber, o fato de ela ser perfeita para o papel do cisne branco (ela é ingênua, delicada, meiga), mas precisa adquirir a essência do cisne negro (o poder de sedução, a malícia, o lado sombrio). Nina se espelha em várias personagens: na antiga primeira bailarina da companhia, Beth (Winona Ryder); na sua colega Lilly (Mila Kunis), com a qual nutre uma complexa relação de atração física, inveja e concorrência; e na sua mãe, Erica (interpretada brilhantemente por Barbara Hershey), uma bailarina frustrada que vê no sucesso da filha uma realização que ela própria não pôde alcançar passado.

Seguindo as exigências do diretor da companhia, Nina vai descobrir o sexo, a sedução e a malícia, características básicas para a composição do cisne negro. A meiga bailarina quase infantil, sobretudo porque sempre foi tratada como uma boneca pela mãe, vai aos poucos se tornando mulher, libertando-se de suas amarras interiores que lhe impediam de ser o cisne negro. Mas Nina acaba se prendendo a outras amarras, as amarras do desejo de perfeição. Com o objetivo de ser perfeita, Nina mergulha cada vez mais fundo no universo do cisne negro, mergulho o qual pode não ter volta.

O mundo do balé tal como representado em Cisne Negro é sombrio e, por vezes, aterroriza o espectador. A obra de Aronofsky mostra o mundo do balé com toda a sua beleza (a música, os cenários, a coreografia, o figurino e a maquiagem), mas também, e principalmente, com tudo o que acontece nos bastidores e que não se vê no palco (os ferimentos, o sangue, os ossos que estalam, as sapatilhas apertadas, os pés deformados, a concorrência entre as bailarinas, o diretor mulherengo que se aproveita das bailarinas, as pressões exteriores e interiores). Dentro desse contexto, Nina perde a sua sanidade mental e vai para um universo que se situa entre a realidade e a fantasia, entrando em uma sinistra dança com a loucura e com a esquizofrenia. Nina buscará se libertar dos seus medos e da sua insegurança, rumo à arte perfeita e à tragédia: a plena realização da perfeição artística virá junto com a autodestuição.

A obsessão pela perfeição artística de Nina espelha-se na perfeição estética do próprio filme dirigido por Aronofsky. Cisne Negro possui um elenco que não decepciona em momento algum, a fotografia do filme é escura e sombria (grande parte do filme se passa à noite), a direção de arte é impecável, os efeitos visuais são impressionantes, a edição é extremamente bem feita e o filme tem a duração exata, nem muito longo nem muito curto. Se Nina é arrebatada e absorvida pelo seu desejo de perfeição, o espectador de Cisne Negro é arrebatado e absorvido pelo universo paranoico da bailarina interpretada por Natalie Portman, sendo constantemente levado ao terror e à tensão de um mundo onde os espelhos refletem não apenas a realidade física, mas também o estado de espírito de uma mente à beira do colapso.

David O. Russell ainda não é tão cultuado quanto Aronofsky, mas pode vir a sê-lo a partir da sua direção de O Vencedor. Partindo de uma história baseada em fatos reais, Russell dirige esse filme de forma primorosa, fazendo dele uma obra tão interessante quanto Cisne Negro, ainda que de uma maneira diferente. O Vencedor conta a história de Micky Ward (Mark Wahlberg) e Dicky Ecklund (Christian Bale), dois irmãos que são ligados pelo boxe. Dicky foi um promissor boxeador no passado e chegou a enfrentar o campeão mundial Sugar Ray Leonard, mas jogou a sua carreira fora ao se viciar em drogas, especialmente no crack. Micky cresceu admirando o irmão e vivendo à sua sombra, uma vez que toda a família sempre privilegiou Dicky devido ao seu passado. Sendo treinado por Dicky, Micky é um boxeador em busca vitórias e conquistas no mundo do esporte, tendo que lidar com uma família desestruturada e que tenta controlar a sua vida.

Se Cisne Negro mostrou o lado sombrio do mundo do balé, ou seja, os acontecimentos aterrorizantes que se dão atrás das cortinas; O Vencedor, por sua vez, mostra o que há no mundo do boxe para além das glórias que se dão no ringue. Pode-se dizer até que o filme de David O. Russell não é um filme de boxe, mas uma obra que parte do mundo do boxe para tratar de conflitos humanos mais amplos. De qualquer modo, são duas obras que tratam do desejo de triunfar, de vencer, de superar os próprios limites e as dificuldades impostas pelo meio.

Mas O Vencedor difere de Cisne Negro em uns aspectos importantes. Se Natalie Portman faz a protagonista do filme de Aronofsky de modo a ser a grande estrela do filme, não havendo concorrentes para ela; Mark Wahlberg, apesar de não estar ruim, tem a sua atuação completamente ofuscada pelas extraordinárias atuações de Christian Bale e Melissa Leo. Bale está praticamente irreconhecível, sobretudo na primeira parte do filme, no papel de um viciado em crack que treina o irmão mais novo de uma forma muito negligente, atrasando-se constantemente nos treinos. Vale dizer que o ator realizou um primoroso trabalho de composição do personagem, sobretudo no que se refere ao gestual e ao visual extremamente magro. Melissa Leo, por sua vez, faz a autoritária e dominadora mãe de Dicky e Micky, uma mãe que empresaria a carreira do filho mais jovem de uma forma extremamente desorganizada.

Bale e Leo constroem seus personagens de modo que o espectador chega a sentir raiva deles, notadamente nos momentos em que eles mais atrapalham e desejam controlar a carreira de Micky. Mas os personagens Dicky e Alice também emocionam o espectador, espacialmente naquela que talvez seja uma das sequências mais tocantes dos últimos anos no cinema de Hollywood: a cena em que Dicky começa a cantarolar “I Started a Joke”, dos Bee Gees, para a mãe e ela começa a cantar também. A música representa perfeitamente o que Dicky virou para a cidade: uma piada.

Alguns paralelos entre os dois filmes podem ser traçados. O primeiro diz respeito às mães Erica (Bárbara Hershey), a mãe de Nina em Cisne Negro, e Alice (Melissa Leo), a mãe de Dicky e Micky em O Vencedor. Erica é uma mãe que trata a filha como uma frágil boneca, projetando na filha os sonhos que não pôde realizar quando jovem. Alice é uma mãe que protege seus filhos da mesma forma que Erica, ou seja, de uma maneira extremamente exagerada, projetando em Micky o pugilista que Dicky não conseguiu ser. Mas se Erica e Nina vivem sozinhas e tem seus conflitos de mãe e filha (sempre considerando que Erica exista de fato, porque em alguns momentos de Cisne Negro parece que a mãe da bailarina é apenas uma projeção da mente obsessiva de Nina); Alice tem uma relação mais complexa com os filhos, uma vez que se casou duas vezes e não é mãe apenas de Dicky e Micky, mas de várias filhas mulheres, interpretadas por um elenco feminino que não desafina e atua brilhantemente bem em conjunto. De fato, a família de Dicky e Micky é bastante desestruturada, com brigas, confusões, bebidas alcoólicas e todos se intrometendo na vida e na carreira de Micky.

Se Nina vive sufocada pela mãe no filme de Aronofsky, Micky vive sufocado por toda a sua família em O Vencedor, ambos lutarão para se libertarem dos grilhões da instituição familiar. Nina procura sua liberdade metamorfoseando-se cada vez mais no cisne negro, mudando suas atitudes para alcançar a arte perfeita, ou seja, absorver ao máximo a essência do cisne negro. Micky procura se libertar da influência da mãe e dos irmãos, contando com a ajuda da namorada Charlene (Amy Adams) e do pai, George (Jack McGee), que é o integrante mais responsável da família. Assim como Nina, o pugilista conseguirá alcançar o seu objetivo ao se tornar campeão mundial.

Que o leitor não se engane. Micky não é um herói, tal qual Rocky Balboa o é em Rocky, Um Lutador (1976, EUA) e, apesar de o espectador torcer por ele durante as cenas de luta, não se chega às lágrimas ao fim do filme. O Vencedor expõe de forma não melosa os dramas das relações humanas que não aparecem nos ringues do mundo do boxe, o que gera um resultado muito interessante. A consagração de Micky ao fim do filme não é uma glória exclusiva dele, o personagem de Mark Wahlberg divide o seu triunfo com os outros personagens.

Esteticamente, O Vencedor e Cisne Negro são bastante diferentes. Como já foi dito, o filme de Aronofsky é marcado por um perfeccionismo estético impressionante. Por sua vez, a obra de Russell é de um realismo que beira o naturalismo: as camisetas estão sempre marcadas pelo suor; os cenários, carros, objetos e roupas são propositalmente simples, sujos, desarrumados e sem nenhum requinte; as pessoas da cidade são dolorosamente “bobas” e feias, passando ao espectador a exata imagem de uma pequena cidade abandonada onde parece existir uma deficiência mental/intelectual coletiva, em uma espécie de retrato feio da sociedade norte-americana. O Vencedor ainda é marcado por uma estética quase documental em alguns momentos, como nas cenas de luta onde as imagens foram feitas com o uso de câmeras televisivas.

Como se vê, Cisne Negro e O Vencedor são obras diferentes que apresentam alguns elementos em comum. Em ambos vemos a busca pelo triunfo; Cisne Negro explora os bastidores do mundo do balé, ao passo que O Vencedor faz o mesmo exercício com o mundo do boxe; o balé, a arte, é quase que central no filme de Aronofsky; o boxe, por sua vez, não tem o mesmo papel na obra de Russell, uma vez que há outros temas que também tem grande importância dentro do filme, tais como a família e as drogas; a grande beleza estética de Cisne Negro está relacionada com a importância da beleza no balé e na arte de forma geral, o fato de O Vencedor não possuir imagens tão “belas” talvez esteja relacionado ao fato de que a beleza não tenha tanta importância no mundo do boxe, onde a força, a velocidade e a técnica de luta dominam. Todavia, nos dois filmes a arte surge como um elemento que engendra a ação: no Cisne Negro o balé guia a vida de Nina, em O Vencedor vemos os efeitos que um documentário realizado pela HBO produz nas vidas dos personagens.

Por fim, temos que dizer que Aronofsky e Russell fizeram dois belos filmes, cada um a seu modo. Filmes que merecem ser assistidos com muita atenção e que são dignos das indicações e prêmios recebidos até aqui. Cisne Negro e O Vencedor: dois filmes sobre a busca humana pelo triunfo, no eterno desejo (e por que também não dizer “na eterna necessidade”?) de vencer e de se superar.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O tema da vida após a morte sob a direção de Clint Eastwood: notas sobre "Além da Vida"

O tema da vida após a morte sempre instigou as pessoas e já estimulou uma série de filmes, livros, novelas e etc. Talvez esta seja uma questão que todos nós já fizemos ou vamos nos fazer um dia: o que acontece depois que morremos? Questão complexa e que sempre nos intriga, afinal de contas, o homem é o único animal que sabe que vai morrer um dia.
A respeito desse tema, já está em cartaz no Brasil mais um belo filme de Clint Eastwood: Além da Vida (2010, EUA). Trata-se de um excelente drama dirigido com maestria por Eastwood e estrelado por Matt Damon. O filme nos apresenta três histórias que, ao decorrer da película, vão acabar se cruzando: George (Matt Damon) é um vidente que consegue se comunicar com os mortos e tenta levar uma vida normal, uma vez que considera que seu dom é, na verdade, uma verdadeira maldição que sempre o atrapalha no seu cotidiano; Marie (interpretada elegantemente por Cécile De France) é uma jornalista francesa que passou por uma experiência de quase morte na Tailândia durante um tsunami; Marcus (interpretado pelos gêmeos Frankie McLaren e George McLaren) é um garoto de Londres que acabou de perder o seu irmão gêmeo e procura por respostas a respeito da morte e da vida após a morte.
Clint Eastwood não faz um drama de arrancar lágrimas, mas segue por um caminho muito mais interessante do que o do melodrama simplista. Além da Vida é um filme bastante sensível e que trabalha o tema da vida após a morte de forma madura. Eastwood parte do roteiro de Peter Morgan e dirige uma obra que não especula exageradamente sobre o aspecto do mundo do além. Não vemos "céu", "inferno" ou "purgatório", como certamente já vimos em outras obras e ainda veremos em tantas outras, mas apenas rápidos flashes do além, nos quais vemos vultos e rostos não muito bem definidos. Além da Vida também não traz cenas de pessoas entrando em transe ou sendo espalhafatosamente incorporadas por espíritos. Pode-se dizer que o filme trata do tema de forma bastante respeitosa e é mais focado nos modos como a morte interfere nas relações humanas.
Um dos destaques do filme vai, sem sombra de dúvidas, para o elenco. Matt Damon interpreta um homem solitário e condenado a viver com um dom, ou uma maldição, que ele não pediu para ter. Cécile De France interpreta uma jornalista que, afetada por sua experiência, passa a ter dificuldades para continuar no concorrido universo da televisão e no seu relacionamento amoroso. Os atores gêmeos Frankie e George McLaren interpretam os gêmeos Marcus e Jason de forma bastante comovente e são a grande surpresa do elenco. Outro destaque vai para a trilha sonora que, por ser bastante leve e discreta, contribui para que o filme seja um drama inteligente e maduro e não um melodrama feito para levar o espectador às lágrimas fáceis. As sequências da tsunami e do atropelamento de Jason também merecem destaque, seja pelos efeitos visuais/especiais da primeira, seja pela capacidade da segunda de comover fortemente o espectador.
Além da Vida é um grande filme que mostra como Clint Eastwood é um mestre em contar histórias. É um filme que aborda um tema bastante complexo e delicado, mostrando o quanto a vida humana é frágil e cheia de mistérios. Drama maduro dirigido por um grande diretor que não trilha pelos caminhos mais simplistas, mas que prefere tratar de forma inteligente os modos como as pessoas lidam com a morte e com as suas próprias crenças.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Uma aula de Woody Allen sobre cinema

Woody Allen é um grande diretor, disso não há dúvidas. Seus filmes são capazes de nos provocar o riso e a reflexão. Mas o diretor de cinema também é um professor de cinema, capaz de nos dar lições interessantes sobre a sétima arte. Interessante exemplo de como Allen é um professor de cinema está no filme A Rosa Púrpura do Cairo (1984), indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original.

Logo no início da película podemos ver o cartaz de um filme que será exibido em um cinema. O cartaz é no estilo dos cartazes dos clássicos dos anos 1930. Cecília (interpretada brilhantemente por Mia Farrow) está em frente ao cinema e observa o cartaz da nova atração. Podemos ver, logo nessa cena inicial do filme, o olhar da personagem principal revelar todo o seu amor pelo mundo do cinema, podemos sentir o quanto Cecília está absorvida pela imagem do cartaz do filme, percebemos que o cinema é algo muito importante para ela. Em seguida, um funcionário do cinema fala à Cecília que ela certamente gostará do novo filme, uma vez que se trata de uma obra mais romântica que o filme anterior. É como se Woody Allen nos fizesse pensar por um momento sobre a relação das mulheres com os filmes românticos.

Mas qual a razão de tanto apego ao mundo do cinema? Por que Cecília ama tanto o cinema? Na sequência do filme, o espectador é informado sobre como é a vida de Cecília. A protagonista da obra de Allen vive em um contexto histórico complicado: a Grande Depressão americana. O desemprego afeta a muitos e as dificuldades são grandes. Cecília trabalha como garçonete em uma lanchonete, o trabalho é pesado, ela sempre se atrapalha com os pedidos dos clientes, quebra os pratos constantemente e seu patrão é exigente. A irmã de Cecília trabalha na mesma lanchonete e as duas sempre conversam sobre os filmes e os astros do cinema. Nas conversas com a irmã, Cecília fala da vida pessoal dos atores como se estivesse falando da vida de algum amigo ou vizinho. Nesse momento do filme, Allen nos ensina sobre a relação de falsa intimidade entre o astro do cinema e seus milhares de fãs. Aqui Allen também nos ensina sobre o Star System do cinema americano, ou seja, sobre o fato de os filmes se valerem da presença dos “astros do cinema” para atrair as pessoas às salas de exibição.

Voltando ao filme, temos que não apenas a vida profissional de Cecília é sofrível, mas também a sua vida pessoal. A personagem de Mia Farrow é casada com Monk (Danny Aiello), um homem que está desempregado e passa os dias nas ruas, bebendo e jogando dados e cartas com os amigos. Se Cecília é uma personagem construída de modo a permitir que o espectador se identifique com ela, Monk já é um personagem construído de modo que o espectador tenha repulsa dele. Monk é um homem violento, bate em Cecília e também a trai com outras mulheres. Assistindo a essas cenas, o espectador de A Rosa Púrpura do Cairo observa que a vida de Cecília é marcada pelas dificuldades e pelo sofrimento. Nesse sentido, temos que a protagonista é apaixonada pelo universo do cinema por ver nesse mundo de fantasia uma válvula de escape para a sua dura realidade. O mundo do cinema é o mundo dos sonhos, o lugar onde tudo pode acontecer, onde todos os obstáculos podem ser superados e onde tudo pode ser alcançado. É como se aqui Allen nos falasse do papel que o cinema muitas vezes desempenhou e ainda desempenha: o papel de auxiliar as pessoas a fugirem, pelo menos durante o tempo de exibição de um filme, de suas realidades cruéis.

Para tentar escapar de sua realidade, Cecília refugia-se cada vez mais na sala de cinema. Após ser demitida, a protagonista vai assistir a um filme chamado “A Rosa Púrpura do Cairo” (daí o nome do filme de Allen) e se apega muito à obra, indo assisti-la constantemente. E é de tanto assistir ao filme que algo fantástico acontece...

Durante uma das exibições, um dos personagens do filme, um encantador arqueólogo chamado Tom Baxter (interpretado por Jeff Daniels), decide sair da tela do cinema e ir falar com Cecília. Baxter ficou admirado com o fato de Cecília assistir ao filme repetidas vezes. Quando tal inusitada situação acontece, a sala do cinema vira um caos, os espectadores ficam espantados com o acontecimento e uma mulher chega a desmaiar. Mas a narrativa do filme que estava sendo exibido também vira um caos, os outros personagens ficam presos na tela, não podendo continuar a história sem a presença de Tom Baxter. Os espectadores na sala de exibição e os personagens na tela do cinema não sabem o que fazer, a narrativa do filme pára. O gerente do cinema chega e pede aos personagens na tela que fiquem calmos. O tom cômico dessa cena criada por Allen é bastante sutil, notadamente no momento em que os personagens na tela pedem ao gerente que ele não desligue o projetor porque tudo fica escuro para eles quando isso acontece.

Com a saída de Baxter do filme para o mundo real, o filme que estava sendo exibido é paralisado como se fosse uma peça de teatro; os outros atores em cena ficam presos na tela sem saber o que fazer e ficam discutindo, tal como se fossem atores de teatro; os espectadores na sala de exibição conversam com os personagens na tela, como se eles fossem atores de uma peça teatral. Aqui Allen nos lembra dos primeiros tempos da história do cinema, quando a nova arte possuía uma forte ligação com o teatro, quando muitos atores de teatro participavam dos primeiros filmes de ficção. O espectador do filme de Allen sabe que a situação de um personagem sair da tela não é possível, uma vez que um filme não é uma peça de teatro, na qual seria possível um dos atores descer do palco e ir até a plateia. Allen nos informa, através do absurdo (para o nosso plano real) da cena escrita por ele que o cinema não é igual ao teatro, o cinema é uma outra coisa. De fato, se lembrarmos dos primeiros anos da história do cinema, veremos que a nova arte provocou toda uma série de debates a respeito do seu valor de arte. O cinema, devido ao seu grande “efeito de realidade”, consolidou-se, ao longo dos anos, como uma experiência estética que ultrapassa o teatro, a pintura, a fotografia, a literatura e a música, muitas vezes valendo-se da mistura dessas várias artes para constituir-se como uma espécie de universo paralelo, um outro mundo que é visível a nós através dessas verdadeiras janelas que são as telas de cinema. O cinema é uma arte cujo “efeito de realidade” é elevado à máxima potência e, quando Allen faz Baxter sair da tela e fugir do cinema com Cecília, o que o diretor quer nos ensinar é sobre a relação entre realidade e ficção, relação essa que no mundo do cinema não é necessariamente de oposição, mas muitas vezes de uma complexa mistura entre o real e o ficcional.

Voltando à história narrada pelo filme de Allen, Baxter e Cecília saem pela cidade e ele está ansioso por conhecer o mundo real. Enquanto isso, os outros personagens do filme de Baxter seguem presos na tela, impossibilitados de continuarem com a sua encenação. A imprensa e as pessoas da cidade ficam curiosas com o que aconteceu no cinema e muitas entram na sala de exibição para ver e conversar com os personagens na tela. O gerente do cinema decide chamar o produtor do filme, Raoul Hirsch, para tentar solucionar a situação. Hirsch decide, por sua vez, chamar o ator Gil Shepherd, ator que interpreta Baxter no filme. Os momentos em que vemos o produtor e os outros “homens do dinheiro”, homens esses que ficam por trás das câmeras do cinema, discutindo sobre a questão do prejuízo financeiro que o caso provocará são momentos do filme em que Allen nos ensina sobre os bastidores do cinema, sobre a condição de indústria que a sétima arte ganhou ao longo de sua história, sobre a inserção do cinema no sistema capitalista, sobre os interesses financeiros por trás de um produto cultural que faz milhões de pessoas ao redor do mundo se emocionarem e sonharem.

Do lado de cá da tela, Baxter tem algumas dificuldades em lidar com o mundo real, uma vez que as coisas não acontecem automaticamente como nos filmes (como na cena em que ele pensa que basta entrar em um carro para que ele funcione sozinho), mas ele acaba se envolvendo amorosamente com Cecília, revelando-se como um homem completamente diferente de Monk, já que o arqueólogo é educado, protetor e romântico. Enquanto isso, Raoul Hirsch e Gil Shepherd vão ao cinema de onde Baxter fugiu, a intenção dos dois é dar uma solução à crise e fazer com que o personagem “fujão” volte para o filme. Gil Shepherd tenta convencer Tom Baxter a voltar para a tela do cinema, mas o personagem se recusa e diz que quer conhecer o mundo real e viver nele. Não conseguindo convencer sua própria criação, Shepherd se aproxima de Cecília até que ela também se envolva com ele.

Na parte final do filme, Baxter volta ao cinema ao lado de Cecília e a faz entrar, junto com ele, dentro do filme do qual Baxter havia saído. Trata-se de uma sequência maravilhosa em que realidade e ficção se confundem ainda mais. Baxter leva Cecília pela noite, passeando com ela pelos ambientes do filme. Com Cecília dentro do filme o enredo da história muda e, aqui, Allen nos mostra que a inserção de um personagem a mais pode mudar completamente uma narrativa fílmica.

Shepherd chega então até a sala de cinema e espanta-se ao ver Baxter e Cecília na tela. O arqueólogo e a moça saem da tela para conversar com Shepherd e o ator se diz apaixonado por Cecília. A protagonista se vê na necessidade de escolher entre um dos seus dois novos amores. Ao ouvir a proposta do ator que convida-a a fugir com ele para Hollywood, Cecília opta por Shepherd e Baxter volta, completamente triste, para a tela do cinema. A escolha de Cecília mostra uma necessidade da personagem de viver emoções que sejam efetivamente reais. O personagem fictício a encanta, mas no fundo o que ela quer é que o conto de fadas do cinema torne-se realidade, o que só seria possível se ela escolhesse Shepherd.

Mas a realidade é cruel e o mundo é cheio de pessoas que não são confiáveis. Quando Cecília procura Shepherd para ir embora com ele para Hollywood, descobre que o ator já foi embora e a deixou. O caminho encontrado por Cecília para esquecer a crueldade do mundo real é o mesmo que ela se valia no início do filme: o universo do cinema. Na última cena de A Rosa Púrpura do Cairo vemos Cecília na sala de cinema assistindo a um filme estrelado por Fred Astaire. Cecília assiste ao filme com os olhos lacrimejantes e um discreto sorriso, profundamente absorvida pela magia do cinema.

A Rosa Púrpura do Cairo é um filme belíssimo. A trilha sonora é de uma leveza ímpar e, muitas vezes, combina-se maravilhosamente bem com as cenas mais inusitadas que vemos na tela. O elenco, os figurinos e o roteiro também são pontos altos da obra. Com esse filme, Woody Allen emociona o espectador, prende sua atenção, mas também o ensina. De fato, Allen reflete e faz o espectador refletir sobre o mundo do cinema, sobre sua magia, sobre sua capacidade de emocionar e de fazer sonhar. Podemos ver ao longo da película vários tópicos da História e da Teoria do Cinema: a função escapista muitas vezes assumida pelo cinema; a relação complexa entre realidade e ficção na sétima arte; a relação da mulher com os filmes românticos; o Star System; a falsa intimidade entre a estrela de cinema e seus fãs; a tradição oriunda do teatro que foi recebida e modificada pelo cinema; o caráter de indústria que a sétima arte ganhou ao longo do século XX; as múltiplas possibilidades de construção de uma narrativa fílmica; o "efeito de realidade" do cinema.

É por emocionar e ensinar o espectador que A Rosa Púrpura do Cairo configura-se como uma ótima dica de filme para quem quer se deixar levar pela magia do cinema e aprender um pouco mais sobre a sétima arte!