sexta-feira, 20 de maio de 2011

"Os Agentes do Destino": uma ótima dica de cinema


Há uma semana entrou em cartaz no Brasil um filme bastante interessante, uma obra que infelizmente não tem chamado muita atenção por parte da mídia, uma vez que concorrer com filmes como Velozes & Furiosos 5, Thor, Piratas do Caribe - Navegando em Águas Misteriosas e Padre é difícil, já que esses filmes possuem um maior apelo comercial. Todavia, o fato é que a obra Os Agentes do Destino (2011, Estados Unidos) é um filme que merece ser visto, uma película que permite uma rica reflexão sobre a História.
Os Agentes do Destino é uma mistura de romance, ficção científica e religião. Dirigido por George Nolfi (em uma excelente estreia como diretor), que também assina o roteiro (baseado em um conto de Philip K. Dick, autor que já havia inspirado filmes como Blade Runner - O Caçador de Androides e Minority Report - A Nova Lei); o filme nos conta a história de David Norris (interpretado pelo carismático e sempre competente Matt Damon), um político que após perder a disputa eleitoral para o Senado, em decorrência de um escândalo, acaba por conhecer e se apaixonar por uma linda mulher chamada Elise (interpretada pela belíssima e talentosa Emily Blunt). A atração entre os dois é extremamente forte, porém, Norris acaba descobrindo que toda a sua vida segue um plano que já está definido. Pior, Norris descobre que Elise está fora desse plano, e que ele não deve ficar com ela.
O que o protagonista deve fazer? Ao longo da trama, Norris descobre que ir contra o que está planejado pelo "Presidente" (que aparentemente é Deus) pode interferir negativamente no seu futuro político e no futuro artístico de Elise, que é uma dançarina. Isso sem falar que não seguir o plano é uma atitude complicada, uma vez que os Agentes, homens que estão a serviço do "Presidente" e que possuem por missão garantir que o plano seja seguido, sempre aparecem na sua vida e interferem nas coisas, através de seus poderes fantásticos. Apesar desses obstáculos, o nosso herói vai enfrentar os desígnios do destino e lutará para ficar ao lado da mulher que ama.
Uma história dessas poderia resultar em um simples romance meloso, mas felizmente não é o que Nolfi nos proporciona. O diretor fez de Os Agentes do Destino um filme que aproveita ao máximo os talentos de seus atores e que, através de boas cenas de perseguição, da simplicidade dos seus efeitos visuais/especiais e da inteligência do seu roteiro e da sua montagem, aparece para o espectador como sendo uma ótima oportunidade de refletir sobre a História.
Em primeiro lugar, a questão de existir um plano a ser seguido em nossas vidas suscita um tema ligado à Filosofia da História, a saber, o debate sobre o sentido da História. Há ou não um sentido para o processo histórico que se desenrola ao longo dos séculos? Ao descobrir que há um plano para sua vida (se tornar presidente dos Estados Unidos), Norris descobre que há um sentido predeterminado para a sua história de vida, uma dolorosa descoberta.
Em segundo lugar, temos no filme a questão do papel do sujeito na História. Se há um sentido para a sua vida que já está definido, o que fazer diante disso? Ao longo do filme, vemos o personagem de Damon tomar as rédeas do seu destino, sair dos caminhos designados pelo plano, desafiar os Agentes e o Presidente, tudo pelo seu amor por Elise. É o sujeito que atua na História, lutando contra forças maiores que querem pensar e agir por ele.
Em terceiro lugar, temos em Os Agentes do Destino a questão da continuidade/descontinuidade na História. George Nolfi trabalha esse tema de uma forma bela e inteligente, através dos cadernos dos Agentes. Nesses cadernos há uma infinidade traços que mostram o curso da vida de Norris, o caminho que deve ser seguido por ele. Mas quando o protagonista toma uma atitude contrária ao plano, toma um caminho diferente, vemos surgirem nas folhas dos cadernos traços novos que mostram que ele se desviou. Os desenhos que mostravam o caminho contínuo ganham traços que mostram as rupturas e as descontinuidades.
Por fim, mas não menos importante, temos o acaso. E aqui está uma das grandes sacadas do filme. Apesar de existir um plano a ser seguido e Agentes poderosos que trabalham exaustivamente para que tudo aconteça de acordo com tal plano, há algo que nem os Agentes e nem o "Presidente" podem controlar: o acaso. Apesar de Elise não estar no plano de sua vida, Norris a encontra pelas ruas. Toda a estrutura de poder ligada aos Agentes revela-se frágil diante do acaso, elemento que muitas vezes se fez e se faz presente na História da humanidade.
Emocionando no romance, nos deixando tensos nas cenas de perseguição, tendo um bom toque de ficção científica e sendo um filme escrito e dirigido com inteligência, Os Agentes do Destino merece ser visto. Filme interessante e que permite que o espectador reflita, tem um final que, apesar da dose de deus ex machina, nos estimula à ação: a folha que mostra o plano da vida de Norris fica em branco, ele está pronto para seguir sua vida com autonomia, está apto para o exercício da liberdade. Não deveria ser esse o fim almejado por todos nós, a liberdade?
É por tudo isso que digo: se Os Agentes do Destino estiver em cartaz na sua cidade, vá ao cinema e assista, pois vale muito a pena!

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Hipocrisia e Preconceito

Nas últimas semanas o debate sobre o preconceito no Brasil se intensificou consideravelmente. Das declarações polêmicas do deputado Jair Bolsonaro até o recente reconhecimento da união estável de casais homossexuais por parte do STF, muito se tem falado sobre discriminação racial e de orientação sexual. Como observador da realidade social acho extremamente válido que a sociedade esteja discutindo temas tão importantes como esses. Todavia, e há sempre um todavia, há algo errado em toda essa discussão, há uma hipocrisia que impera nos discursos supostamente defensores da diversidade e do respeito às diferenças.
Saia pelas ruas perguntando às pessoas se elas são racistas. Você possivelmente ouvirá uma sequência de sonoras respostas negativas, “Racista, eu? De jeito nenhum!”, dirá a maioria. Pergunte a essas mesmas pessoas se elas conhecem alguém que é racista. “Sim, conheço sim!”, muitos possivelmente responderão. Ninguém se confessa racista, mas todos conhecem alguém que é racista. Não é preciso ser nenhum gênio para perceber que há algo errado aí: afinal de contas, onde estão os racistas?
No caso do reconhecimento, por parte do STF, da união estável de casais homossexuais, temos visto recentemente muitas manifestações de apoio, muitas afirmações de que “esse foi um passo importante na luta contra o preconceito”. Não quero diminuir aqui a importância dessa conquista do movimento gay, que já afirmou que também continuará lutando pela criminalização da homofobia, mas duvido que tal medida do STF vá acabar com o preconceito. O racismo, por exemplo, foi criminalizado no Brasil, mas apesar da existência de tal lei, o preconceito racial ainda existe no nosso país. Se alguém ainda duvida disso, peço que converse com algum(a) negro(a) para confirmar o que estou dizendo.
O problema parece estar no fato de que a sociedade brasileira quer resolver tudo por meio de leis, através do aparato jurídico, quando o correto seria investir em um sistema de educação que preparasse as pessoas para o convívio com o que lhes é diferente. As ciências humanas poderiam inclusive auxiliar muito essa educação para a diversidade. Dessa forma, o preconceito poderia ser combatido de forma mais consistente, deixando de simplesmente ser varrido para debaixo do tapete da hipocrisia.
Digo isso porque nossa sociedade tem sido bastante hipócrita em todos esses debates. Muitos dos que dizem concordar com o reconhecimento da união estável de casais homossexuais não aceitariam se um de seus filhos fosse gay. Muitos dos que dizem que não são racistas não aceitam pessoas de outras etnias em determinados espaços e ocasiões, preferem virar o rosto, evitar a aproximação. Neste sentido, é possível acusar o deputado Bolsonaro e todos os “religiosos” que se opuseram à medida do STF de serem preconceituosos, mas temos que reconhecer que hipócritas eles não são.
Não se trata de defender as pessoas preconceituosas, mas apenas de salientar o fato de que, muitas vezes, as mesmas pessoas que defendem o respeito à diversidade não conseguem conviver com opiniões diferentes das suas: o gay que levanta a bandeira da liberdade de orientação sexual, opõe-se fortemente à liberdade de opinião alheia, quer criminalizar o posicionamento do outro. Não há aí dois pesos e duas medidas? Os gays possuem sim o direito de serem gays, não devem ser barrados de lugares, não devem ser impedidos de exercerem determinados cargos nas empresas onde trabalham, devem ter o casamento gay permitido pela legislação, devem ter a liberdade de se beijarem em público sem serem constrangidos por isso.
Mas as pessoas que são contra o homossexualismo também devem ter o direito de se manifestarem. O que deve ser combatida é a violência física e psicológica muitas vezes praticada contra os gays, mas não o direito de dizer “Acho estranho o homossexualismo”. Não sejamos hipócritas, tudo o que nos é diferente gera estranhamento, eu mesmo acho esquisitas determinadas “cenas” que vejo pelas ruas, mas não saio por aí espancando homossexuais, tenho inclusive colegas de faculdade que são gays e procuro sempre respeitá-los, convivo com eles e até brinco com eles. O que não posso tolerar é o discurso politicamente correto do respeito às diferenças que, apesar de tentar defender a diversidade, acaba por provocar o efeito inverso que é exatamente a tentativa de homogeneizar a opinião pública, discriminando posturas diferentes.
Os gays têm o direito de serem gays, podendo exercer os direitos e deveres de qualquer cidadão brasileiro, mas isso não deve acabar com o direito à liberdade de opinião dos que são são contra o homossexualismo. O que se pede aqui é que as discussões sobre a diversidade cultural, étnica, de orientação sexual etc. sejam feitas através do diálogo aberto, sem violência, onde possamos aprender a melhor conviver com o que nos é diferente, sem que tenhamos que abdicar integralmente das nossas posturas individuais em nome de um pretenso país coeso, harmonioso e sem conflitos. Dessa forma, a hipocrisia poderia deixar de ser praticada, como diria aquela música do Skank: "Se você não gosta dele / Diga logo a verdade / Sem perder a cabeça / Sem perder a amizade..."

domingo, 17 de abril de 2011

Eu Queria Ser Bono Vox



Acordei hoje em uma bela e azul manhã de Domingo, ainda com uma coisa que, já há alguns dias, não me sai da cabeça: o show do U2. Há exatamente uma semana realizei um dos meus maiores sonhos assistindo à apresentação dos quatro irlandeses (gosto de chamá-los assim), no Estádio do Morumbi em São Paulo. Noite inesquecível, um grande espetáculo! Ainda hoje posso fechar os olhos e me ver, completamente feliz, dentro do estádio, acompanhado por 90 mil pessoas, próximo a uma das “pernas” da Garra (nome do palco da Turnê 360°), cantando, pulando, gritando, chorando... Assistir a um show do U2 não é apenas ver uma bela apresentação de rock, é passar por uma experiência musical, visual, emocional, política, espiritual, religiosa...
Lembro-me de assistir pela televisão, aos nove anos de idade, a uma reportagem sobre uma banda irlandesa que estava no Brasil para fazer alguns shows (só mais tarde eu iria descobrir que se tratava da Turnê PopMart que passou pelo Brasil em 1998). Lembro-me de ver na tela o nome da banda, bem simples, uma letra “U” seguida pelo número “2”, U2. O programa de TV também mostrou a banda cantando uma canção chamada “Where The Streets Have No Name”, o que me marcou muito. Sou capaz de sentir agora a mesma emoção que senti quando ouvi pela primeira vez a excelente guitarra de The Edge, a bateria forte de Larry Mullen Jr. e o baixo marcante de Adam Clayton, enquanto Bono Vox cantava: “I wanna run... I want to hide...”.
Eu não passava de uma criança, um simples garoto de uma cidade mineira do interior, mas a partir daquele momento comecei a conhecer melhor aquela banda. Através de alguns coleguinhas da escola e, principalmente, de um tio, tudo o que dizia respeito ao U2 era objeto do meu interesse, de revistas a fitas cassete. Alguns anos depois comecei a trabalhar como office boy em um escritório e, com o meu primeiro salário, comprei um CD original do U2: o álbum All That You Can’t Leave Behind, que havia sido lançado em 2000. Canções como “Beautiful Day”, “Elevation”, “Walk On”, “Kite” e “When I Look At The World” embalaram a minha adolescência, além das clássicas canções que a banda havia feito nos anos 1980 e 1990.
Com o advento da internet e do DVD, comecei a “ver” o U2 em shows e entrevistas, o sonho de assisti-los ao vivo foi crescendo dentro de mim como uma árvore, ou seja, começou como uma pequena semente e se transformou em uma planta gigantesca, com enormes galhos e folhas verdes. Eu queria ir a um show deles, mais ainda, eu queria ser Bono Vox. Todas as noites quando me deitava eu ficava acordado na cama, sonhando acordado, imaginando-me em cima de um palco, emocionando milhares de pessoas, levando uma mensagem de amor e paz a elas, puxando uma garota da plateia (que nos meus devaneios sempre era alguma garota da escola pela qual eu estava apaixonado), dançando com ela em cima do palco enquanto cantava “With Or Without You”, ao fim da qual eu dava um selinho na boca da moça. Coisas de garoto que gostava de rock, acredito que a maioria das pessoas já sonhou em ser um astro da música, ocupando o lugar do seu ídolo máximo.
Sim, eu queria ser Bono Vox. Com o passar dos anos, porém, veio a maturidade e as coisas de garoto foram sendo deixadas de lado. É verdade que nunca deixei de gostar do U2, pelo contrário, continuei comprando CDs da banda e me informando sobre eles na internet. Só que o meu interesse começou a se voltar mais para as características do som da banda, os acordes, os arranjos, o ritmo, a melodia, os detalhes quase inaudíveis de cada música, as mensagens presentes nas belíssimas letras. O som da banda sempre foi capaz de me emocionar bastante e quando os quatro irlandeses vieram ao Brasil em 2006, durante a Turnê Vertigo, assisti ao show pela TV e, chorando, prometi a mim mesmo que iria ao show dos caras na próxima vez que viessem ao Brasil.
Até que no ano passado foi divulgado que a Turnê 360° passaria pela cidade de São Paulo. Não pensei duas vezes, juntei uma grana, comprei um pacote de viagem e fui ao show. Posso dizer que foi uma das melhores coisas que já fiz na vida. O U2 sabe mesmo fazer um show, sabe proporcionar um grandioso e único espetáculo. No Estádio do Morumbi luzes surgiam dos mais diversos lugares durante a apresentação; o incrível telão em 360° (que se movia de cima para baixo, ora se expandindo ora voltando ao tamanho normal) mostrava detalhes do show e vídeos com mensagens políticas; o som era alto e potente, entrando pelos ouvidos e indo direto ao coração.
Foi mesmo um momento de sonho e fantasia “Even Better Than The Real Thing”, como sugeriu a primeira música do show. Durante aquelas mais de duas horas eu sonhei, vibrei, me emocionei, cantei, chorei, gritei e pulei. O Morumbi parecia pequeno para mim, o mundo parecia pequeno para mim. Na minha mente só havia o U2, a Garra, aquelas 90 mil pessoas e eu. Ao ver a performance de Bono no palco não pude deixar de pensar: e se fosse eu ali no lugar dele?
Pois é, por um instante o garoto de dez ou doze anos de idade ressurgiu das cinzas, e eu quis novamente ser Bono Vox, tal como na adolescência. Tudo isso foi há uma semana, todavia parece que ainda está acontecendo. Acho que ainda estou no Morumbi e ainda sinto de vontade de ser um astro do rock! Pelo que vejo, ainda existe um pouco daquele garoto dentro de mim... São coisas que apenas a música pode proporcionar, e por isso eu digo: Viva o rock! Viva a Irlanda! Viva o U2!

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O Jornalismo Televisivo Policial em Uberlândia: a crueldade de um discurso

A cidade de Uberlândia possui algumas emissoras de TV que cuidam da cobertura de notícias da cidade e da região. Há alguns anos o jornalismo policial nessas emissoras vem ganhando destaque, mas, para além do caráter informativo, os programas dessa natureza são marcados pelo preconceito, pelo sensacionalismo e pela cobertura simplista e dicotômica da realidade social. Gostaria, neste texto, de tecer algumas considerações a respeito de dois desses programas: o Chumbo Grosso, da TV Vitoriosa (afiliada SBT) e o 190 Paranaíba, da TV Paranaíba (afiliada Record).

O Chumbo Grosso é apresentado por André Silva, indo ao ar de segunda à sexta entre as 7h e 8h da manhã. Tão sugestiva quanto o nome do programa é a vinheta do mesmo, na qual vemos o nome do programa e o desenho de uma mira de arma de fogo. O programa cobre as diversas ocorrências policiais da cidade e da região: roubos, furtos, acidentes de trânsito, brigas, assassinatos, tráfico de drogas, casos de violência contra a criança etc. A principal característica do referido programa é o uso cruel das imagens mais fortes que a violência urbana pode proporcionar. Os corpos de homens e mulheres assassinados são friamente mostrados pela câmera que faz o uso de closes para mostrar os ferimentos provocados por balas e facas, bem como o chão sujo de sangue. O sensacionalismo de Chumbo Grosso não respeita as pessoas assassinadas e nem os familiares dessas pessoas, já que todo criminoso certamente possui um pai, uma mãe, uma família ou alguém que chora sua morte. O programa da TV Vitoriosa mostra os corpos humanos como se fossem meros objetos, sem respeito, sem humanidade, sem solidariedade. André Silva também faz, em muitos momentos, o uso de humor sarcástico para falar dos criminosos que aparecem no programa. Não há nenhuma tentativa de compreensão dos caminhos que levam alguém ao mundo do crime, apenas a fala simplista e dicotômica que representa o criminoso como inimigo da sociedade, sociedade essa que possui pessoas do "bem" e pessoas do "mal".

Por sua vez, o 190 Paranaíba, apresentado pelo Magoo, faz por merecer o nome que possui: 190. Cobrindo os mesmos tipos de fatos que o Chumbo Grosso e marcado por um humor bem mais negro, o 190 Paranaíba também vai ao ar pela manhã, das 7h45 às 8h45. O 190 não mostra imagens tão fortes quanto o Chumbo Grosso, mas também é marcado por um discurso bastante cruel. Aqui, os criminosos são rotulados como inimigos da sociedade e dos "homens de bem". Maggo não perde nenhuma oportunidade de fazer um jogo da velha com os dedos das mãos (simbolizando a cadeia) e falar "190 neles", um de seus bordões. O criminoso é representado como alguém que deve ser caçado e preso. O humor negro do programa chega ao nível de dar a "Comenda Mala Sem Alça" para indivíduos que cometeram certos crimes. Pessoas alcoolizadas também são constantemente ridicularizadas e humilhadas pelas imagens e entrevistas do programa. Mas talvez o elemento mais cruel do discurso veiculado pelo 190 Paranaíba esteja, de fato, no início do programa. Sempre no início, o apresentador Magoo recebe uma "visita" de um outro comunicador da emissora que está segurando uma ratoeira gigante. O que está escrito na ratoeira? Nada mais nada menos que os dizeres "Big Mouse Trap" e "190 Paranaíba". A ratoeira sugere que o programa mostrará os "ratos da sociedade", ou seja, os criminosos, sendo capturados. Qualquer semelhança com o discurso nazista de Adolf Hitler, segundo o qual os judeus eram os "ratos" que infestavam a sociedade alemã, não é mera coincidência.

A sociedade brasileira contemporânea vive um momento no qual a violência urbana parece cada vez mais próxima e intensa. O "medo do outro" é um sentimento cada vez mais intenso. Se crimes existem, que sejam investigados e que os criminosos sejam punidos. Denunciar a crueldade do discurso do jornalismo televisivo policial não significa "passar a mão na cabeça" dos assassinos e ladrões que existem na sociedade. Todavia, a forma da sociedade lidar com o mundo do crime precisa mudar. Os criminosos não são inimigos da sociedade, são pessoas que entraram no mundo do crime pelos mais variados motivos, motivos esses que os programas televisivos aqui analisados não mostram. Nesse sentido, ao invés de informar sobre a complexidade da realidade social, os referidos programas perpetuam uma imagem simplista da sociedade, imagem na qual as "classes perigosas" são completamente destituídas da sua condição de seres humanos, sendo tratadas como objetos ou como "ratos". Ao invés de informar, de maneira responsável, sobre as ocorrências policiais, Chumbo Grosso e 190 Paranaíba se valem do sensacionalismo e do humor negro para disseminar o preconceito e a intolerância. Se o jornalismo tem por função informar a sociedade a respeito dos fatos que nela ocorrem, que essa função seja feita de maneira madura a fim de que a sociedade seja efetivamente "informada" e não "enganada" por um discurso que mais deturpa a realidade social que informa sobre ela.  

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

A Busca pelo Triunfo nos Filmes “Cisne Negro” e “O Vencedor”

Vencer, triunfar, atingir um determinado objetivo, eis uma das mais antigas características do ser humano: sonhar e lutar para realizar os seus sonhos. O ser humano sempre busca algo, sempre deseja algo, mas os caminhos para se chegar a tal fim nem sempre são fáceis e podem, por vezes, se transformarem em um tortuoso labirinto do qual pode não haver saída. Sobre essa busca pelo triunfo e pela realização pessoal, foram recentemente lançados dois filmes que, apesar de serem muito diferentes entre si, apresentam alguns pontos em comum: Cisne Negro e O Vencedor (ambos de 2010, EUA).

O jovem e já cultuado diretor Darren Aronofsky dirige Cisne Negro, um tenso e aterroizante thriller psicológico que conta a história de Nina (interpretada de forma genial por Natalie Portman), uma delicada bailarina que apresenta um sentimento de obsessão em alcançar a perfeição em sua arte. Quando a primeira bailarina da companhia de balé da qual Nina faz parte se aposenta, a personagem de Natalie Portman é escolhida pelo diretor da companhia, Thomas Leroy (Vicent Cassel), para estrelar uma nova montagem do balé O Lago dos Cisnes, do russo Tchaicovsky, no papel da Rainha Cisne, interpretando tanto o cisne branco quanto o cisne negro.

Nina quer interpretar o papel de forma perfeita e, para a realização de tal objetivo, irá mergulhar bem fundo no universo de O Lago dos Cisnes, especialmente no universo do cisne negro, universo sombrio e cheio de malícia. A dificuldade de Nina está no fato apontado pelo diretor Thomas, a saber, o fato de ela ser perfeita para o papel do cisne branco (ela é ingênua, delicada, meiga), mas precisa adquirir a essência do cisne negro (o poder de sedução, a malícia, o lado sombrio). Nina se espelha em várias personagens: na antiga primeira bailarina da companhia, Beth (Winona Ryder); na sua colega Lilly (Mila Kunis), com a qual nutre uma complexa relação de atração física, inveja e concorrência; e na sua mãe, Erica (interpretada brilhantemente por Barbara Hershey), uma bailarina frustrada que vê no sucesso da filha uma realização que ela própria não pôde alcançar passado.

Seguindo as exigências do diretor da companhia, Nina vai descobrir o sexo, a sedução e a malícia, características básicas para a composição do cisne negro. A meiga bailarina quase infantil, sobretudo porque sempre foi tratada como uma boneca pela mãe, vai aos poucos se tornando mulher, libertando-se de suas amarras interiores que lhe impediam de ser o cisne negro. Mas Nina acaba se prendendo a outras amarras, as amarras do desejo de perfeição. Com o objetivo de ser perfeita, Nina mergulha cada vez mais fundo no universo do cisne negro, mergulho o qual pode não ter volta.

O mundo do balé tal como representado em Cisne Negro é sombrio e, por vezes, aterroriza o espectador. A obra de Aronofsky mostra o mundo do balé com toda a sua beleza (a música, os cenários, a coreografia, o figurino e a maquiagem), mas também, e principalmente, com tudo o que acontece nos bastidores e que não se vê no palco (os ferimentos, o sangue, os ossos que estalam, as sapatilhas apertadas, os pés deformados, a concorrência entre as bailarinas, o diretor mulherengo que se aproveita das bailarinas, as pressões exteriores e interiores). Dentro desse contexto, Nina perde a sua sanidade mental e vai para um universo que se situa entre a realidade e a fantasia, entrando em uma sinistra dança com a loucura e com a esquizofrenia. Nina buscará se libertar dos seus medos e da sua insegurança, rumo à arte perfeita e à tragédia: a plena realização da perfeição artística virá junto com a autodestuição.

A obsessão pela perfeição artística de Nina espelha-se na perfeição estética do próprio filme dirigido por Aronofsky. Cisne Negro possui um elenco que não decepciona em momento algum, a fotografia do filme é escura e sombria (grande parte do filme se passa à noite), a direção de arte é impecável, os efeitos visuais são impressionantes, a edição é extremamente bem feita e o filme tem a duração exata, nem muito longo nem muito curto. Se Nina é arrebatada e absorvida pelo seu desejo de perfeição, o espectador de Cisne Negro é arrebatado e absorvido pelo universo paranoico da bailarina interpretada por Natalie Portman, sendo constantemente levado ao terror e à tensão de um mundo onde os espelhos refletem não apenas a realidade física, mas também o estado de espírito de uma mente à beira do colapso.

David O. Russell ainda não é tão cultuado quanto Aronofsky, mas pode vir a sê-lo a partir da sua direção de O Vencedor. Partindo de uma história baseada em fatos reais, Russell dirige esse filme de forma primorosa, fazendo dele uma obra tão interessante quanto Cisne Negro, ainda que de uma maneira diferente. O Vencedor conta a história de Micky Ward (Mark Wahlberg) e Dicky Ecklund (Christian Bale), dois irmãos que são ligados pelo boxe. Dicky foi um promissor boxeador no passado e chegou a enfrentar o campeão mundial Sugar Ray Leonard, mas jogou a sua carreira fora ao se viciar em drogas, especialmente no crack. Micky cresceu admirando o irmão e vivendo à sua sombra, uma vez que toda a família sempre privilegiou Dicky devido ao seu passado. Sendo treinado por Dicky, Micky é um boxeador em busca vitórias e conquistas no mundo do esporte, tendo que lidar com uma família desestruturada e que tenta controlar a sua vida.

Se Cisne Negro mostrou o lado sombrio do mundo do balé, ou seja, os acontecimentos aterrorizantes que se dão atrás das cortinas; O Vencedor, por sua vez, mostra o que há no mundo do boxe para além das glórias que se dão no ringue. Pode-se dizer até que o filme de David O. Russell não é um filme de boxe, mas uma obra que parte do mundo do boxe para tratar de conflitos humanos mais amplos. De qualquer modo, são duas obras que tratam do desejo de triunfar, de vencer, de superar os próprios limites e as dificuldades impostas pelo meio.

Mas O Vencedor difere de Cisne Negro em uns aspectos importantes. Se Natalie Portman faz a protagonista do filme de Aronofsky de modo a ser a grande estrela do filme, não havendo concorrentes para ela; Mark Wahlberg, apesar de não estar ruim, tem a sua atuação completamente ofuscada pelas extraordinárias atuações de Christian Bale e Melissa Leo. Bale está praticamente irreconhecível, sobretudo na primeira parte do filme, no papel de um viciado em crack que treina o irmão mais novo de uma forma muito negligente, atrasando-se constantemente nos treinos. Vale dizer que o ator realizou um primoroso trabalho de composição do personagem, sobretudo no que se refere ao gestual e ao visual extremamente magro. Melissa Leo, por sua vez, faz a autoritária e dominadora mãe de Dicky e Micky, uma mãe que empresaria a carreira do filho mais jovem de uma forma extremamente desorganizada.

Bale e Leo constroem seus personagens de modo que o espectador chega a sentir raiva deles, notadamente nos momentos em que eles mais atrapalham e desejam controlar a carreira de Micky. Mas os personagens Dicky e Alice também emocionam o espectador, espacialmente naquela que talvez seja uma das sequências mais tocantes dos últimos anos no cinema de Hollywood: a cena em que Dicky começa a cantarolar “I Started a Joke”, dos Bee Gees, para a mãe e ela começa a cantar também. A música representa perfeitamente o que Dicky virou para a cidade: uma piada.

Alguns paralelos entre os dois filmes podem ser traçados. O primeiro diz respeito às mães Erica (Bárbara Hershey), a mãe de Nina em Cisne Negro, e Alice (Melissa Leo), a mãe de Dicky e Micky em O Vencedor. Erica é uma mãe que trata a filha como uma frágil boneca, projetando na filha os sonhos que não pôde realizar quando jovem. Alice é uma mãe que protege seus filhos da mesma forma que Erica, ou seja, de uma maneira extremamente exagerada, projetando em Micky o pugilista que Dicky não conseguiu ser. Mas se Erica e Nina vivem sozinhas e tem seus conflitos de mãe e filha (sempre considerando que Erica exista de fato, porque em alguns momentos de Cisne Negro parece que a mãe da bailarina é apenas uma projeção da mente obsessiva de Nina); Alice tem uma relação mais complexa com os filhos, uma vez que se casou duas vezes e não é mãe apenas de Dicky e Micky, mas de várias filhas mulheres, interpretadas por um elenco feminino que não desafina e atua brilhantemente bem em conjunto. De fato, a família de Dicky e Micky é bastante desestruturada, com brigas, confusões, bebidas alcoólicas e todos se intrometendo na vida e na carreira de Micky.

Se Nina vive sufocada pela mãe no filme de Aronofsky, Micky vive sufocado por toda a sua família em O Vencedor, ambos lutarão para se libertarem dos grilhões da instituição familiar. Nina procura sua liberdade metamorfoseando-se cada vez mais no cisne negro, mudando suas atitudes para alcançar a arte perfeita, ou seja, absorver ao máximo a essência do cisne negro. Micky procura se libertar da influência da mãe e dos irmãos, contando com a ajuda da namorada Charlene (Amy Adams) e do pai, George (Jack McGee), que é o integrante mais responsável da família. Assim como Nina, o pugilista conseguirá alcançar o seu objetivo ao se tornar campeão mundial.

Que o leitor não se engane. Micky não é um herói, tal qual Rocky Balboa o é em Rocky, Um Lutador (1976, EUA) e, apesar de o espectador torcer por ele durante as cenas de luta, não se chega às lágrimas ao fim do filme. O Vencedor expõe de forma não melosa os dramas das relações humanas que não aparecem nos ringues do mundo do boxe, o que gera um resultado muito interessante. A consagração de Micky ao fim do filme não é uma glória exclusiva dele, o personagem de Mark Wahlberg divide o seu triunfo com os outros personagens.

Esteticamente, O Vencedor e Cisne Negro são bastante diferentes. Como já foi dito, o filme de Aronofsky é marcado por um perfeccionismo estético impressionante. Por sua vez, a obra de Russell é de um realismo que beira o naturalismo: as camisetas estão sempre marcadas pelo suor; os cenários, carros, objetos e roupas são propositalmente simples, sujos, desarrumados e sem nenhum requinte; as pessoas da cidade são dolorosamente “bobas” e feias, passando ao espectador a exata imagem de uma pequena cidade abandonada onde parece existir uma deficiência mental/intelectual coletiva, em uma espécie de retrato feio da sociedade norte-americana. O Vencedor ainda é marcado por uma estética quase documental em alguns momentos, como nas cenas de luta onde as imagens foram feitas com o uso de câmeras televisivas.

Como se vê, Cisne Negro e O Vencedor são obras diferentes que apresentam alguns elementos em comum. Em ambos vemos a busca pelo triunfo; Cisne Negro explora os bastidores do mundo do balé, ao passo que O Vencedor faz o mesmo exercício com o mundo do boxe; o balé, a arte, é quase que central no filme de Aronofsky; o boxe, por sua vez, não tem o mesmo papel na obra de Russell, uma vez que há outros temas que também tem grande importância dentro do filme, tais como a família e as drogas; a grande beleza estética de Cisne Negro está relacionada com a importância da beleza no balé e na arte de forma geral, o fato de O Vencedor não possuir imagens tão “belas” talvez esteja relacionado ao fato de que a beleza não tenha tanta importância no mundo do boxe, onde a força, a velocidade e a técnica de luta dominam. Todavia, nos dois filmes a arte surge como um elemento que engendra a ação: no Cisne Negro o balé guia a vida de Nina, em O Vencedor vemos os efeitos que um documentário realizado pela HBO produz nas vidas dos personagens.

Por fim, temos que dizer que Aronofsky e Russell fizeram dois belos filmes, cada um a seu modo. Filmes que merecem ser assistidos com muita atenção e que são dignos das indicações e prêmios recebidos até aqui. Cisne Negro e O Vencedor: dois filmes sobre a busca humana pelo triunfo, no eterno desejo (e por que também não dizer “na eterna necessidade”?) de vencer e de se superar.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O tema da vida após a morte sob a direção de Clint Eastwood: notas sobre "Além da Vida"

O tema da vida após a morte sempre instigou as pessoas e já estimulou uma série de filmes, livros, novelas e etc. Talvez esta seja uma questão que todos nós já fizemos ou vamos nos fazer um dia: o que acontece depois que morremos? Questão complexa e que sempre nos intriga, afinal de contas, o homem é o único animal que sabe que vai morrer um dia.
A respeito desse tema, já está em cartaz no Brasil mais um belo filme de Clint Eastwood: Além da Vida (2010, EUA). Trata-se de um excelente drama dirigido com maestria por Eastwood e estrelado por Matt Damon. O filme nos apresenta três histórias que, ao decorrer da película, vão acabar se cruzando: George (Matt Damon) é um vidente que consegue se comunicar com os mortos e tenta levar uma vida normal, uma vez que considera que seu dom é, na verdade, uma verdadeira maldição que sempre o atrapalha no seu cotidiano; Marie (interpretada elegantemente por Cécile De France) é uma jornalista francesa que passou por uma experiência de quase morte na Tailândia durante um tsunami; Marcus (interpretado pelos gêmeos Frankie McLaren e George McLaren) é um garoto de Londres que acabou de perder o seu irmão gêmeo e procura por respostas a respeito da morte e da vida após a morte.
Clint Eastwood não faz um drama de arrancar lágrimas, mas segue por um caminho muito mais interessante do que o do melodrama simplista. Além da Vida é um filme bastante sensível e que trabalha o tema da vida após a morte de forma madura. Eastwood parte do roteiro de Peter Morgan e dirige uma obra que não especula exageradamente sobre o aspecto do mundo do além. Não vemos "céu", "inferno" ou "purgatório", como certamente já vimos em outras obras e ainda veremos em tantas outras, mas apenas rápidos flashes do além, nos quais vemos vultos e rostos não muito bem definidos. Além da Vida também não traz cenas de pessoas entrando em transe ou sendo espalhafatosamente incorporadas por espíritos. Pode-se dizer que o filme trata do tema de forma bastante respeitosa e é mais focado nos modos como a morte interfere nas relações humanas.
Um dos destaques do filme vai, sem sombra de dúvidas, para o elenco. Matt Damon interpreta um homem solitário e condenado a viver com um dom, ou uma maldição, que ele não pediu para ter. Cécile De France interpreta uma jornalista que, afetada por sua experiência, passa a ter dificuldades para continuar no concorrido universo da televisão e no seu relacionamento amoroso. Os atores gêmeos Frankie e George McLaren interpretam os gêmeos Marcus e Jason de forma bastante comovente e são a grande surpresa do elenco. Outro destaque vai para a trilha sonora que, por ser bastante leve e discreta, contribui para que o filme seja um drama inteligente e maduro e não um melodrama feito para levar o espectador às lágrimas fáceis. As sequências da tsunami e do atropelamento de Jason também merecem destaque, seja pelos efeitos visuais/especiais da primeira, seja pela capacidade da segunda de comover fortemente o espectador.
Além da Vida é um grande filme que mostra como Clint Eastwood é um mestre em contar histórias. É um filme que aborda um tema bastante complexo e delicado, mostrando o quanto a vida humana é frágil e cheia de mistérios. Drama maduro dirigido por um grande diretor que não trilha pelos caminhos mais simplistas, mas que prefere tratar de forma inteligente os modos como as pessoas lidam com a morte e com as suas próprias crenças.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Da Crítica Aberta ao Abraço no Sistema Capitalista: A Trajetória Artística e Ideológica da banda Charlie Brown Jr. no Contexto da Indústria Cultural

A banda brasileira de rock Charlie Brown Jr. foi formada na cidade de Santos, litoral de São Paulo, no ano de 1992. A trajetória do Charlie Brown Jr. pode ser tomada como um instigante exemplo de como a indústria cultural absorve e transforma a orientação ideológica de determinados artistas.

No início da carreira o Charlie Brown Jr. contava com a presença de Chorão, no vocal; Champignon, no baixo; Renato Pelado, na bateria; Marcão, na guitarra; e Thiago Castanho, também na guitarra. A banda se destacou no cenário musical brasileiro ao apresentar uma sonoridade bastante própria, misturando hardcore, punk rock californiano, hip hop, reggae e rap. Com um ritmo envolvente e letras que faziam críticas a sociedade e apresentavam as perspectivas do jovem contemporâneo, o Charlie Brown Jr. logo chegou às paradas de sucesso.

O primeiro álbum da banda, Transpiração Contínua Prolongada, foi lançado, através da Virgin Records, em 1997, e, contou com a produção do lendário produtor musical Rick Bonadio. Mas foi com o segundo álbum, Preço Curto... Prazo Longo (1999), que a banda conquistou de vez boa parte do público jovem, principalmente devido ao fato de a canção Te Levar tornar-se a música de abertura do seriado Malhação, da TV Globo. Tal fato deu uma maior visibilidade à banda, uma vez que, a partir daquele momento, o Charlie Brown Jr. passou a ser conhecido, e, ouvido, pelas mais diversas camadas sociais.

Um exemplo do tipo de mensagem que o Charlie Brown Jr. transmitia, com suas músicas, pode ser verificado a partir de uns versos da canção Não é sério, música que esteve no terceiro álbum da banda, lançado em 2000 pela Virgin Records:

Eu sei como é difícil

Eu sei como é difícil acreditar

Mas essa porra um dia vai mudar

[...]

“O que eu consigo ver é só um terço do problema

É o Sistema que tem que mudar

Não se pode parar de lutar

Senão não muda

A Juventude tem que estar a fim

Tem que seu unir

O abuso do trabalho infantil, a ignorância

Só faz destruir a esperança

Na TV o que eles falam sobre o jovem não é sério

Deixa ele viver... É o que liga”[1]

Através desses versos, podemos perceber que o Charlie Brown Jr. defendia a idéia da necessidade de se mudar o sistema capitalista, sistema vigente na sociedade brasileira. Nesse processo de transformação do sistema em um outro que fosse mais igualitário, a juventude deveria ter um papel central. Nesse sentido, a canção Não é sério convida os jovens a se unirem em uma luta coletiva por uma sociedade melhor, pois, somente assim, a juventude ganhará um maior respeito por parte da sociedade.

Já no álbum 100% Charlie Brown Jr. (2001), lançado pela grande gravadora EMI, o Charlie Brown Jr. apresentou uma excelente canção de protesto chamada Eu protesto, da qual extraímos os seguintes versos:

Foi você quem colocou eles lá

Mas eles não estão fazendo nada por vocês

Enquanto o povo vai vivendo de migalhas

Eles inventam outro imposto pra vocês

Aquela creche que deixaram de ajudar está por um fio

E a ganância está matando a geração 2000

E a sua tolerância está maior do que nunca agora...

Dormem sossegados os caras do Senado

Dormem sossegados os que fizeram esse estrago

Dormem sossegados os caras do Senado

Dormem sossegados os que pintaram esse quadro.[2]

Eu protesto, como se percebe, é uma canção que critica não só a classe política, mas também o próprio povo, que, afinal de contas, elegeu as pessoas que estão no poder. Criticando a tudo e a todos, a música denuncia a desigualdade social, a ganância dos poderosos, bem como a tolerância e passividade do povo brasileiro.

Já no álbum Bocas Ordinárias (2002), gravado pela EMI, o Charlie Brown Jr. trouxe a canção Papo Reto, na qual é descrito o comportamento e estilo da própria banda:

Você falou pra ela que eu sou louco e canto mal,

Que eu não presto, que eu sou um marginal,

Que eu não tenho educação,

Que eu só falo palavrão,

E pra socialite eu não tenho vocação...

Sei que isso tudo é verdade, mas

Eu quero que se foda essa porra de sociedade

Pago minhas contas, eu sou limpinho,

Não sou como você filho da puta, viadinho.[3]

Em 2002, o Charlie Brown Jr. já era uma banda de sucesso e tinha já um público bastante fiel. Mas mesmo com o sucesso e com o dinheiro, a banda continuava tendo uma cultura própria do seu lugar social de origem (a classe baixa), como observamos na letra de Papo Reto: falavam palavrões, não tinham educação, se identificavam com os marginais da sociedade, mas, a despeito de tudo isso, mostravam-se orgulhosos de pagar as próprias contas e não deverem nada a ninguém.

A banda continuou sua trajetória até que, no de 2005, Marcão, Renato Pelado e Champignon deixaram o Charlie Brown Jr., devido a divergências musicais com Chorão e com a gravadora. Thiago Castanho, que havia saído em 2000, voltou, na guitarra, sendo acompanhado de André Ruas, na bateria, e, Heitor Gomes, no baixo. No mesmo ano de 2005, a nova formação do Charlie Brown Jr. lançou o emblemático álbum Imunidade Musical, lançado pela EMI.

Imunidade Musical trouxe uma mudança radical no tipo de mensagem trazida pelo Charlie Brown Jr.. As letras passaram a ser mais politicamente corretas, os palavrões sumiram e as críticas ficaram extremamente leves. Um exemplo dessa mudança de tom é a canção Senhor do Tempo, da qual extraímos os seguintes versos:

Eu vi o tempo passar e pouca coisa mudar

Então tomei um caminho diferente

Tanta gente equivocada faz mal uso da palavra

Falam, falam o tempo todo, mas não tem nada a dizer

Mas eu tenho um santo forte e é incrível a minha sorte

Agradeço todo tempo ter encontrado você

O tempo é rei, a vida é uma lição

E um dia a gente cresce,

E conhece a nossa essência e

Ganha experiência

E aprende o que é raiz, então cria consciência.

Tem gente que reclama da vida o tempo todo

Mas a lei da vida é quem dita o fim do jogo

Eu vi de perto o que neguinho é capaz por dinheiro

Eu conheci o próprio lobo na pele de um cordeiro

Infelizmente a gente tem que tá ligado o tempo inteiro,

Ligado nos pilantras e também nos bagunceiros

[...]

Vivendo nesse mundo louco hoje só na brisa

Viver pra ser melhor, também é um jeito de levar a vida

[...]

Vem que o bom astral vai dominar o mundo

Eu já briguei com a vida

Hoje eu vivo bem com todo mundo aí

Na maior moral é Charlie Brown.[4]

Quão diferente é essa letra em relação às letras dos primeiros álbuns da banda! A mensagem trazida aqui é a de que o sistema capitalista não pode ser vencido, cabendo a cada um escolher o seu próprio caminho. O gesto de reclamar é visto como algo que não adianta mais nada, cada um deve lutar para chegar aonde se deseja, mas de lutar de uma forma madura e serena. Outro dado interessante é a desconfiança para com os “pilantras” e os “bagunceiros”, personagens sociais com os quais o Charlie Brown Jr. se identificava no início da carreira. Senhor do Tempo traz as marcas da perda dos ideais rebeldes da juventude. Trata-se de uma canção que traz claramente as mudanças no comportamento de Chorão, vocalista da banda, que, conforme foi envelhecendo, foi ficando cada vez mais politicamente correto ao longo da carreira.

Em 2009, o Charlie Brown Jr. saiu da EMI e assinou um contrato com a Sony Music, outra grande gravadora. No mesmo ano foi lançado, com a nova gravadora, o álbum Camisa 10 Joga Bola Até na Chuva, no qual a banda mergulhou de vez no politicamente correto. Desse álbum, no qual Bruno Graveto substituiu André Ruas na bateria, trazemos aqui uns versos de uma canção também chamada Camisa 10 Joga Bola Até na Chuva:

É assim que eu quero ser, sim, um cara melhor

Não melhor do que ninguém, mas o melhor que eu puder ser

O tempo passa e tudo muda e você tem que entender

Que existem vários caminhos, escolha um pra você

Você tem o dom da voz, você tem o poder

De prosperar, de evoluir e de fazer acontecer

De prosperar, de evoluir e de fazer acontecer

Entenda como se comportam os homens

Não se respeitam e não se tratam como irmãos

Pois quase tudo gira em torno de poder

E sufocado eu me liberto nessa canção

Então faça o que tiver que fazer

Busque a evolução e se liberte

Não fique aí perdido no espaço

Pois ficar só reclamando é muito fácil

Você nasceu para brilhar, o sol está em suas mãos

[...]

Camisa 10 joga bola até na chuva

[...]

Sólido na volta, por cima, eu vou com tudo

Pode anunciar e convidar todo mundo

Nessa vida eu quero amor, paz, sossego e liberdade

Charlie Brown Jr. invadindo a cidade.[5]

Como se observa, o discurso politicamente correto aqui está fortemente presente. A mensagem trazida pela música é a de que é preciso amadurecer na vida, parar de reclamar, e, começar a agir. Não se deixa de reconhecer que o mundo e a nossa sociedade possuem problemas, mas o que se defende é que é preciso se adaptar às regras da sociedade. Com um tom motivador, a música traz a idéia que não importa o quanto esteja chovendo, um verdadeiro camisa 10 sempre é capaz de jogar bem e vencer no jogo da vida. Devemos nos comportar como um camisa 10... Portanto, o que se busca agora não é mais uma mudança no sistema, mas sim a conquista de uma vida melhor (entenda-se a compra de bens de consumo) dentro do próprio sistema. Todavia, os caminhos a serem trilhados devem ser sempre caminhos individuais e não coletivos, tal como era pregado pelo Charlie Brown Jr. na música Não é sério, o que mostra a presença de um forte individualismo, elemento muito presente na nossa sociedade capitalista.

Em suma, temos que a trajetória artística e ideológica da banda Charlie Brown Jr. é representativa de como a indústria cultural se apropria de artistas engajados politicamente, moldando-os ao seu gosto. O Charlie Brown Jr. começou sua trajetória criticando a sociedade, denunciando os problemas sociais e incentivando a juventude a exercer o seu papel transformador na história, mas, com o decorrer dos últimos anos a banda abraçou o sistema, adotando uma postura politicamente correta, defendendo que todos possuem capacidade de vencer na vida, mas dentro do próprio sistema, é claro.

Essa mudança de comportamento é própria de uma banda que conseguiu o seu espaço na mídia, vendeu muitos discos, ganhou muito dinheiro, enfim, conseguiu vencer dentro do sistema. É por isso que o Charlie Brown Jr. tem abraçado o sistema, uma vez que a banda de Chorão conseguiu tudo o que tem graças ao próprio sistema.



[1] CHARLIE BROWN JR. Não é sério. In: ______. Nadando com os Tubarões. São Paulo: Virgin Records, 2000.

[2] CHARLIE BROWN JR. Eu protesto. In: ______. 100% Charlie Brown Jr. São Paulo: EMI, 2001.

[3] CHARLIE BROWN JR. Papo Reto. In: ______. Bocas Ordinárias. São Paulo: EMI, 2002.

[4] CHARLIE BROWN JR. Senhor do Tempo. In: ______. Imunidade Musical. São Paulo: EMI, 2005.

[5] CHARLIE BROWN JR. Camisa 10 Joga Bola Até na Chuva. In: _____. Camisa 10 Joga Bola Até na Chuva. São Paulo: Sony Music, 2009.