sexta-feira, 20 de março de 2015

Biblioteca Escolar


Há algumas semanas um amigo publicou no Facebook uma estatística que me fez pensar no hábito da leitura e na minha relação pessoal com os livros. Segundo a postagem, “87% dos não leitores nunca foram presenteados com livros na infância”. Ao me deparar com tal informação foi impossível não rememorar a minha trajetória pessoal.

Pois bem, nunca ganhei um livro sequer na minha infância e devo dizer que os estímulos à leitura eram bastante raros naquele período de minha vida. E, no entanto, eu desenvolvi uma verdadeira paixão pela leitura, de modo que hoje os livros fazem parte do meu cotidiano de maneira bastante intensa. Com efeito, creio que o surgimento do hábito da leitura não depende apenas do fato de se ganhar livros, afinal, a própria pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil” (2011), de onde a estatística que citamos no início deste texto foi tirada, informa que 60% dos leitores também nunca foram presenteados com livros.

Como se vê, o fato de não ganhar livros não impede totalmente que o gosto pela leitura apareça. Mas, se o estímulo a esse hábito tão importante não vem de casa e nem dos amigos, de onde ele pode vir? É aqui que rememoro a minha trajetória pessoal. No meu caso, ler tornou-se um hábito a partir de 1999, quando fui estudar na Escola Estadual Professor Vicente Lopes Perez, situada na cidade de Monte Carmelo (MG). Naquele colégio, conhecido por “Polivalente”, havia uma bem organizada biblioteca escolar localizada em um ponto estratégico e que contava com bibliotecárias atenciosas. Aquele era um lugar confortável para se estar, que convidava o aluno a entrar e o estimulava a explorar o acervo de livros ali existente.

Penso que este deve ser um exemplo para as bibliotecas de nossas escolas hoje. A biblioteca escolar precisa ser um lugar capaz de atrair o aluno. Infelizmente, em muitos de nossos estabelecimentos de ensino, estes espaços estão escondidos, não contam com uma organização eficiente e não são nada atraentes para os estudantes. Ora, se a criança ou o adolescente não tiver um estímulo à leitura nem em casa e nem na escola, aí sim acredito que esse hábito pode não surgir. Restará em casos assim, talvez, torcer para que o jovem adquira o gosto pela leitura por meio de outros caminhos.

No meu caso, a biblioteca escolar do Polivalente de Monte Carmelo foi fundamental na minha formação. Gosto de pensar que aquelas estantes cheias de livros mudaram a minha vida. Devo muito do que sou àquela biblioteca e deixo aqui registrada a minha profunda gratidão.

(Texto originalmente publicado na Coluna do Nehac do Jornal Correio de Uberlândia no dia 31 de janeiro de 2014.)

Confinados

A trajetória de João Batista de Andrade é bastante interessante. Nascido na cidade mineira de Ituiutaba em 1939, Andrade vivenciou complexos momentos da recente história do Brasil, como o período da Ditadura Militar (1964-1985), por exemplo, tendo uma notável carreira como cineasta. Já como escritor, publicou sete livros até o presente momento, o último se chama “Confinados: memórias de um tempo sem saídas” (Ed. Prumo, 2013, 192 páginas).
A obra se ocupa da atual realidade de nosso país e acompanha as vidas de alguns personagens que vivem em uma grande cidade brasileira, explorando seus problemas, seus dramas, suas crises e sua incapacidade de encontrar um caminho seguro nestes tempos de tantas dificuldades. “Confinados” apresenta ao leitor uma instigante mistura de realidade e ficção, e, em várias passagens, é possível perceber pontos de contato entre a história de vida do autor do livro e as histórias de seus personagens, como a do velho arquiteto Júlio, um homem em crise que sofre com sua solidão.
A sensação de solidão, aliás, é elemento importantíssimo de “Confinados”. A cidade grande é o espaço da violência e do medo, o que faz com que os personagens tenham que se trancar em suas casas, permanecendo sozinhos e vendo as tragédias da guerra entre policiais e bandidos pela TV. É a partir desta situação de confinamento, desta solidão, que Andrade explora os complexos aspectos psicológicos de seus personagens e nos apresenta a sua visão acerca do Brasil contemporâneo.
João Batista de Andrade militou por anos no Partido Comunista Brasileiro (PCB), lutou contra o regime militar por meio de sua arte e sempre apresentou em suas produções um olhar crítico sobre os (des)caminhos trilhados pela sociedade brasileira. Nesta perspectiva, “Confinados” é interessante porque nos permite ver como um autor com tal trajetória de vida interpreta o atual estado de coisas no nosso país. A pergunta feita por Andrade em seu livro, portanto, diz respeito tanto ao personagem Júlio quanto ao próprio autor: “Como falar do desconforto enorme, diante dos desafios e surpresas do mundo atual, depois do fim de suas utopias, depois de tantas lutas e esperanças que carregara desde a juventude?”.
Tal questionamento é importante, pois nos remete a todos aqueles que não conseguem encontrar no tempo presente a realização de projetos e sonhos do passado, mas apenas uma cruel e violenta realidade, um mundo no qual confinados estamos todos nós.
(Texto originalmente publicado na Coluna do Nehac do Jornal Correio de Uberlândia no dia 22 de novembro de 2013.)

Recursos audiovisuais e ensino de História

O meu trabalho como professor de ensino médio na Escola Estadual Messias Pedreiro, localizada na área central da cidade de Uberlândia, tem me proporcionado não só o contato com uma nova geração de jovens, mas também a oportunidade de pensar questões atinentes ao ensino de História, disciplina da qual sou professor. Sob esse prisma, tem me chamado a atenção o amplo conjunto de possibilidades do uso de recursos audiovisuais no processo de ensino e aprendizagem de História.
Há poucas semanas pedi aos meus alunos das turmas de segundo ano do ensino médio que se organizassem em grupos e apresentassem trabalhos sobre algumas revoltas ocorridas no campo e na cidade durante o início do século 20 no Brasil. Tais trabalhos foram apresentados nos últimos dias e fiquei realmente impressionado com a qualidade de muitos deles. Algo que merece destaque nesta experiência é o fato de que muitos dos meus alunos se mostraram extremamente hábeis em manusear equipamentos de som e vídeo para a apresentação dos trabalhos (uma habilidade que pode até assustar os mais velhos). Já na elaboração dos mesmos a pesquisa na internet se mostrou importante, não apenas na construção de textos mas também na montagem de vídeos e apresentações de slides, com imagens diversas e músicas encontradas na web.
Neste sentido, os alunos se mostraram capazes não só de realizar pesquisa histórica, mas também de apresenta-la aos colegas de maneira bastante agradável e, em certos casos, bastante divertida, pois alguns grupos usaram do bom humor nas apresentações. Tal experiência me mostrou o papel que pode ser desempenhado pelos recursos audiovisuais e as modernas tecnologias no ensino de História na atualidade. Os mais jovens são pessoas extremamente adaptadas a todo o aparato tecnológico moderno e a escola deve estar atenta a isso. O uso de tais recursos audiovisuais pode tornar o ensino mais dinâmico e prazeroso para os nossos alunos, uma vez que eles lidam tão bem com essas linguagens.
No caso do ensino de História, tal prática é interessante pois amplia consideravelmente a gama de materiais a serem trabalhados pelo professor em sala de aula, que não precisa mais – e nem deve – ficar restrito ao livro didático. Por fim, cabe salientar que não se deve esperar que a tecnologia faça o trabalho do professor, pois ele continua sendo um agente importantíssimo na educação, o profissional que deve orientar os alunos no uso dessas modernas ferramentas para a construção do conhecimento.
(Texto originalmente publicado na Coluna do Nehac do Jornal Correio de Uberlândia no dia 04 de outubro de 2013.)

O Cinema Alemão e a Ascensão de Hitler

Quando o assunto é o nazismo, muitos se perguntam: afinal de contas, como os alemães puderam apoiar Adolf Hitler? Trata-se de uma difícil questão, e muitos foram os estudiosos que tentaram respondê-la. Um deles foi Siegfried Kracauer, que em 1947 publicou o livro “De Caligari a Hitler: uma história psicológica do cinema alemão”. Escrita por um autor que teve que fugir da Alemanha nazista para Paris em 1933, indo depois para os Estados Unidos em 1941, a obra é um esforço de Kracauer em tentar entender o processo que levou Hitler ao poder.
A hipótese trabalhada no livro é instigante: havia entre os alemães um “mal-estar psicológico” já durante a década de 1910. Sob esse prisma, o autor se volta para as produções do cinema alemão das primeiras décadas do século 20 e afirma: “através de uma análise dos filmes alemães, pode-se expor as profundas tendências psicológicas predominantes na Alemanha de 1918 a 1933, tendências que influenciaram o curso dos acontecimentos no período de tempo acima mencionado”.
Kracauer analisa os aspectos estéticos e os temas recorrentes em tais produções e observa que muitos dos filmes da época contavam histórias sombrias, de homicídios, tiranos, violência, etc. Por ser o cinema uma arte coletiva voltada para o consumo das massas, o autor defende que tais aspectos do cinema alemão daquele período dialogavam perfeitamente com o “padrão psicológico vigente” na Alemanha, padrão esse que, segundo Kracauer, esteve intimamente relacionado tanto à ascensão de Hitler ao poder quanto ao holocausto.
O que dizer de tal hipótese? É certo que o livro foi publicado após a 2ª Guerra Mundial, quando os horrores do extermínio dos judeus já eram conhecidos. Neste sentido, por vezes, Kracauer parece procurar a qualquer custo paralelos entre as histórias contadas nos filmes e as histórias reais em torno do nazismo. Por outro lado, um filme como ‘ “Homunculus”, de 1916, chama a atenção ao contar a história de um sofrido homem que foi criado em um tubo de ensaio e que se torna ditador de um grande país, sendo o responsável por uma guerra mundial. Tais semelhanças com Hitler impressionam Kracauer, e também a nós, seus leitores.
Concordemos ou não com a análise feita nas páginas do livro, o fato é que o cinema alemão em suas primeiras décadas parece mesmo ter antecipado eventos atinentes ao nazismo. Como bem disse Kracauer, “importantes personagens cinematográficos se tornaram verdadeiros na vida real” da Alemanha. É mesmo para se pensar…
(Texto originalmente publicado na Coluna do NEHAC do Jornal Correio de Uberlândia de 16 de agosto de 2013.)

sábado, 6 de julho de 2013

A força de um bom elenco


As telenovelas geralmente são vistas como entretenimento vazio e barato, recebendo o rótulo de ovelhas negras da cultura. Posto isso, a telenovela “Cordel Encantado”, atualmente produzida/exibida pela TV Globo no horário das 18h, é um interessante exemplo de como esse gênero pode ser feito com qualidade.
Bebendo de elementos da cultura popular nordestina, com destaque para o cangaço e o imaginário religioso, “Cordel Encantado” conta a história de Açucena/Aurora (Bianca Bin), uma princesa europeia que foi criada no sertão nordestino por pais adotivos. A trama gira em torno do amor de Açucena e Jesuíno (Cauã Reymond), amor que precisa lutar contra o fato de que a moça, enquanto princesa, está prometida ao Príncipe Felipe (Jayme Matarazzo). Açucena e Jesuíno também precisam lutar contra o Coronel Timóteo Cabral (Bruno Gagliasso), homem cruel e que ama Açucena.
Muito pode ser discutido sobre a correspondência ou não da novela em relação à “verdade” dos fatos históricos. Apesar disso, “Cordel Encantado” possui qualidades que merecem ser valorizadas. Há que se elogiar a fotografia (imagens de cinema), o texto (bastante poético, misturando comédia e drama) e a trilha sonora, que traz o melhor dos ritmos nordestinos marcados por zabumbas e pífanos. Mas o grande trunfo de Cordel Encantado está na qualidade do seu elenco. Os jovens Cauã Reymond, Bianca Bin, Nathalia Dill e Jayme Matarazzo presenteiam o telespectador com atuações convincentes. Também merecem destaque os desempenhos dos veteranos Osmar Prado, no papel do delegado Batoré, e Marcos Caruso, como o prefeito Patácio, responsáveis por muitos momentos cômicos da trama.
Bruno Gagliasso, no melhor papel de sua vida, está impecável como Timóteo, personagem que possui os traços de uma mente louca, má, egocêntrica, vaidosa e mimada. Domingos Montagner, no papel de Capitão Herculano, também merece elogios, uma vez que constrói seu personagem com boas doses de masculinidade e valentia, fazendo do chefe dos cangaceiros um homem que seduz o telespectador.
Bem feita e contando com um elenco que não decepciona em nenhum momento, pois até os atores com mínima participação são bons, Cordel Encantado merece ser vista e apreciada por todos os que gostam de uma teledramaturgia bem realizada.

Texto originalmente publicado na Coluna do Nehac do Jornal Correio de Uberlândia no dia 12 de agosto de 2011.

“Foi mal”


“Errar é humano”, nos diz a sabedoria popular. De fato, é impossível para qualquer ser humano atingir a perfeição, não conseguimos acertar sempre, às vezes magoamos outras pessoas. “Perdoar é divino”, nos lembra a mesma sabedoria popular. Perdoar é um ato de amor, uma atitude nem sempre fácil de tomar, mas sempre útil para que possamos seguir em frente no dia a dia, sem mágoas.
Contudo, os problemas surgem quando o ato de perdoar passa a ser visto por muitos como uma obrigação em si mesmo: aquele seu amigo pisa na bola, vai até sua casa para te pedir desculpas e você tem que perdoá-lo. Se não o perdoar, será rotulado como uma pessoa rancorosa, sem Deus no coração. O perdão não pode ser uma obrigação, pois, se o for, as pessoas não deixarão de cometer os mesmos erros. “Não há nada de mau se eu fizer isso, se ele não gostar, eu vou lá, peço desculpas e ficará tudo bem de novo”, certamente pensam muitas pessoas.
A filósofa Hannah Arendt afirmou com razão no livro “A Condição Humana” que o perdão não é uma faculdade isolada, mas forma um par com outra faculdade: a de prometer e cumprir promessas. Segundo a autora, as ações humanas são irreversíveis e imprevisíveis, ou seja, é impossível voltar ao passado e desfazer o que foi feito, as nossas ações muitas vezes levam a consequências que somos incapazes de prever. Por isso, se alguém nos pede desculpas por uma falha, devemos perdoar, mas a pessoa que nos magoou deve prometer e cumprir uma promessa, ou seja, tem que se comprometer a mudar suas atitudes.
Infelizmente, para muitas pessoas é mais fácil dizer “foi mal” do que se comprometer a mudar o próprio comportamento. Há gente que até promete mudar, mas não muda. O perdão, por si só, não contribui para que melhoremos as nossas relações com as outras pessoas. Para se viver bem em sociedade, não basta pedir desculpas, é preciso estar disposto a aprender com os próprios erros e a transformar as próprias práticas. O perdão deve ser dado a quem o merece.
Ninguém é perfeito, em alguns momentos as pessoas vão nos magoar, assim como nós também vamos errar com os outros. Que tenhamos a capacidade de aprender cada vez mais a agir bem com os outros, só assim seremos merecedores do perdão que nos libertará das nossas falhas.

Texto originalmente publicado na Coluna do Nehac do Jornal Correio de Uberlândia no dia 09 de março de 2012.

Sobre a questão ambiental


Nos últimos dias o Brasil se tornou o centro mundial dos debates em torno da questão ambiental e do desenvolvimento sustentável. A cidade do Rio de Janeiro recebeu a “Rio+20 – Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável”. E não foi a primeira vez que a ONU organizou um evento desse tipo. Há 20 anos, a mesma cidade do Rio de Janeiro recebeu a “Rio-92”, e há 40 anos o encontro foi realizado em Estocolmo, na Suécia.
O fato é que o debate em torno da necessidade de se preservar o meio ambiente e procurar um desenvolvimento sustentável tem se arrastado por décadas. Infelizmente, na prática, toda essa discussão gerou poucos frutos. Os chamados países desenvolvidos não se mostram muito dispostos a modificar o seu modelo de desenvolvimento e progresso, pois isso “traria perdas para as suas economias”. Os chamados países em desenvolvimento, por sua vez, “precisam se desenvolver rapidamente”, de modo a acabar com a pobreza e alcançar o mesmo “nível” dos países desenvolvidos.
A realização de grandes conferências sobre o desenvolvimento sustentável é importante, pois discute o assunto e alerta para o fato de que os recursos naturais do planeta são finitos. Contudo, sinto falta de que todos os “discursos em prol do meio ambiente” sejam colocados, efetivamente, em prática. Enquanto interesses econômicos e políticos (principalmente de países como Estados Unidos e China, que são dois grandes poluidores) estiverem em primeiro plano, o planeta continuará sofrendo com um modelo de desenvolvimento que precisa ser urgentemente repensado.
Em tempos de crise econômica a nível global, é certo que muitos países estejam ansiosos por acelerar as rodas de suas economias, neste contexto “o meio ambiente pode ficar para depois”. Contudo, é preciso ter consciência de que, mais cedo ou mais tarde, pagaremos a conta por essa postura (na verdade, acredito até que já estamos pagando).
Atualmente está na moda discursar a favor do “ecologicamente correto”. Mas quando eu vejo, por exemplo, pessoas desperdiçando água, questiono a utilidade de tanta discussão sobre o desenvolvimento sustentável. Espero que as pessoas, as indústrias e os governos parem de discursar e mudem suas práticas. Tomara que o planeta dure até isso acontecer!

Texto originalmente publicado na Coluna do Nehac do Jornal Correio de Uberlândia no dia 22 de junho de 2012.