sábado, 25 de junho de 2011

Coração ao Mar

Não foram os trovões,
Nem o barulho da forte chuva
Caindo sobre o telhado
O que me acordou.

Era uma voz no rádio
Era a voz dela no rádio
Desesperada e perdida
No meio do mar.

Nunca quis que ela entrasse
Naquele maldito navio
Mas o Capitão teve seus méritos
E a conquistou.

No rádio ela me falou
Que o navio estava naufragando
E que não sabia o que fazer...
Porém, eu também não sabia o que fazer.

“O Capitão afunda com o navio”,
Essa é a lei
A moça no rádio, porém, não queria
Abandonar o seu Capitão.

“Eu sei que o navio vai naufragar”,
Ela me disse no rádio.
“Por que você não sai daí?”,
Perguntei, louco para tê-la perto de mim.

“Pegue um bote salva-vidas”,
Eu aconselhei.
“Não quero me separar do meu Capitão”,
Ela respondeu, como que me apunhalando.

“Seu Capitão, em breve, não estará neste mundo!”,
Gritei, um tanto quanto cruel.
“Eu sei, mas ainda posso ficar mais uns minutos com ele”,
Respondeu-me aos prantos.

“Então morra com ele”,
Pensei comigo mesmo, em fúria
Uma fúria que durou por três segundos
Eu só queria salvá-la.
  
“Depois que o navio afunda, é preciso voltar a nado”,
Disse eu no rádio
“Será um sofrimento enorme para você”,
Concluí.

“Eu não queria deixar o meu Capitão,
mas, por outro lado, quero tanto viver”,
Ela me disse, e depois me perguntou:
“O que eu faço, agora que o fim se aproxima?”.

Depois disso, só me lembro de dizer:
“Estou indo até você!”
Saí no meio da madrugada tempestuosa
E entrei no meu velho barco a motor...

Agora estou aqui, no meio do mar
Não vejo quase nada, pois a noite é escura
Apenas os relâmpagos iluminam o horizonte
Como flashes vindos do céu.

Eu navego pelo mar indomável
Meu barco sobe ondas gigantescas
Como se o seu motor tivesse a força
A mesma força do meu coração.

Eu navego por horas a fio
Eu não paro, eu não durmo
Eu sigo em frente
Apenas para encontrá-la.

De repente surge um risco vermelho no céu
Alguém usou um sinalizador
“Estou perto”, penso comigo mesmo
Sei que posso salvá-la.

Mas não encontro o navio
E a noite avança, o tempo passa
Termina a madrugada, o dia chega
Acho que estou vendo algo à minha frente.

A tempestade acabou, o céu é azul,
Mas o motor do barco me abandona
O barco pára, meu coração quase
Apenas olho para o horizonte com meu binóculo.

“É ela em um bote, mas o bote não se move,
o bote está entregue ao sabor das ondas”,
Digo para mim mesmo
Sou eu agora pulando na água.

Eu nado durante quarenta minutos
E sequer fico exausto
Nadaria a vida inteira
Apenas para encontrá-la.

Eu a alcanço, enfim
Sou eu entrando no bote
Com todo o cuidado do mundo
Para que ele não vire.

“Que bom que abandonou o navio”,
Eu falo, aliviado e feliz ao vê-la
“Não tive escolha”,
Ela me responde, com certa tristeza nos olhos.

“No fundo eu sempre soube que o navio ia naufragar”,
Ela me diz, e continua:
“Mas era tão difícil deixar o Capitão,
só o fiz no último momento”.

“Ainda bem que houve tempo para que
você entrasse em um dos botes”,
Assim eu falo, com os olhos cheios d’água,
Estou feliz em tê-la diante de mim.

“Esse bote permitiu que eu continuasse viva,
mas eu não sei remar e ele de pouco me serve agora”,
Ela me diz, seus olhos ainda estão perdidos
Perdidos em lugar algum do mar.

“Seu Capitão se foi, mas eu estou aqui agora,
acalme-se porque eu sei remar”,
Assim eu digo, já assumindo os remos
E então estou apenas a remar.

O sol sobre minha cabeça não me queima,
O suor que corre não me incomoda,
Os músculos trabalham sem dor ou cansaço
Eu apenas volto para casa, remando sem parar.

O mar parece pequeno
O mundo parece pequeno
Com ela ao meu lado, tudo é pequeno
Apenas o meu amor é grande.

O mar me parece inofensivo
Tendo a moça comigo, minha coragem não tem fim
Eu sou o Capitão agora
E a levo em segurança para casa.

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